Ainda o sucesso dos alunos

A jornalista Bárbara Wong, autora da notícia aqui comentada, teve a paciência suficiente para responder à crítica/provocação que deixei no Educar em Português, de que é co-autora. Devo dizer que não li apenas a edição on-line.

Mantenho a crítica de falta de trabalho jornalístico, porque não é questão de somenos conhecer o currículo das autoras do estudo, entre outros aspectos. O texto limita-se a indicar em que Universidade trabalham. É pouco. O facto de Cláudia Sarrico ter feito parte do grupo de trabalho que preparou a avaliação externa das escolas não me deixa mais descansado, pelo que explicitarei a seguir

As escolas confrontam-se com vários problemas resultantes das ideias que circulam pelos meios políticos e universitários que presidem às políticas educativas. O pouco que conheço deste estudo leva-me a entrever duas dessas ideias: a imposição acrítica de conceitos vindos das áreas da gestão e da economia e, sobretudo, a diminuta influência da origem social nos resultados escolares.

Já escrevi sobre o primeiro problema (aqui , aqui e aqui). Em síntese, se me parece evidente que há áreas em que a Escola deva recorrer a conceitos das áreas da Gestão e/ou da Economia (e poderá fazê-lo tanto melhor quanto mais autonomia lhe for concedida), a partir do momento em que entramos na área pedagógica, por muito úteis que sejam as estatísticas, há demasiadas variantes a ter em conta, nomeadamente o compromisso que a Escola deve ter com cada aluno e não com objectivos colectivos para enfeitar as estatísticas governamentais, sendo de notar que o próprio Ministério de Educação é o maior factor de instabilidade para o eficaz funcionamento das escolas.

A obsessão por demonstrar que a origem social tem pouca influência já é antiga, como também tive ocasião de demonstrar aqui e aqui. A Sociologia e a Psicologia, a um nível básico, ensinam-nos, exactamente, que o meio tem um peso fundamental no percurso escolar dos alunos. Uma criança que não receba estímulos adequados nos primeiros anos de vida terá mais dificuldades de aprendizagem. Um jovem que não veja, em casa, os adequeados exemplos éticos e cívicos terá mais dificuldade em ser um bom aluno. Quero eu com isto dizer que a Escola e a Sociedade devem desistir desses jovens? De maneira nenhuma. O que contesto é que esta ideia vá germinando, colocando na escola – e não só nos professores – toda a responsabilidade de resolver problemas sociais, o que é uma boa maneira de os governos não cumprirem o seu dever de pôr em prática políticas adequadas.

É por isso, e não só, que este estudo me parece, à partida, deficiente. Um estudo que só se baseia nos resultados de exames de duas disciplinas do 12º ano, o que exclui, por exemplo todos os alunos que se ficam pelo nono ano e muitos dos alunos que fizeram o secundário através da via profissional pode arrogar-se o direito de concluir alguma coisa sobre a importância da origem sócio-económica nos resultados dos alunos? Um estudo que não analisa a vida quotidiana dos alunos, para saber onde vivem, como estudam, com quem vivem, pode chegar a estas conclusões? Um estudo que não analisa o impacte no funcionamento das escolas, devido às sucessivas e frequentes alterações impostas pelo Ministério, consegue explicar cabalmente os vários factores que contribuem para os resultados escolares?

Relativamente, ao editorial de ontem (“Os professores no lugar onde têm de estar”), só tenho a dizer que os professores sempre estiveram onde estão. A sociedade é que anda esquecida dos seus deveres.

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