O confinamento e as escolas

Maurício Brito*
A ver se nos entendemos: o que deveria pesar mais do que qualquer outra coisa é o valor da vida humana. Não está em causa discutir o que é melhor para os alunos, para os pais ou para os professores pois é óbvio que o ensino presencial é insubstituível: para os alunos pelas mais variadas razões e em todos os planos, sejam eles pedagógicos ou sociais; para os pais por ser confortante por diversos motivos; e para os professores, porque sabem que o seu trabalho é incomparavelmente melhor se realizado presencialmente. Mas, volto a dizer, não deveria ser tudo isto a pesar mais numa decisão que, digam o que quiserem e sustentem-se nos estudos que encontrarem, não irá reduzir tão rapidamente o terrível quadro que assistimos neste momento. Irão circular cerca de, afinal, 2,5 milhões de portugueses nos próximos tempos apenas para chegar às escolas. Será necessário fazer um desenho a explicar que isto não faz sentido se o que se pretende é reduzir mais rapidamente uma propagação descontrolada, em que se desconhece a origem de 87% dos contágios e, consequentemente, evitar a perda de mais vidas? Já agora: há algum professor que considere efectivamente que a perda de 15 ou 30 dias de aulas presenciais vá provocar “danos irreversíveis” nas aprendizagens dos nossos alunos? A sério? Quantos alunos ou mesmo turmas inteiras já perderam esses dias de aulas (ou mais ainda) desde que o ano lectivo começou, devido a casos de contágios, quarentenas, outras doenças/lesões e coisas afins? Estes alunos todos estão “irremediavelmente” perdidos? Enfim.
Aguardemos as cenas dos próximos capítulos. Apesar de saber que assim que os “números” abaixarem e voltarem para “valores” mais aceitáveis, os mesmos que não cumpriram as promessas de providenciar meios a alunos, escolas e professores para o ensino à distância, virão cantar vitória, com os comprometidos de sempre da comunicação social a fazer eco do enorme feito. Independentemente das dezenas ou centenas de pessoas que vierem a falecer devido a uma desastrosa decisão.
*Professor

Comments


  1. De facto, será um grande feito fazer com que o número de contagiados com uma infecção respiratória seja menor no final de Fevereiro do que a meio de Janeiro. Adianto, também, desde já, que o confinamento vai fazer subir a temperatura ambiente e aumentar as horas de luz solar. PS: na Suécia não se adoptaram medidas relevantes, e o número de contágios já estacionou (o de mortos, obviamente, ainda vai continuar a subir) ver https://www.reuters.com/article/us-health-coronavirus-sweden-cases/sweden-reports-record-daily-number-of-covid-19-deaths-but-infection-rate-may-have-peaked-idUSKBN29J1NZ.

  2. Paulo Marques says:

    A ver se nos entendemos: se a vida humana não tivesse preço, tínhamos mais uns quantos hospitais e milhares de médicos contractados. Obviamente que há um preço, por desconfortável que seja. E esse preço inclui desprezar o estado psicológico dos profissionais de saúde depois de verem desgraça depois de desgraça.
    Dito o certo, falta o incerto. Se é bom ou mau, ninguém tem certezas, os números o dirão. Neste momento, parece um compromisso razoável com o que há.
    Fora, claro, protecção e meios adequados, de quem diz que tudo será salvo pelos fundos ao mesmo tempo que não há recursos para nada.

  3. Elvimonte says:

    Mais uma visão simplista e redutora de alguém que, apesar de alegadamente professor, ainda hoje afirmaria que o Sol gira em volta da Terra, porque é isso que os olhos enxergam, não fora terem-lhe ensinado o contrário na escola.

    Um alegadamente professor que, pasme-se perante tal espírito científico, afirma a dado trecho: “sustentem-se nos estudos que encontrarem, não irá reduzir tão rapidamente o terrível quadro a que assistimos neste momento.”

    Pois olhe, não será a sua crença – porque é disso que se trata e coitados dos eventuais seus alunos – a contradizer com o seu obscurantismo a ciência que já tinha advertido para o possível carácter sazonal do SARS-CoV-2 (vd. “Global Seasonality of Human Seasonal Coronaviruses: A Clue for Postpandemic Circulating Season of Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2?”, “Global Seasonality of Human Coronaviruses: A Systematic Review”), a par do que acontece com todos os outros coronavírus humanos e demais causadores de infecções respiratórias semelhantes a gripes.

    Na tentativa de mitigar a sua manifesta falta de esclarecimento relativamente a confinamentos e encerramentos de escolas, aqui ficam alguns títulos de artigos científicos e excertos.

    “SARS-CoV-2 waves in Europe: A 2-stratum SEIRS model solution”
    «We searched what isolation values allow to return to normal life in 90 days minimizing final deaths, shockingly all found isolations for healthy <60 [years] were negative (i.e. coronavirus parties minimize final deaths).»

    “Effect of school closures on mortality from coronavirus disease 2019: old and new predictions”
    «(…) school closures and isolation of younger people would increase the total number of deaths, albeit postponed to a second and subsequent waves.»

    “Association between living with children and outcomes from COVID-19: an OpenSAFELY cohort study of 12 million adults in England”
    «Among 9,157,814 adults <=65 years, living with children 0-11 years was not associated with increased risks of recorded SARS-CoV-2 infection, COVID-19 related hospital or ICU admission but was associated with reduced risk of COVID-19 death (HR 0.75, 95%CI 0.62-0.92). Living with children aged 12-18 years was associated with a small increased risk of recorded SARS-CoV-2 infection (HR 1.08, 95%CI 1.03-1.13), but not associated with other COVID-19 outcomes. Living with children of any age was also associated with lower risk of dying from non-COVID-19 causes. Among 2,567,671 adults >65 years there was no association between living with children and outcomes related to SARS-CoV-2. We observed no consistent changes in risk following school closure.»

    “Covid-19 Mortality: A Matter of Vulnerability Among Nations Facing Limited Margins of Adaptation”
    «Higher Covid death rates are observed in the [25/65°] latitude and in the [−35/−125°] longitude ranges. The national criteria most associated with death rate are life expectancy and its slowdown, public health context (metabolic and non-communicable diseases (NCD) burden vs. infectious diseases prevalence), economy (growth national product, financial support), and environment (temperature, ultra-violet index). Stringency of the measures settled to fight pandemia, including lockdown, did not appear to be linked with death rate.»

    “Impact of non-pharmaceutical interventions against COVID-19 in Europe: a quasi-experimental study”
    «Surprisingly, stay-home measures showed a positive association with cases. This means that as the number of lock-down days increased, so did the number of cases. The use of face coverings initially seems to have had a protective effect. However, after day 15 of the face covering advisories or requirements, the number of cases started to rise. Similar patterns were observed for the relationship between face coverings and deaths. (…) These results would suggest that the widespread use of face masks or coverings in the community do not provide any benefit. Indeed, there is even a suggestion that they may actually increase risk, but as stated previously, we feel that the data on face coverings are too preliminary to inform public policy. We have more confidence that results for stay at home orders suggest that such orders may not be required to ensure outbreak control.»

    A realidade é uma função de múltiplas variáveis aleatórias, um processo estocástico muitas das vezes contra-intuitivo. Linear só mesmo uma recta.


  4. Mais um professor idiota…

    Viva o Mítico RNA “SARS-CoV-2”!

    A foder escravos boçais como eles merecem.

    • POIS! says:

      Pois é!

      A nossa solidariedade para com V. Exa, que tem sido, realmente, muito sacrificado. Não bastava o que já existia, que obrigava V. Exa. a uma desmesurada exaustão, e agora ainda tinha de vir o insaciável Covide. Não se faz, assim já nem deve dar prazer nem nada. Lamentável!

  5. Luís Lavoura says:

    “o que deveria pesar mais do que qualquer outra coisa é o valor da vida humana”

    Asneira.

    O valor da vida humana mede-se por aquilo para que ela serve. Não é um valor absoluto e imutável.

    A vida de um jovem de 20 anos tem mais valor que a de um velho de 80.

    Uma vida que de pouco serve e pouca utilidade tem, tem pouco valor.

    • António Fernando Nabais says:

      Luís, não é meu costume insultar explicitamente comentadores, mas hoje tenho de abrir uma excepção: este seu comentário, na minha opinião, é digno de uma besta.

      • Nascimento says:

        ” Se Isto é uma mulher”, sobre Ravensbrück. Belíssimo livro que acabei de ler há pouco tempo. Conhecem? Não? eu estive “lá”… e, por duas vezes, convivi e mantive contacto com uma grande Amiga infelizmente já desaparecida: Ingrid Rabe. Que velha Senhora! Que Vida… de um sofrimento incalculável, mas quanta Alegria. Quanta Resistência e coragem naquele seu corpo traquina, nervoso, de ex bailarina mas manco por experiencias feitas com ele . Mais não digo. Mas digo uma coisa: sabem porque é que nunca dou o flanco a filhos da puta? Não? Paciência. Ordinário! Não sou?Pois é… ó Laboura vai prá P. que te P. !

      • POIS! says:

        Pois é.

        E correndo o risco de o insultar, Nabais, acho que foi um pouco brando.

  6. Maurício Brito says:

    António, obrigado pela partilha.

  7. Filipe Bastos says:

    Asneira.
    O valor da vida humana mede-se por aquilo para que ela serve. Não é um valor absoluto e imutável.
    A vida de um jovem de 20 anos tem mais valor que a de um velho de 80. Uma vida que de pouco serve e pouca utilidade tem, tem pouco valor.

    Agora entendo as referências aqui e ali a ‘lavouradas’.

    Sejamos advogado do diabo. A lógica acima soa cínica e canalha, mas o Lavoura não a inventou: apenas constata certa realidade do mundo. Para os jovens tudo, para os velhos nada.

    Legalmente, não há distinção entre matar um jovem de 20 anos ou um velho de 80. Mas há uma diferença, digamos contabilística, que é inegável. E tal como a clássica questão de matar uma pessoa para salvar dez, encerra um inegável dilema moral.

    Numa situação limite, tendo de se optar entre eles, quem se deve salvar? O de 20 anos ou o de 80? O que calhar? E se o de 80 for um cientista brilhante e o de 20 um patife? E ao contrário?

    • Paulo Marques says:

      Como só deus sabe, os códigos de ética profissionais e leis não fazem distinção por esses critérios.

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