Orgulho no passado?

Há pessoas que louvam a grandiosidade do passado português, com um discurso que revela arrepios e êxtases. As batalhas medievais, a gesta dos Descobrimentos, a acção dos restauradores da Independência, tudo é apainelado, pintado em murais virtuais gigantescos, do tamanho de uma glória incomensurável.

Não sou insensível aos feitos extraordinários dos nossos antepassados. É verdadeiramente incrível a coragem de quem participou num combate medieval ou a abnegação de quem viajou em frágeis naus por oceanos desconhecidos e entrou em selvas inóspitas. Talvez por ser um impotente de sentimento, como dizia Carlos da Maia, não consigo, no entanto, sentir orgulho, admiro à distância, gosto de saber, consigo espantar-me.

As mesmas pessoas que sentem orgulho no passado relativizam quase sempre as atrocidades. Ou porque outros fizeram antes o mesmo ou pior ou porque não fomos tão maus como os outros ou (e este é sempre muito interessante) porque é preciso atender ao contexto. Também há quem defenda que, no meio de tudo, interessa realçar o papel civilizador.

Colonizar um território foi sempre o mesmo – é como se eu, transportando uma arma, uma cultura e uma religião, entrasse no apartamento de uma família desarmada e lhes explicasse, tendo em conta a evidência da arma e a superioridade da cultura, que teriam de passar a viver na despensa, passando a existir para me servir a mim e aos meus. Algures, no meio ou no fim da história, ainda ficaria surpreendido com alguma reacção agressiva.

Os vícios hoje relativizados já eram evidenciados em textos da época, que são sempre documentos, por muito ficcionais que sejam. O marido, no Auto da Índia, o Velho do Restelo e o poeta d’Os Lusíadas ou Fernão Mendes Pinto, entre muitos outros, deixaram-nos muitas críticas e autocríticas.

Para os panegiristas da História, as virtudes são sempre absolutas e universais; os defeitos ou os vícios são sempre relativos, quase desculpáveis. Para as virtudes, a emoção; a razão, para os defeitos.

Como já tive ocasião de dizer, não estou interessado em levar o passado a tribunal, pondo o presente no banco dos réus. Se fosse filho de um assassino, era o que faltava sentir-me herdeiro de homicídios; também não passo a ser maravilhoso por ser filho de um herói ou honesto por ser filho de uma pessoa séria.

As reacções ao passado dizem muito sobre a nossa maturidade como povo. A vaidade e o asco devem ser ouvidos, mas não são conselheiros fiáveis.

Comments


  1. As visões sobre o passado também firam mudando ao longo do… passado.
    A primeira visão não é sobre acção civilizadora mas sobre feitos militareis, diplomáticos e conversões ao cristianismo: a Índia tinha uma civilização requintada e havia sólidas rotas comerciais que tomámos dos muçulmanos.
    A “acção civilizadora” ou o fardo do homem branco é do séc. XIX.

    • António Fernando Nabais says:

      Muito bem notado.


      • Muito obrigado. Mas admiro a nossa história e estas grandezas que foram grandes por 15 anos ( 1515-1530?). Admiro ainda mais o fazer das fraquezas forças que é o que pode acontecer a quem é introduzido a estes assuntos sérios através de Fernão Mendes Pinto.

    • Paulo Marques says:

      E interessa também realçar que o papel civilizador só surge como desculpa para ter ignorado a retracção das bulas papais por alguns séculos.

  2. POIS! says:

    Pois Nabais, tenho de confessar: tenho orgulho no passado. Aliás, ainda ontem fiz e todos os presentes gostaram. O segredo? Está nas brasas. E no molho.

    Gosto mais bem passado, mas não demasiado. O mal passado, pode ser igualmente bom, mas nada de exageros. Até por causa do ácido úrico.

  3. Marco Antunes says:

    Pois. o problema é que há quem queira levar o passado a tribunal e por o presente não no banco dos réus, mas no cumprimento de uma pena eterna passando inclusivé pela total destruição de memórias físicas e apagamento do que aconteceu.
    Chama-se destruir e reescrever a história.
    Portugal passaria a ser colonizado em termos da sua identidade tal como a conhecemos.

    • POIS! says:

      Pois é, é como eu dizia! Tem V. Exa. toneladas de carradas de razão.

      É no campo da nossa identidade que se trava o grande e decisivo conflito que envolve o passado, a verdadeira batalha entre o bem e o mal.

      Até porque destruir e reescrever a história não é coisa fácil. É, aliás, um bom bife!

    • Paulo Marques says:

      Não, o problema é que se continue a ignorar os efeitos da subhumanização no que acontece ainda hoje, como se as camadas de hipocrisia e legalismo o conseguissem evitar, ou que sequer é para isso que existem.
      Alguém que é capaz de dizer que se quer apagar não é capaz de perceber que o problema é que as acções e justificações se repetem hoje. Não, o que se quer é “nunca mais”.

      • Marco Antunes says:

        E como é que o “nunca mais”, com o qual concordo, é conseguido com o apagar do que aconteceu?
        Mediatizar casos como racismo sem que haja qualquer racismo, não ensinar a história como aconteceu referindo o que de mal se fez para que que não se volte a fazer, é que vai conduzir ao “nunca mais”? E porque não destruir todos os vestígios do colonialismo nos países que foram colonizados? Se não o fazem porque o querem fazer com os monumentos que tem alguma relação com o colonialismo nos países que foram colonizadores?
        E que tal ter ações concretas para que os deveres, direitos e oportunidades iguais sejam uma realidade para todos em vez de se andarem a desgastar em ações simbólicas que a nada de positivo conduzem. Muito pelo contrário, ainda acicatam posições cujo desvanecimento já estava a acontecer.

        • Paulo Marques says:

          Se não nota que há reacções diferentes consoante a etnia, o problema é seu, não é de quem vê. Há sempre desculpas para uns e não para outros.
          Não, a menos que haja algo na obra que desconheço, não acho que o mamarracho precise de sair. Mas também não sei porque se faz caso quando alguém que não representa nada a não ser o seu privilégio diz coisas. Porque, sim, ensinar é que é importante. E nem seria novo, há mais de um século se escreveu
          “O domínio portuguez adquiria logo de início o carácter duplo que jamais perdeu (…) Era no mar uma anarquia de roubos, na terra uma série de depredações sanguinárias. Vasco da Gama ensinara o modo de imperar com o fogo e o sangue”.
          Saber sei, é desconversar, porque só se lembram do assunto quando há reacção ao abuso.

          • Marco Antunes says:

            Não noto? É possível não notar? Vejamos: os portugueses (foram ?) (são?) do piorio no mundo, mas muitos dos que partilham essa opinião ambicionam e tudo fazem para obter a nacionalidade portuguesa.

            E quanto a desculpas, tem razão, há muitas desculpas. Sempre que a policia intervém num caso com um “não branco”, seja lá o que for ser branco, é racismo ou força excessiva, mesmo quando há razões inequívocas para a intervenção e a mesma segue os padrões normais independentemente dos envolvidos.

            Mas pronto, se as diferenças se ficassem apenas pela opinião e não pelo insulto e falta de respeito, seria tudo mais de fácil resolução.

          • Paulo Marques says:

            Lá está a desconversa. Ninguém disse esse moinho de vento, nem estou para o corrigir. Se se sente insultado, não sei que lhe diga, não sou professor de português.
            Há sempre razões inequívocas. Mesmo quando a Inspecção-Geral da Administração Interna diz que “a falsificação de autos de notícia não é inédita, nem este caso é único”. São violentos e pronto.

  4. POIS! says:

    Conheço uma pessoa que foi professora de português (Língua e Cultura) numa universidade da RP da China.

    Primeira constatação: o português, salvo raras exceções, não era propriamente a primeira escolha dos alunos. Muito menos o português da Europa.

    Dez milhões de habitantes? Ora essa! Há lá “freguesias” com muito mais. O que os motivava era, ainda assim, o Brasil ,até certo ponto, Angola e Moçambique. Mas ficou com a impressão que teriam preferido o castelhano.

    Ora um dia, já lá para o meio do curso, resolveu a professora introduzir os alunos à literatura e à história deste cantinho, mais propriamente aos “Lusíadas”, como pretexto para falar também, logicamente dos Descobrimentos.

    Quando pronunciou o nome de Vasco da Gama, o que pensam que aconteceu? Dou três hipóteses:

    Primeira: fez-se um silêncio respeitoso e todos ficaram embevecidos a ouvir os relatos dos feitos dos nossos heróis quinhentistas?

    Segunda: os alunos formularam questões sobre como um país tão pequeno foi capaz de chegar tão longe e de construir um tão grande império, assentando padrões e raízes até na própria China?

    Terceira: desatou tudo a rir à gargalhada e a mandar piadas em chinês de que todos se riam cada vez mais?

    Pois bem: para eles o Vasquinho do Gamanço não era mais que uma “barata tonta” que descobriu aquilo que os chineses já conheciam há centenas de anos. Os chineses sabiam perfeitamente como se chegava à Europa por mar. Muito antes dos portugueses estiveram na África Oriental e terão mesmo chegado à América. Não “viraram” para a Europa, e não colonizaram outras paragens, por opção, não por desconhecimento nem atraso técnológico.

    Aqueles chineses orgulham-se cá de um passado! Coitados! E ainda achincalham os dos outros! Pobrezinhos! Tanto que a gente fez por eles em Macau para isto!


    • Pois, e os chineses foram os primeiros a ir á lua. Yah rigth!

      • POIS! says:

        Pois foi!

        Foi o taikonauta chinês Oliveng Salazhang, que ia acompanhado da astronauta portuguesa Fátima Amália Lúcia e pelo cosmonauta mirandês Cardenal Manolo Cerezo, este especialmente encarregado de encavar uma cruz com 50 metros de altura no solo lunar.

        Mas a bordo de uma cápsula “Viriato”, impulsionada por um poderoso foguetão “Cabral”, lançado da base do Cabo Carvoeiro no dia 28 de maio de 1966, na sequência do impulso dado pelo lugar dos “magriços” no Mundial. Aliás, o próprio Eusébio esteve para embarcar no foguetão mas, infelizmente, o Benfica não deixou.

        O lançamento foi acionado por Américo Thomaz, pelas sete e picos, depois de intensivamente treinado para carregar num botão, já que estava mais habituado a tesouras.

        Pelas 7 da noite, às horas a que a RTP abria, viu-se a chegada á Lua. Lembro-me perfeitamente das deslumbrantes cores das dunas lunares. Foi inesquecível!

        Claro que há más línguas que continuam a negar a existência desta histórica missão, dizendo que as imagens daquela malta a comer batatas com bacalhau e a beber tinto do Cartaxo em pleno Mar da Tranquilidade foram filmadas nos estúdios do Lumiar.

        Realmente há umas coisas esquisitas. Pincipalmente o Mar estar mesmo cheio de água. Lembrava a Costa da Caparica, mas não era, até porque não havia sinal de bolas de berlim.

        Avaliação do “Poislígrafo” da afirmação de EMS: “Pois, e os chineses foram os primeiros a ir á lua. Yah rigth!”:

        “É verdade! Que que foi produzida por um idiota chapado!”

  5. Filipe Bastos says:

    “Colonizar um território … é como se eu, transportando uma arma, uma cultura e uma religião, entrasse no apartamento de uma família desarmada e lhes explicasse … que teriam de passar a viver na despensa, passando a existir para me servir a mim e aos meus.”

    Um apartamento dá a entender que a família vive em condições (para nós) civilizadas; na maioria dos casos não era assim. E não estavam desarmados, os ‘colonizadores’ apenas tinham armas melhores. Essa analogia encerra certo lirismo.

    É o lirismo dos povos pacíficos e espiritualmente elevados que foram massacrados e escravizados pelos europeus. Só a segunda metade é verdade; escravatura e barbárie estão longe de ser exclusivos europeus. Como ainda hoje se vê.

    Patriotismo e orgulho no passado é conversa de parolo ou, como dizia Samuel Johnson, de canalha. Não escolhemos onde nascemos, não contribuímos em nada para esse passado.

    • Paulo Marques says:

      O “lirismo de povos pacíficos” existe, mas é largamente um espantalho de pessoas que não interessam a ninguém e uma distracção. O problema é glorificação e o apagamento do que custou o prestígio, que, de resto, para nada serviu. Até porque, como diz, o orgulho é parvo; para bem e para o mal, nada temos a ver com isso, mas temos a ver com a perpetuação da exploração e de bodes expiatórios para insegurança que nem sequer existe.


    • “Um apartamento dá a entender que a família vive em condições (para nós) civilizadas”
      Nem que sejam gunas a viver em bairros sociais não é decente invadir os apartamentos das outras pessoas mesmo com a desculpa de as educar (e ficar com as joias da avozinha deles e por a filha boazona a render).

      • POIS! says:

        Pois tenha cuidado!

        Não deve divulgar assim experiências pessoais que podem ser traumatizantes. E muito menos as atividades económicas que envolvem os rendimentos da família. Olhe que este país é muito pequeno, tudo se sabe!

    • Filipe Bastos says:

      …a perpetuação da exploração…

      A exploração é hoje perpetuada por mamões – Banca, FMI, multinacionais, ‘mercados’, etc. – que nos exploram também a nós, e pelos caciques locais. África teve já muitas décadas e só piorou. A culpa não pode ser europeia para sempre.

      Tal como o Estado Novo serve de desculpa e de bicho papão a este regime podre, os europeus são os eternos maus da fita de ditadores africanos e afins. Já não pega.

      Quanto ao resto, de acordo: nem glorificar o passado, nem apagá-lo. Foi o que foi. Se lá estivéssemos que teríamos feito? Nunca saberemos; não seríamos nós, seríamos outros.

      Nem que sejam gunas a viver em bairros sociais não é decente…

      Concordo, não é decente. À luz de como hoje pensamos, não há desculpa. Os avanços que os europeus deixaram não justificam a forma como exploraram e trataram outros povos.

    • Pimba! says:

      Caro Filipe, tem razäo, apenas um reparo:

      Nacionalismo e orgulho no passado é conversa de parolo ou, como dizia Samuel Johnson, de canalha.

      Patriotismo é amarmos a terra onde calhámos a nascer, nacionalismo é odiarmos os outros só porque näo calharem a nascer do mesmo lado da fronteira.
      Uma pequena enorme diferenc,a.

      Eu sou patriota (Portugal é lindo, mas outros países o são também), e abnego qualquer nacionalista.

  6. whale project says:

    O colonialismo é sempre mau, seja qual for o povo que o protagonize, por muito benevolente que pareça. Porque parte sempre do péssimo princípio que a minha maneira de fazer as coisas é melhor e os outros são uma trampa. E muitas vezes nem é preciso haver racismo. Ingleses e irlandeses eram ambos brancos mas os ingleses nem as árvores lá deixaram. Timorenses e indonésios são a mesma gente em termos raciais, mas muito já se escreveu e disse sobre o que os indonésios por lá fizeram, que até deixaram a população a pensar que os colonizadores brancos tinham sido bons.
    Orgulho no nosso passado? Como descendente de um criminoso de guerra que se gabava de o ter sido á criança que eu era, não posso ter nenhum orgulho na gesta de África. Mas tenho orgulho no modo como conseguimos evitar ser colonizados, ter o mesmo destino cruel de bascos, catalães e galegos, dos andaluzes enfiados em camiões de gado e mandados para o País Basco para alterar a composição étnica daquelas terras. Enfim, de entre todos os “velhos” portugueses, ponho uma velinha a D. João IV e ao seu povo, que nos livraram de coisinhas como apanhar cadeia por falar mal do assassino de elefantes.

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