Olof Palme

Reza a lenda que, no pós-25 de Abril, numa visita de Estado a Estocolmo, Olof Palme terá questionado Otelo Saraiva de Carvalho sobre o propósito da revolução. Perante a resposta “acabar com os ricos”, Palme ter-lhe-á dito que, na Suécia, estavam há 20 anos a tentar acabar com os pobres. Nos 11 anos que se passaram entre este encontro e a noite do seu assassinato, a 28 de Fevereiro de 1986, Olof Palme dedicou a sua carreira política a este e a outros propósitos, igualmente nobres, deixando para trás um legado que se perpetuou até aos dias de hoje e que em muito contribuiu para que a Suécia se tornasse numa das mais prósperas nações do planeta, onde os poucos pobres que restam estão mais protegidos do que muitos daqueles que, por cá e não só, trabalham de sol a sol.

Olof Palme foi uma das grandes figuras da social-democracia, apologista de um modelo económico misto, capaz de conciliar uma iniciativa privada livre com um Estado Social robusto e abrangente, que não deixava ninguém para trás. Destacado defensor do sindicalismo, foi sob a sua batuta que se registaram os maiores avanços em matéria de legislação laboral, garantindo uma ampla moldura de direitos e protecções aos trabalhadores.


A governação de Olof Palme foi sinónimo de outros avanços e conquistas nas áreas da Saúde, da Educação ou da Segurança Social, sempre com o foco em políticas de redistribuição e auxílio aos mais desfavorecidos, doentes, incapacitados ou desempregados, sem esquecer a habitação ou o apoio na maternidade. Nos anos 70, durante a sua governação, o Estado Social sueco conheceu uma expansão sem precedentes, transformando a Suécia num farol de humanidade e empatia, de liberdade, igualdade e fraternidade. Quando a crise bateu à porta, em meados da década de 70, Palme respondeu com tributação progressiva, visando as franjas mais abastadas e dividiu equitativamente os sacrifícios, de forma justa e equilibrada.

No plano internacional, Palme foi crítico de todos os extremismos. Combateu o imperialismo estado-unidense com o mesmo vigor que Co bateu o totalitarismo soviético. Condenou a Guerra do Vietnam com a mesma coragem com que denunciou a repressão soviética da Primavera de Praga. Defendeu movimentos independentistas, bateu-se pela descolonização, e criticou os facínoras do seu tempo, de Franco a  Pinochet, passando pelos satélites de Moscovo, sem esquecer Salazar.

Sem querer entrar em canonizações, arrisco dizer que, como poucos, muito poucos, Olof Palme esteve sempre do lado certo da luta. Do lado da dignidade e dos direitos humanos, da autodeterminação dos povos, da rejeição do extremismo autoritário e do capitalismo predador. Do lado da Saúde, da Educação e da Habitação para todos. Do lado da protecção dos mais frágeis. Do lado da justiça social. Do lado da democracia.

Comments

  1. Paulo Marques says:

    Por alguma razão foi assassinado, se calhar foi o Otelo que também não gostou.
    Mas tinha razão, provavelmente porque não precisava de inventar micro-modelos para fazer carreira e percebia que o dinheiro não cresce nos ricos. Mas era um chuleco a falar de problemas raciais e feminismo, não servia para um país honrado como o nosso.

    • José Peralta says:

      Paulo Marques

      “O dinheiro não cresce nos ricos. Mas era um chuleco a falar de problemas raciais e feminismo, não servia para um país honrado como o nosso”

      Ah ! Pois não ! É vê-los aos ricos., andrajosos, pelas ruelas e veredas do país,e à porta das Igrejas, de mão estendida :

      “Por favor, dêem uma esmolinha a este pobre milionário, que não pode pagar o colégio de luxo e a Faculdade aos seus pobres “meninos”, nem o “yate”, os trabalhadores dos palacetes,e das quintas não tenho dinheiro para pagar aos 200 operários que tenho na fábrica, nem às 20 empregadas domésticas, aos motoristas dos Bentleys,e Mercedes”…

      “Nem uma côdea tenho, para matar a fome à família…e qualquer dia, ainda tenho que fugir para o Brasil”…

      “Tudo por causa desse chuleco” Otelo e do 25 de Abril”..

      “Para quê o 25 de Abril de 74, meu Deus ?” (são sempre muito “católicos” estes biltres !

      “Para “chulecos” já cá estávamos nós”, neste país honrado como o nosso…

      Tínhamos capela privada lá na quinta, ao lado da cavalariça ou da piscina, tínhamos os “ballets rose” para nos divertirmos com meninas pobres de 12 anos, as nossas mulheres, quero dizer, as nossas esposas, quando “precisavam”, vestiam o “vison” e iam abortar ao “estrangeiro”, porque as “mulheres” pobres “faziam desmanchos” em parteiras de vão de escada, e morriam ou eram presas…

      Uma “tragédia”…, o 25 de Abril…

  2. Filipe Bastos says:

    Independentemente dos méritos de Palme, essa frase sempre me deixou a pensar. É daquelas que parecem mesmo bem metidas, com que ninguém pode discordar, mas não são bem assim.

    Pode não ser preciso acabar com os ricos, mas é certamente preciso limitá-los. A evidência é o resto do mundo, fora da quase exclusiva excepção escandinava. E mesmo lá a desigualdade cresce.

    Acresce que para quem vem de uma desigualdade muito superior à dos suecos, em 74 como agora, ‘acabar com os ricos’ não parece tão exagerado. Reconstruir implica demolir. E os mamões, se deixados intactos, hão-de travar ou desfazer tudo. Como se viu cá.

    • LUIS COELHO says:

      Para sermos objectivos e conseguirmos o que se pretende, temos que aproveitar o conhecimento e prática dos mamões e pô-los a trabalhar em prol do país. A forma de o fazer pode ser complicada, mas se garrotar-mos ou fuzilar-mos dois ou três mais renitentes acredito que os outros colaboram, porque quem tem cu tem medo e a maioria desses mamões são cobardes! a especialidade deles e roubar o povo e o país com a conivência e cobertura de quem nos desgoverna!

    • POIS! says:

      Pois aproveite, Bastos. Aproveite!

      Já tem um compincha para as FP27.qualquercoisa. O Coelho é teso!

      Já pode trocar o terrorismo portátil por um mais imóvel. E apostar num sofá panorâmico. Mas fica caro. O melhor é arranjar um patrocinador. Talvez um dos mamões colaboracionistas poupados ao fuzilamento por garrote tenha lá qualquer coisa em armazém.

    • Filipe Bastos says:

      Pois obrigado, POIS. Já a si nunca falta companhia.

      Para lembrar os saudosos comícios de 1978, combater fascismo imaginário, rogar pragas ao Botas e festejar a gloriosa marcha em direcção ao socialismo, à vertiginosa velocidade de 0,5 cm por ano, tem sempre os marretas do PCP.

      Para berrar contra as selvagens e infindáveis ‘micro-ofensas’ racistas, homofóbicas, transfóbicas e islamofóbicas, neste país horrivelmente racista e xptofóbico que mete inveja a qualquer KKK, tem o Paulo e o Berloque ao dispor.

      Para cantar loas à nossa insigne ‘democracia’ e ínclito ‘estado de direito’, defender o ‘bom nome’ de políticos e sucateiros, aplicar muitos eufemismos e paninhos quentes, resignar-se à podridão e à bandalheira, tem consigo meio país.

      Em tudo isto, como cantam os adeptos futeboleiros ingleses, you’ll never walk alone. Terá sempre a força do rebanho.

      • POIS! says:

        Pois tá bem!

        Já sabíamos que V. Exa. era um cabresto independente e isento. Mas agora já pode acasalar. Limitei-me a chamar a atenção. De outro modo era uma oportunidade perdida.

      • Paulo Marques says:

        Micro?!? Serem espancados com pela polícia e seguranças é micro? Serem violadas e ouvir que mereceram é micro? Terem comentários dos colegas sobre a roupa, maquilhagem, etc todos os dias é micro? Não olharem para a candidatura por causa do nome é micro?
        Não faz ideia do que diz, nem quer saber. Aliás, até convém que outros estejam piores, para se odiar um pouco menos odiando os outros.

    • Paulo Marques says:

      Até há ricos só por poupança, o problema não é existirem, é como obteram e o que compram com o que têm. E, sim, isso é que deve ser limitado.

  3. Pimba! says:

    Mas quando eu defendia (e defendo) o modelo escandinavo do Olof Palme chamaram-me (e chamam) de COMUNA!

    Aliás, o Reagan referia-se a Palme como “um perigoso esquerdista” (hoje em dia diria “esquerdalho”)…

  4. Samuel Clemens says:

    Acabar com os ricos e acabar com os pobres, são sinónimos.
    Para quem estiver de boa fé !

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