Também tu, bruta?

Diz a regra que só há notícia quando o homem morde o cão. Assim, é natural que uma mulher ciumenta que esfaqueou o marido 22 vezes tenha sido notícia em Inglaterra. Por incrível que pareça, o marido sobreviveu, o que é tão insólito que tem também de ser notícia.

Em Inglaterra, a comunicação social pôs a ênfase no número de facadas. Por cá, o Correio da Manhã realçou o facto de o marido ter perdoado a mulher, que é, na verdade, outra faceta inaudita, mas talvez o limite do homem fosse a vigésima segunda facada. A vigésima terceira seria falta de respeito. Talvez a esposa enraivecida tenha parado, ao ouvir o homem ensanguentado e indignado: “Se voltas a esfaquear-me, está tudo acabado entre nós!”

Outra possível explicação para o número de facadas pode estar, ainda, na idade do filho. O rapaz tem 22 anos. Coincidência? Não me parece. O mesmo rapaz escondeu as armas do crime e chamou a ambulância, dizendo, de acordo com a notícia, que “o pai estava deitado no chão com ferimentos na cabeça e um furo nas costas.” Enquanto esperava, ficou a jogar futebol no jardim. Por um lado, parece ser um rapaz com grande poder de observação; por outro, não gosta de desperdiçar tempo.

Joanne declarou que não queria matar o marido, apenas magoá-lo. Tendo em conta o resultado obtido, só podemos reconhecer a competência da senhora. Para já, irá passar seis anos na prisão e, quando sair, terá o marido amantíssimo à espera, numa casa em que não haverá um único canivete. Manda-se vir tudo o que tiver de ser cortado e serão felizes para sempre.

Em 44 a. C., no dia 15 de Março, Júlio César era assassinado com – muita atenção! – 23 facadas. É preciso muito cuidado com os Idos de Março. A desconfiança de que houve facadita no matrimónio ou a ânsia do poder absoluto, e eis que uma pessoa acaba a esvair-se em sangue…

E por falar em romanos, isto do ciúme já era explicado por Catulo, que se tinha inspirado em Safo. Eis os sintomas, na tradução de Maria Helena da Rocha Pereira:

 

mas entorpece-se a língua, nos membros

corre uma ténue chama, os ouvidos

retinem de zumbidos, aos olhos ambos

cobre-os a noite

 

Daqui ao crime é um instantinho.

Comments

  1. César P. Sousa says:

    Ele andava mesmo a pedi-las !

    • Paulo Marques says:

      Se fosse por o jantar ter queimado, ainda se percebia.

  2. POIS! says:

    Pois mas há que investigar!

    22 é muita facada! E a faca não partiu? Custa a acreditar.

    A não ser que tenha sido fabricada em Palaçoulo! Só pode!

  3. Paulo Dias says:

    E quantas ‘facadas’ é que ele já teria dado e o matrimónio sem dar um ‘ai’ que fosse? Explicaria a capacidade de perdão do consorte, que melhor termo não lobrigo para quem se safou desta…