A Deontologia vai de Expresso

Segundo o nosso leitor A. Rebelo Reis, o actual director do Expresso, João Vieira Pereira, acumulou o jornalismo com a assessoria enquanto responsável pela estratégia de comunicação da Federação Portuguesa de Golfe.

Este nosso leitor apresentou uma queixa ao Conselho Deontológico da Carteira Profissional no passado dia 10 de Março:

Serve este email para apresentar participação contra João Vieira Pereira, atual diretor do jornal “Expresso”, por prática de atividade incompatível com a profissão de jornalista.
Entre 2012 e 2016, João Vieira Pereira integrou a direção da Federação Portuguesa de Golfe (FPG), presidida então por Manuel Agrellos, como é facilmente comprovável neste Relatório e Contas da FPG:

http://portal.fpg.pt/wp-content/uploads/2017/09/RelatorioContas-2014.pdf

Na apresentação da candidatura, Agrellos admitiu que o então diretor-adjunto do Expresso e também diretor da revista “Exame” ficaria “responsável pelo desenvolvimento da imagem e divulgação da Federação Portuguesa de Golfe”:

http://portugalgolf.pt/paginas_212/noticias_varios_8_2012_04_02.htm

Tal situação colide com o art.º 3 do Estatuto do Jornalista: “O exercício da profissão de jornalista é incompatível com o desempenho de: (…) Funções de marketing, relações públicas, assessoria de imprensa e consultoria em comunicação ou imagem (…)”
De igual modo, parece não respeitar o artigo n.º 11 do Código Deontológico dos Jornalistas: “O jornalista deve recusar funções, tarefas e benefícios suscetíveis de comprometer o seu estatuto de independência e a sua integridade profissional.”
Alguém admitiria que um diretor do Expresso ou de outro jornal de referência fosse, por exemplo, membro da direção da Federação Portuguesa de Futebol, ficando responsável pelo “desenvolvimento da sua imagem e divulgação”?
Na mesma altura em que João Vieira Pereira era diretor-adjunto do Expresso e membro da direção da Federação Portuguesa de Golfe, o semanário distribuía um suplemento de golfe que chegou a noticiar a participação do seu diretor-adjunto num torneio de golfe patrocinado pelo jornal:

https://docplayer.com.br/33047696-Uma-equipa-do-expresso-vai-pela.html

Em 2016, João Vieira Pereira foi candidato a vice-presidente da Federação Portuguesa de Golfe na lista liderada pelo antigo ministro da Saúde Luís Filipe Pereira. A votação acabou, porém, por ser vencida pela lista adversária, liderada pelo atual presidente, Miguel Franco de Sousa.
Face ao exposto, solicito à Comissão da Carteira Profissional de Jornalista que abra o competente processo de contraordenação para avaliar se a atividade desenvolvida por João Vieira Pereira durante o período em que integrou a direção da Federação Portuguesa de Golfe (2012/2016) é ou não compatível com a atividade de jornalista.

Melhores cumprimentos,

A. Rebelo Reis

Nos últimos tempos sucedem-se notícias nada agradáveis para o jornalismo em Portugal. Não sei se repararam mas, por exemplo, os telejornais da noite dos dois canais privados (SIC e TVI) misturam, cada vez mais, informação com peças “jornalísticas” a promover os seus programas de entretenimento.

A recente transferência de Cristina Ferreira da SIC para a TVI fez aumentar esta prática. A somar a isso temos a denúncia feita pelo jornalista Pedro Tadeu sobre a prática de “recrutamento de jornalistas” para a produção de peças “de alfaiate” noticioso a colocar nos tais telejornais. Ou a chamada de atenção feita pelo jornalista Miguel Carvalho na sua página de facebook a propósito desta notícia, dando a entender que já se faz isto em Portugal. Sem esquecer a famosa história dos jornalistas avençados do BES cuja lista o Expresso prometeu publicar e até hoje nada.

Entendo que é urgente debater de forma clara e aprofundada o papel do jornalismo e do jornalista no presente e futuro. O mundo mudou. O jornalismo não pode ficar para trás. Como? Respondam os especialistas. Sem amarras ideológicas, sff.

Comments


  1. Jornalismo = espécie em vias de extinção. O desaparecimento da biodiversidade acontece com os animais mas também com muitas profissões. Esta é com certeza uma delas.

    • POIS! says:

      Pois é! = extinção acelerada!

      Só no ano passado morreram 20 mil. No Mundo? Não! Apenas na Marinha Grande!

      Soube de fonte segura!

  2. Filipe Bastos says:

    Já acreditei que o jornalismo podia ser regulado apenas pelo mercado: bom jornalismo sobrevivia, mau jornalismo não. Claro que isto foi antes do Google, Facebook, Twitter, etc.; e mesmo então era uma ideia ingénua e irrealista.

    A primeira ingenuidade é supor que a maioria das pessoas quer bom jornalismo; a segunda é supor que querem pagar por ele.

    A carneirada quer bola, celebridades e outras vacuidades. E se as puder ter de borla nos Facebooks da vida, mais as notícias básicas de que só lê as manchetes, jamais pagará um euro por isso.

    Os poucos bons jornais que restam dependem de esmolas públicas e/ou de patrocinadores. Em ambos os casos ficam reféns: ou de governos sucateiros, ou de mamões privados.

    Há depois casos híbridos e estranhos como o Guardian: está falido mas paga belos salários, diz ser financiado por subscritores mas pertence a um ‘fundo’ manhoso, diz-se independente mas tem publicidade, está alojado na Amazon, etc.

    Que solução? Só vejo uma, a mesma de outros problemas: uma entidade independente, pública, que financie e fiscalize a actividade. Tem de ser autónoma e responder directamente aos cidadãos. Ou seja, o contrário dos governos.

  3. Luís Lavoura says:

    é urgente debater de forma clara e aprofundada o papel do jornalismo e do jornalista no presente

    O papel do jornalismo no presente é divulgar as orientações do Estado sobre o controlo de pandemia e incentivar o Estado a que faça mais e melhor no sentido de impedir os cidadãos de terem comportamentos prejudiciais ao controlo da pandemia. É também função do jornalismo denunciar comportamentos impróprios dos cidadãos, nomeadamente aqueles que prejudicam o controlo da pandemia. Finalmente, devem os jornalistas denunciar ser descanso os negacionistas e os divulgadores de fake news sobre a pandemia, fazendo ver aos cidadãos os pontos de vista corretos, isto é, os divulgados pela Direção-Geral da Saúde e pelo Governo.

    • Paulo Marques says:

      Disparate de critica. Não é tarefa dos jornalistas arranjar uma alternativa à oposição que espera que lhe caia o poder no colo sem o mínimo de esforço por a criar.

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