“A moral deles e a nossa”*

Recupero no título* deste post aquele que é um dos textos mais importantes do velho Trotsky, onde se aborda a questão da moral sem a dualidade dos fariseus da burguesia nem os pruridos da pós-modernidade. Acho que a reflexão sobre “a moral deles e a nossa” é particularmente útil num tempo onde muitos pressupostos andam do avesso, com os admiradores do riot porn a defenderem medidas de repressão sobre direitos, liberdades e garantias, com a caricatura das ideias a ser o centro do debate ao invés da ideia em si e, em sentido contrário, aqueles para quem toda e qualquer manifestação de descontentamento devia ser punida com violentas cargas policiais, andam por estes dias mais condescendentes e sensíveis à importância de um elevado nível de tolerância democrática. Uns, alegadamente fanáticos pela saúde pública, rejubilam pela alegada contaminação de um negacionista, outros, fanáticos pela liberdade, não entendem que parte das medidas em curso (e outras que ficaram por tomar) terão feito sentido. Boa parte de uns e de outros reproduzem o mesmo problema. Em defesa da nossa moral, porém, devemos evitar capitular aos métodos que combatemos nos outros, a não ser, lá está, quando o método é ele próprio portador do fim que procuramos e não uma via para se obter resultados contraditórios. Eu iria de bom grado à manifestação de Bristol e não desceria de maneira nenhuma a Avenida da Liberdade contra as medidas de confinamento desprovidas de programa político, ambas são manifestações, mas uma é acertada e a outra não.

No entanto, não acho que nenhuma delas justificava o uso da a força bruta das autoridades policiais, cujo exercício, regra geral, responde sempre pior ao que quer que esteja a ser alvo de repressão. Isso não nos impede de ser contra manifestações fascistas, com consequências severas para o conjunto da sociedade, nem tão pouco nos pressiona para ser a favor de todo e qualquer riot porn, posto que não raras vezes ele é promovido por quem nunca deixou de ter os olhos postos numa sociedade ainda mais autoritária do que aquela que já temos. A crítica à ferramenta está intrinsecamente ligada à sua capacidade de ser fiel aos fins que se ambicionam. Em países sem uma saúde pública capaz, como os EUA, o Brasil ou a Índia, o confinamento devia ser incontornável, em países com uma saúde pública mais capaz como a Suécia, a Alemanha ou Portugal, essa medida perderá mais rapidamente o sentido. A dualidade que se está a tornar vezeira não deve ser aplicada por dentro do débil quadro democrático que vivemos, mas também não deve ser aplicada, como bem explica Trotsky, em contextos de efervescência revolucionária. Podemos fazer uso das mesmas ferramentas mas, por serem portadores de finalidades distintas, não podem ser colocados em paralelo. Prestem particular atenção a esta passagem e, independentemente das nossas convicções, assumamos que “o materialismo dialético não conhece o dualismo entre os meios e os fins. O fim decorre naturalmente do movimento histórico. Organicamente os meios estão subordinados aos fins. O fim imediato torna-se o meio para um fim posterior.” Segue na íntegra o contexto de toda a citação:

“Um meio somente pode ser justificado por seu fim. Mas o fim, por sua vez, precisa ser justificado. Do ponto de vista marxista, que expressa os interesses históricos do proletariado, o fim se justifica quando suscita o aumento do poder do ser humano sobre a natureza e a supressão do poder de uma pessoa sobre outra. “Devemos entender, então, que para alcançar esse fim tudo é permitido?”, pergunta sarcasticamente o filisteu, demonstrando que não entendeu nada. É permitido, respondemos, aquilo que leva realmente à emancipação da humanidade. Já que esse fim não pode ser obtido senão através da revolução, a moral emancipadora do proletariado tem, necessariamente, um caráter revolucionário. Contrapõe-se, de forma implacável, não só ao dogma religioso, mas também a todos os tipos de fetiches idealistas, esses gendarmes filosóficos da classe dirigente. Ela retira uma norma de conduta das leis do desenvolvimento da sociedade, isto é, sobretudo da luta de classes, a lei de todas as leis. Mas o moralista ainda insiste: “Então, isso significa que, na luta de classes contra os capitalistas, todos os meios são permitidos: a mentira, a maquinação, a traição, o assassinato etc.?” Respondemos: Permitidos e obrigatórios são aqueles e apenas aqueles meios que unem o proletariado revolucionário, enchem seus corações de um ódio implacável à opressão, ensinam-nos a desprezar a moral oficial e seus arautos democráticos, imbuem-nos da consciência de sua missão histórica, aumentam-lhes a coragem e o espírito de autossacrifício na luta. Justamente por isso é que nem todos os meios são permitidos. Quando dizemos que o fim justifica os meios, segue-se então a conclusão de que o grande fim revolucionário repudia aqueles meios e procedimentos vis que lançam uma parte da classe trabalhadora contra as outras, ou que tentam fazer a felicidade das massas sem sua participação; ou diminuem a confiança das massas em si mesmas e em sua organização, substituindo-a pela adoração dos “líderes”. Acima de tudo, a moral revolucionária repudia o servilismo na relação com a burguesia e a arrogância para com os trabalhadores, isto é, aquelas características de que estão totalmente cheios os pedantes e os moralistas pequeno-burgueses. Esses critérios, é claro, não respondem prontamente à questão de saber o que é permitido ou não é permitido em cada caso separado. Não existem respostas automáticas desse tipo. Os problemas de moral revolucionária se confundem com os problemas de estratégia e tática revolucionárias. Somente a experiência viva do movimento, iluminada pela teoria, dá a resposta correta a esses problemas. O materialismo dialético não conhece o dualismo entre os meios e os fins. O fim decorre naturalmente do movimento histórico. Organicamente os meios estão subordinados aos fins. O fim imediato torna-se o meio para um fim posterior.”

Comments

  1. José Meireles Graça says:

    Aguardamos uma citação de Belzebu, se for possível encontrar uma fonte credível.

    • Paulo Marques says:

      Não gosta do traidor da revolução?

    • POIS! says:

      Pois aqui vai:

      “Para Angola, rapidamente e em força”.

      • José Meireles Graça says:

        Ora ora, na hierarquia dos demónios, esse, à beira do com a pêra mefistofélica, é quase um anjo.

        • POIS! says:

          Pois mas…

          Desconfio que na “hierarquia dos demónios” não há anjos.
          Esses estão todos no bar ao lado, administrado pela concorrência.

          A música é boa, as vestes são muito “fashion” , os cocktails bastante requintados, mas cheira-me a que aquilo esconde muita coisa…

  2. Paulo Marques says:

    Numa pandemia, é irrelevante a qualidade do sistema de saúde para a necessidade (mas não do tempo e modo) de confinamento, o crescimento exponencial é exponencial em qualquer lado.
    De qualquer modo, as intervenções justificariam-se falta de mínimos de respeito pela saúde pública… mas não é claro como levaria os intervenientes a usar o tecido e a manter a distância, por isso se calhar mais vale deixá-los estar.

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