Terceira intifada palestiniana contra a radicalização da ocupação israelita | Acompanhamento | Semana #2

Ao final da segunda semana a radicalização da ocupação israelita vê-se forçada a recuar, não obstante o seu poderio militar e a brutalidade da destruição imposta, sobretudo na Faixa de Gaza. A Palestina venceu em várias frentes, apesar das 250 vítimas, um terço delas crianças. Em 73 anos, Benjamin Netanyahu é o líder mais fragilizado da história do campo sionista e a resistência palestiniana ganha pela primeira vez o apoio de massas da opinião pública mundial. Israel estava apostado numa espécie de “solução final” com a sua radicalização, provocada estrategicamente a partir das questões de Jerusalém, mais saiu mais isolado que nunca, com um líder sem legitimidade, no limiar da guerra civil dentro das fronteiras da ocupação e com menos margem para continuar o genocídio do povo palestiniano com a impunidade com que o tem feito até agora.

Aqui fica o arquivo no Aventar do acompanhamento da segunda semana do conflito, da inédita greve geral ao cessar-fogo:

Gaza, no dia seguinte. Israel tem que ser julgado e responsabilizado. Não podemos aceitar que um enclave militar imponha este grau de destruição impunemente. As fronteiras têm que abrir sem condições. O tráfego aéreo e marítimo recuperado. O criminoso bloqueio comercial, que dura desde 2008, tem que acabar. Gaza não pode continuar a ser Varsóvia. Israel não pode continuar a ser o filho pródigo da Alemanha do III Reich.

Depois dos 250 mil de Detroit, 200 mil em Londres contra a radicalização da ocupação israelita e em defesa da Palestina. Berlim, Frankfurt, Paris e Melbourne também foram muito significativos. Dezenas de protestos continuam marcados, não obstante o cessar-fogo. Levou 73 anos, mas finalmente o mundo percebeu que tem que fazer a sua parte para travar o genocídio do povo palestiniano.

Manifestações por todo o mundo. aqui.

É de natureza confessional, segregacionista, imposto pela força das armas, sectário, fundamentalista, de inspiração colonial, prende crianças, objectores de consciência, assassina opositores, persegue jornalistas, pratica crimes de guerra, leva a cabo uma limpeza étnica e aspira ao genocídio daqueles que combate. Se por todas estas razões, em bem, não dão ao Estado Islâmico uma embaixada em Portugal, o que é que a embaixada de Israel ainda está a fazer nas avenidas novas?

Houve uma solidariedade sem precedentes com a Palestina, muito além da classe trabalhadora, mas o silêncio da generalidade dos académicos continua ensurdecedor. São capazes de dissertações e compêndios infinitos sobre temas que interessam a pouco mais do que aos interlocutores, mas a causa palestiniana e as multiplas questões que a ocupação israelita levanta não foram suficientemente estimulantes para que reunissem disponibilidade intelectual de produzir um mísero meme, um zoom, um focus group ou um simples parágrafo de ocasião. Nada. As excepções que me desculpem, mas precisamos que a academia produza mais e melhor do aquilo que nos tem dado.

Para perceber a dimensão da derrota de Israel na sua intenção de radicalizar a ocupação bastaria dizer que o artigo de Ishaan Tharoor e e Claire Parker foi publicado no Washington Post. Para perceber a importância dos árabes israelitas, da unidade nacional entre a Cisjordânia e Gaza apesar de violadas geograficamente e, entre outras coisas, o recrudescimento da causa palestiniana no mundo e nas novas gerações de palestinianos, é ler o artigo e o comentário de Carlos Fino, veterano correspondente português em Moscovo, Bruxelas e Washington.

Introdução de Carlos Fino e artigo de Ishaan Tharoor e Claire Parker no Washington Post

Artigo de Mehul Srivastava, Simeon Kerr e Andrew England, no Finantial Times

O Francisco Norega e o Víctor Boaventura fizeram um apanhado dos acontecimentos que levaram a que os palestinianos respondessem com a terceira intifada à radicalização do colonialismo israelita. Numa altura em que Israel investe milhões em propaganda que altere a percepção dos acontecimentos, é muito importante não perdermos de vista quais foram os factos no terreno.

Israel não demorou 12h a violar o cessar-fogo, carregando sobre os palestinianos que celebravam em Al-Aqsa, em Jerusalém Oriental. Há 15 feridos e 17 detidos em resultado da repressão. Até agora nenhum grupo palestiniano respondeu, algo que dificilmente não acontecerá se as provocações e as humilhações continuarem. Quando o gelo fino de um cessar-fogo desprovido de compromissos políticos do agressor se quebrar, que ninguém se lembre de apontar o dedo a quem não deixou de ser agredido.

Os estivadores de Durban, na África do Sul, vão manter o protesto, o bloqueio e a pressão alta contra o transporte de armas para municiar o massacre. Israel tem que ser responsabilizado pela destruição e impedido de a continuar impunemente. O tempo do silêncio e do colaboracionismo, acabou. Esta tomada de consciência mundial de que é preciso dar forma à indignação, é das maiores derrotas de Israel desde o início da ocupação da Palestina.

Calaram-se finalmente as bombas do massacre e não terão que sair de terra os foguetes da resistência. Hoje é noite e quem lá vive pode chorar sem medo enquanto dorme e acordar com tempo de limpar as lágrimas. Será um sono frágil, mas ainda assim, um sono. Será um acordar difícil, mas ainda assim, um acordar. Boa noite Gaza, o amanhã, vive.

Foi anunciado e confirmado, por Israel e pelo Hamas, um cessar-fogo “mútuo e incondicional”, que entra em vigor daqui a algumas horas, esta sexta-feira, às 02h locais.

Ao que parece, com as informações disponíveis, não é um cessar-fogo negociado pelos mediadores mas colocado de forma unilateral, onde não houve garantias substanciais para lá da suspensão da máquina de guerra do governo israelita e da resposta artesanal do governo de Gaza. Como é evidente é uma boa notícia, quando no terreno não há luz, água, comida, e dois milhões de habitantes estão a lutar pela sobrevivência seja porque foram directamente atingidos seja pelas consequências pela falta de tudo, mas é um cessar-fogo muitíssimo frágil.

Desde logo se prestarmos atenção ao que disse o arrogante e pesporrente Embaixador de Israel na ONU, Gilad Erdan, implodindo as mediações e a diplomacia, garantindo que Israel continuará a fazer o que quer do ponto de vista militar, numa retórica chantagem e vitimização que não corresponde à realidade dos factos e é um insulto à inteligência de todos os que acompanham a escalada de violência desde as provocações no bairro de Sheikh Jarrah e sobretudo desde a carga sobre os que rezavam e foram reprimidos em Al-Aqsa nos últimos dias de Ramadão.

Israel e Netanyahu saem de Gaza com as mãos cheias de sangue mas sem nenhuma vitória política, deixando em carne viva e aos olhos de todos que o massacre não teve outro objectivo senão a tentativa de se manter no poder mesmo sem uma maioria que o apoia internamente. Netanyahu não conseguiu nada a não ser 232 assassinatos apenas em Gaza, maioritariamente civis, com 65 crianças que não são um dano colateral, são um dos objectivos militares de quem leva a cabo um genocídio.

A ilustrar a raiva sionista, que durante todo este dia de negociações e de Assembleia Geral da ONU carregou como se não houvesse amanhã por todos os lados da Faixa de Gaza, por ar, a parir da artilharia na fronteira e da frota ao longo da costa, está a frase de um jornalista da ala radical israelita, Kobi Finkler, que depois de um rocket vindo de Gaza ter sido interceptado em cima de um campo de futebol, em Israel, numa zona de maioria árabe, lamentou que “não estivesse cheio e que não resultasse num conjunto massivo de mortes” daqueles que partilham do seu Estado, os tais árabes israelitas que também se revoltaram a partir do interior das fronteiras israelitas, na Palestina ocupada.

A suspensão do terror não resolve nenhum dos problemas que Israel comprou com a insanidade de Netanyahu, sobretudo aquele que o fará continuar em guerra civil com os árabes israelitas que são seus cidadãos, mesmo que sem direitos iguais. Além dessa frente inédita, não tem como avançar na ocupação de Jerusalém Oriental, seja via a anexação do bairro de Sheikh Jarrah seja pelas provocações em Al-Aqsa, sem que a revolta palestiniana se reactive, e tem como nunca teve o mundo mais capaz de entender que as suas intenções nada têm que ver com o combate ao terrorismo, mas pela continuação e radicalização de uma das mais obscenas limpezas étnicas que já testemunhamos, um projecto político e militar que entra para a galeria de horrores que a história terá que condenar e colocar lado a lado, na companhia dos piores algozes que alguma vez tivemos que enfrentar.

Israel, que foi arrastado por Netanyahu para a radicalização da ocupação para que este se mantenha no poder e para ocupar o que falta ocupar em Jerusalém Oriental, tem um hipócrita de um Embaixador a falar na Assembleia Geral das Nações Unidas, Gilad Erdan, a papaguear as palavras Hamas e Holocausto a cada frase. Ouçam e vejam como Israel não tem pejo de usar as cicatrizes de um holocausto para praticar outro. Israel não fará nenhum cessar-fogo, a não ser que seja obrigado seja pela resistência palestiniana seja pela inédita pressão internacional.

Este, felizmente, não rebentou. Centenas de outros rebentam. A esmagadora maioria em zonas residenciais altamente povoadas. Israel, ainda mais pressionado como nunca para recuar de Gaza sem nada na mão do ponto de vista político, vai intensificar, como é seu apanágio, a intensidade do massacre, para que a vala comum em que tem transformado Gaza sirva de prémio e de simulacro de vitória perante os fanáticos que o apoiam.

Bons rumores pela manhã, sobre a hipótese de um cessar-fogo, a partir de amanhã, em Gaza.

Hoje foi um dia contraditório, mas com elementos importantes para entendermos o evoluir do tabuleiro do massacre em curso, resultante da radicalização do projecto colonial israelita. Desde logo foi o primeiro dia em que a ofensiva israelita baixou ligeiramente a intensidade do seu poder de fogo, seja em Gaza, seja na Cisjordânia, quando até ontem tinha aumentado a cada madrugada. Apesar disso, o número de vítimas mortais continuou a subir de forma significativa ao 10° dia de bombardeamentos e fuzilamentos, mas os repórteres no terreno e várias fontes confirmam a redução das ocorrências e da intensidade. Ontem o número de vítimas na Faixa de Gaza era de 207, hoje de 227. Na Cisjordânia era de 24, hoje será de pelo menos 25, posto que houve notícia de um colono a assassinar um palestiniano a sangue frio, na rua, em Hebron, mas não foram publicados os números totais em todas as cidades. Um terço das vítimas em Gaza são crianças.

O Hamas não respondeu até agora à provocação mediada pelo Egipto, apresentada na forma de proposta de cessar-fogo, que mais não é do que uma proposta de rendição. Através do jornal The Levante News, sediado em Londres, a mediação egípcia contou com o anterior líder do Hamas, Khaled Meshal, que é actualmente parte do escritório político do Hamas no exterior, a quem fizeram chegar a proposta de Israel, que a ditadura egípcia foi receber em Telavive no início da semana.

A provocação, perdão, proposta de cessar-fogo, exigia a Yahya Sinwar, actual líder do Hamas em Gaza, o desarmamento completo da organização, incluindo mísseis e drones, (mas nada sobre o armamento israelita); a transferência dos postos de controlo entre a Faixa de Gaza e Israel para a Autoridade Palestiniana, (cujo apoio no território é residual e sem uma vírgula sobre o fim do bloqueio); o anúncio do Hamas de que se retira das eleições palestinianas (quando este está entre os favoritos e os recentes acontecimentos terão reforçado a sua posição); o corte de relações do Hamas com o Hezbollah e o Irão (o que demonstra que Israel ganhou medo ao Hamas e sobretudo tem receio da internacionalização do conflito); e por último que o Hamas deve anunciar a rendição sem condições (sem nada dizer sobre o recuo na anexação do bairro de Sheikh Jarrah e sobre a gestão de Al-Aqsa).

Qualquer um perceberá que isto não é uma proposta de cessar-fogo, mas um convite à capitulação, ao qual o Hamas não respondeu ainda, nem deve vir a responder, mas que parece já ter levado à superação da mediação egípcia, com o anúncio, há poucos minutos, do envio de alguém do escritório político no exterior a Doha, para se reunir com um representante do secretário geral das ONU, António Guterres.

Houve manifestações de massas na Argélia e na Malásia, e, em dia de xadrez diplomático, em Washington e Bruxelas. O anúncio do maior sindicato dos estivadores do mundo, o IDC, que apelou ao boicote do transporte de armas para Israel, foi também muitíssimo importante, sobretudo pelo impacto que isso pode vir a ter no interior dos próprios EUA. Ainda nos EUA, as congressistas Rashida Tlaib e Alexandria Ocasio-Cortez e o congressista Mark Pocan, do Mishigan, Nova Iorque e Wisconsin respectivamente, procuram bloquear o reforço de 735 milhões em armas para Israel. Em Ramallah, a ONU enviou em sua representação Sven kühn von Burgsdorff para falar com o PM palestiniano Mohammad Shtayyeh, mais para que ambas as estruturas, UE e AP, se mostrem vivas do que para outra coisa qualquer. Ainda na cena diplomática, Biden ligou a Netanyahu para lhe dar conta que devia acelerar o fim da operação, mas Netanyahu disse que ainda não está satisfeito com a carnificina. Guterres ligou a Abbas para lhe dar conta de que exigiu a Israel o cessar-fogo, mas percebemos agora que o assunto terá mais passado pelo que poderá fazer e até onde poderá ir o seu secretário em Doha.

No terreno a situação é cada vez mais dramática. A unicef dá conta de mais de 40 escolas atingidas, algumas que serviam de refúgio, e a Cruz Vermelha anunciou que irá retirar cidadãos estrangeiros, amanhã, da Faixa de Gaza, aumentando os rumores sobre uma eventual incursão da artilharia no território. Quatro mesquitas foram destruídas. Continua proibida a entrada de novos jornalistas e os que estão em funções, conforme relata a Al Jazeera, estão no limiar da exaustão.

Termino como devia ter começado, prestando a devida homenagem ao jornalista Yusef Abu Hussein, radialista palestiniano em Gaza, que não resistiu aos ferimentos provocados pelo bombardeamento da sua casa, numa das muitas zonas residências que foram alvos de bombardeamento sem qualquer aviso, como tanto Israel gosta de proclamar. É o primeiro jornalista assassinado por Israel na actual campanha de terror, em mais um crime de guerra a juntar ao seu hediondo cadastro.

“O IDC, a maior associação sindical do mundo de estivadores e de trabalhadores dos portos, condenou esta quarta-feira “firmemente” o massacre do povo palestiniano “às mãos de Israel” e deixou um “apelo urgente à paz e ao diálogo”. Apelou ainda os seus membros a boicotar os carregamentos e transportes de armas com destino a portos israelitas. “Não podemos ficar de braços cruzado sem levantar a voz diante de tal abuso de civis e de crianças”, frisou no seu texto Dennis Daggett, coordenador-geral do Conselho Internacional de Trabalhadores Portuários.”

Muito importante a posição do IDC, o maior sindicato mundial de estivadores, em defesa do povo palestiniano e contra o genocídio levado a cabo pela colónia israelita. O IDC exige o fim do massacre, a liberdade imediata para o sindicalista Ashraf Al-war, preso nos calabouços de Israel, apoia a greve geral dos palestinianos e, na sequência do bloqueio às armas com destino para Israel nos portos italianos, apela ao boicote mundial em todos os portos onde os sionistas tentam reforçar o seu arsenal de guerra. Muito orgulho nesta organização de trabalhadores. É este o caminho para que os palestinianos e a humanidade vençam mais esta batalha.

Depois de Livorno, Nápoles. A colónia israelita, o sionismo medieval, não conta com os estivadores dos portos italianos para carregar os seus canhões contra o povo palestiniano. É este o caminho. Isolar Israel onde quer que Israel esteja, dentro e fora da Palestina.

Esta é uma reportagem absolutamente clara sobre a realidade na Palestina. Vejam. Divulguem. Empenhem oito minutos da vossa vida para ver o que nunca verão nos media convencionais, que raramente saem da narrativa colonial da ocupação israelita. Facto por facto. Grito por grito. É assim o que se passa na Palestina.

O sionismo lusitano anda em pulgas por causa deste texto, provavelmente por não ter passado da leitura do título. O autor, Alexandre Guerreiro, que não conheço mas louvo a coragem, é Doutorado em Direito Internacional Público e Analista de Justiça e Segurança da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, e diz uma mão cheia de factos indesmentíveis, que poucas vezes chegam às edições, mesmo que apenas online, dos principais meios de comunicação.

O primeiro facto é que Israel é um Estado confessional à moda do Estado Islâmico, implicitamente genocida, posto que o seu estabelecimento era impossível sem a expulsão e liquidação de milhões de palestinianos. Só na primeira vaga da Nakba foram 700 mil. A diferença face ao Estado Islâmico é que Israel conta com a cumplicidade da generalidade das organizações internacionais, com a ONU à cabeça, e muitos milhões de dólares dos EUA, todos os anos, para alimentar a guerra permanente que a sua existência implica. O autor, provavelmente conhecedor da reacção pavloviana do sionismo, usou um título sugestivo, mas não deixa de defender a solução de dois Estados, algo que por esta altura já ninguém acha possível, pois Israel já não se consegue esconder atrás de nenhum verbete democrático.

Entender que a solução passa por uma Palestina laica e inclusiva, não quer dizer que se vão mandar os judeus para o mar, mas não questionar a existência de Israel tal como ela se afirmou é aceitar que os sionistas estão autorizados a continuar a vala comum onde têm enterrado os palestinianos. Entender uma Palestina laica e inclusiva é perceber que essa é a única maneira de aplicar o direito de retorno dos refugiados, de permitir que nenhuma religião é hegemónica e muito menos dona do Estado, bem como garantir que existe uma democracia para todos os que lá vivem e não apenas para aqueles que, à lei da bomba, a ocuparam. É essa ideia radical de que a cada pessoa equivalem direitos iguais e não direitos em função da sua origem cultural, religiosa ou étnica, conforme acontece em Israel por disposição constitucional e em violação dos próprios acordos que lhe deram, hipocritamente, “vida”.

Podiam as potências europeias continuar a ocupar África, a Ásia e as Américas? Podia o III Reich existir? Não podiam. Não puderem. Israel também não pode e a paz no território para judeus, árabes, cristãos e ateus depende da capacidade de decantar um Estado onde todos sejam iguais perante o Estado, com o seu direito de culto respeitado, bem como a sua existência, mas sem que em nome disso qualquer um deles se dedique a exterminar todos os demais como Israel o faz há 73 anos.

À esquerda uma mensagem enviada de Gaza, que se repete há 10 dias, que quase todos os que lá vivem já tiveram que escrever e que nos dão conta de uma angústia que é difícil de exprimir. À direita a notícia que nunca queremos ver chegar e nunca teremos palavras para exprimir a náusea que nos faz sentir.

Todas as cidades da Cisjordânia aderiram massivamente à primeira greve geral em décadas, ferramenta de luta que pode mudar a capacidade efectiva de bloquear Israel a partir da mão de obra palestiniana. A greve foi acompanhada de manifestações com uma participação incrível, mesmo face à ausência de sindicatos progressistas e sem qualquer fundo de greve. Os protestos foram reprimidos com violência na maioria dos checkpoints e também no bairro de Sheikh Jarrah, outra vez regado a skunk, líquido envenenado e pestilento feito para humilhar os palestinianos. No bairro que está no centro do levantamento, a par de Al-Aqsa, o exército israelita disparou contra uma moradora de apenas 15 anos, que estava indefesa no patio interior da sua casa.

Em Jerusalém também houve manifestação. Em Detroit teve lugar uma das maiores manifestações de sempre nos EUA em solidariedade com a Palestina, com mais de 200 mil pessoas na rua. Deixo o vídeo da manifestação no final do texto para que vejam com os vossos próprios olhos, bem como o vídeo de Biden que, num acto pleno de cinismo, teve de responder à congressista de origem palestiniana Rashida Tlaib, que tem família na Cisjordânia, agradecendo-lhe pela luta que levam. O Egipto, apesar da ditadura militar e para evitar ondas de choque, anunciou uma ajuda sem precedentes para a reconstrução de Gaza, ainda assim muito inferior à tranche extraordinária aprovada por Biden para que Netanyahu aumente a intensidade do genocídio, que em 9 dias de terror já tirou a vida a 241 pessoas, 207 em Gaza e 24 na Cisjordânia, das quais 64 eram crianças.

Os bombardeamentos de Gaza continuam agora em mais uma madrugada de pesadelo que está a transformar a Faixa em escombros. Chovem bombas muito acima do que sempre aconteceu, não poupam sequer bibliotecas ou escolas, para que Israel rapidamente tenha uma vala comum de monta para cantar mais uma sórdida vitória militar mas uma tremenda derrota política, que provavelmente ajudará, pasme-se, à vitória do Hamas nas próximas eleições gerais da Palestina, mas que lhe permite focar o problema onde ele começou, mas que agora se descontrolou e colocou Israel no limiar de uma guerra civil dentro das fronteiras ocupadas.

Jovem de 15 anos alvejada em casa, no bairro de Sheikh Jarrah, aqui.

Manifestação em Jerusalém, aqui.

Manifestação histórica de Detroit, aqui.

Resposta de Biden a Rashida Tlaib, aqui.

O que é o skunk, aqui.

Imaginem, por um momento, o que seria a abordagem política ou jornalística do genocídio que Israel está a impor à Palestina, aplicada a outros genocídios com que a história nos envergonha. Como reagiriam se, entre 1915 e 1923, ouvissem insinuar que os Turcos estavam apenas a atacar os terroristas Arménios? Se durante o holocausto e as invasões Nazis, os diplomatas e os jornalistas procurassem saber com gentileza junto do Reich, sobre se não seriam excessivos os seus métodos para atingir os seus objectivos e se porventura, na ocupação e cerco a Varsóvia, não deviam deixar entrar ajuda médica ou limitar as baixas entre civis? O que diríamos se, em 1994, víssemos escrito que o governo Hutu, no Ruanda, tinha o direito de se defender dos Tutsis? Ou se, na década de 70, 80 e 90, tivéssemos normalizado as “campanhas de pacificação” com que os indonésios sensibilizavam o mundo sobre a modernidade da sua democracia em Timor-Leste? Ou, em qualquer um destes casos, fizéssemos apelos ao entendimento mútuo, jogos de espelhos e declarações de equidistância, limitando a nossa visão e indignação à exigência de negociações com vista a entendimentos políticos de longa duração entre os povos ameaçados e os seus genocidas?

O André Leal, do Semear o Futuro, colocou-me três perguntas que alguns de vocês também têm feito, sobre a minha opinião relativa à radicalização do colonialismo israelita e à resposta palestiniana. Aqui ficam:

O que está por trás da nova ofensiva de Israel sobre o povo palestiniano?

Israel tem uma agenda de colonização absoluta da Palestina. Durante décadas alguma esquerda e alguns movimentos nacionalistas árabes avisaram, quase sozinhos, dessas intenções. Hoje, com o evoluir do processo, está a tornar-se uma evidência. O ataque desta ofensiva começou por ser Jerusalém, pelo seu simbolismo mas também pela pouca resistência que enfrentou, dentro e fora da Palestina, a mudança da embaixada dos EUA de Telavive para Jerusalém. Motivados por isso, sabendo que a saída de cena de Trump e a entrada de Biden nada significaria nada em termos de mudança dos EUA face à sua política externa em Israel, acossado internamente pelo crescimento dos sectores do sionismo radical e sem garantias de continuar Primeiro Ministro e de usufruir da imunidade que lhe permite evitar processos jurídicos complexos, Netanyahu, em sintonia com o Presidente da Câmara de Jerusalém, Moshe Lion, eleito pelo partido de extrema-direita Yerushalayim Shelanu, não esconderam que a anexação de Sheikh Jarrah era o princípio de um processo maior, com vista a consumar a judaização integral de Jerusalém, confiscando o que falta confiscar no bairro de Sheikh Jarrah mas também nos demais bairros que sobram a Jerusalém Oriental. Para reforçar a consciência do seu eleitorado que esse processo era irreversível, que depois de consumado em Jerusalém não teria nenhum outro limite, proibiu também que as eleições palestinianas se realizassem na cidade velha e passou a provocar e a atacar a liberdade de culto e o controlo sobre Al-Aqsa, o coração árabe de Jerusalém. Para Israel eram favas contadas, mas a velocidade dos acontecimentos não só apanhou desprevenido o governo israelita como os deixou com um roteiro difícil de resolver face aos vários problemas que surgiram como resposta por parte das várias declinações da resistência palestiniana.

Achas que existe a possibilidade de uma nova intifada?

Acho que sim. Em apenas uma semana Israel abriu oito frentes de guerra, algumas inesperadas como foi o caso dos árabes com cidadania israelita, que interpretaram a revolta nas cidades mistas onde chegaram obrigar a Tshal e as forças da ocupação a sair em debandada de vilas importantes como as de Lod, a 15 minutos de Telavive e onde se encontra o aeroporto Internacional de Ben Gourion, entretanto encerrado até que a situação política se resolva. A radicalização do sionismo está a unificar toda a sociedade palestiniana, nomeadamente relativamente à adesão aos protestos. O Hamas, a Jihad Islâmica, as Brigadas Al Aqsa e a Frente Popular de Libertação da Palestina, esta última de natureza laica e marxista, estão em força nos protestos, que se generalizaram a toda a Palestina e colocaram, fruto dos árabes israelitas, Israel também no limiar de uma guerra civil no plano interno. Só a Fatah não está, como parece não estar já em nenhum outro lugar, com Mahmoud Abbas a ser incapaz do que quer que seja a qualquer outro nível, com uma Autoridade Palestiniana atónita face ao evoluir dramático dos acontecimentos. Israel pode ter cometido dois erros estratégicos importantes. Ao ferir Al-Aqsa feriu todo o mundo árabe que tem esse lugar como capital religiosa, da Mauritânia ao Paquistão. Ao ferir o bairro de Sheikh Jarrah destruiu as ilusões dos árabes israelitas e dos palestinianos que ainda acreditavam no delírio da coexistência pacífica entre ocupantes e ocupados.

O que podemos fazer cá, em Portugal, para apoiar a luta do povo palestiniano?

Há sempre algo a fazer mas Portugal é um país marginal neste processo, seja pela sua relação pouco intensa com Israel, seja pelo reduzido número de emigrantes da diáspora palestiniana. Acho que há dois níveis de intervenção possíveis. Um político, denunciando os seus crimes, mobilizando e organizando protestos, combatendo a diplomacia e a propaganda israelita em Portugal. Outro é económico, nomeadamente através da campanha de boicote mas sobretudo pelo reforço do seu isolamento, como se fez para combater o apartheid da África do Sul, a Indonésia de Suharto ou os países que foram tomados pelo fascismo e pelo nazismo ao longo do século passado. Israel e alguns barões sionistas têm apostado no negócio do imobiliário, têm participações fortes em algumas empresas importantes que operam em Portugal. Tem uma Câmara de Comércio na cidade do Porto. Estes interesses, a par da sua Embaixada, devem ser expostos, combatidos e denunciados, para que a cada dia Israel esteja mais limitado dentro e fora da Palestina, combatendo o medievalismo da sua agenda ideológica e os dentes da sua ação colonial.

Hitler organizou uma fogueira para queimar livros, Israel fez da biblioteca de Gaza uma fogueira. Os escroques que ficam irritados com a comparação têm bom remédio: exijam que quem não gosta de ser comparado evite jogos de espelhos e não repliquem os métodos dos algozes dos seus antepassados.

Mais verdades com punhos, desta feita pelo Zizek: “No entanto, agora que esse verniz de respeito à lei está se dissolvendo, não basta dizer que chegamos à realidade que sempre foi a verdade por trás da aparência. As aparências são essenciais, elas nos obrigam a agir de determinada maneira, de modo que sem a aparência, a maneira como agimos também muda. A distância entre a aparência e a realidade sombria por trás dela permitiu que Israel se apresentasse como um Estado moderno de direito em contraste com o fundamentalismo religioso árabe, mas com a atual aceitação pública do racismo fundamentalista religioso, os palestinos são agora uma força de neutralidade secular enquanto Israel age como um Estado fundamentalista religioso.”

Estas são fotografias das últimas 24h, recolhidas nos poucos meios de comunicação que resistem no terreno e que serão os únicos até que Israel reverta a proibição da entrada de novos jornalistas em Gaza. É assim todos os dias desde o inicio do massacre, depois de madrugadas de bombardeamentos ininterruptos, seguem-se dias à procura de sobreviventes nos escombros. A Faixa de Gaza está praticamente intransitável, tem as infraestruturas básicas de electricidade e água potável comprometidas, os veículos médicos mal conseguem contornar os estragos para chegar aos escombros e tentar salvar o máximo número de pessoas. Israel já tinha convertido a Faixa de Gaza na maior prisão a céu aberto do mundo, agora está apostada em transformar essa prisão num autêntico campo de concentração. Qualquer condescendência, complacência ou colaboração com Israel é ser cúmplice desta barbaridade. Quem insiste na equidistância, no “sim, mas…”, no “ai e tal o Hamas…”, no “mas isto é uma guerra religiosa…”, no “Israel tem o direito de se defender…”, está cerrar fileiras ombro a ombro ao lado dos autores desta carnificina.

Jacarta e Buenos Aires, bem longe na latitude, foram mais duas das muitas cidades em todo o mundo a encher as ruas em solidariedade com a causa palestiniana. O Líbano voltou a falar para exigir o fim do massacre em Gaza e na Palestina ocupada a greve geral está a ter grande adesão, apesar de não haver sindicatos fora do controlo de Israel e de esta ser uma greve feita integralmente nas costas da coragem dos trabalhadores. Grandes manifestações em várias cidades palestinianas. A tensão continua em cada fronteira. Em Gaza, o dia volta a acordar com a mórbida rotina imposta por Israel, que passa por debulhar os escombros à procura de sobreviventes de mais uma madrugada de horror.

Gaza, por estes dias, numa imagem. Hoje o horror não parou e continua noite dentro, com os bombardeamentos a somar mais vítimas às 212 que já foram identificados. Entre elas, 61 crianças. Na Cisjordânia o número subiu para 17, a maior parte de fogo directo. Autênticos fuzilamentos. Não há nenhum sinal de abrandamento. Nenhum efeito da diplomacia que se colocou no terreno, seja o Egipto, a Turquia ou a ONU. O aeroporto internacional de Ben Gourion e as linhas férreas israelitas continuam condicionados. Amanhã é dia de greve geral, à qual são chamados todos os que não perderam a humanidade, para demonstrar a Israel que não conta com pessoal médico, comércio, logística, transporte, construção civil, entre outras áreas onde os seus fanáticos dependem dos árabes israelitas. Israel tem que ser isolado por dentro e por fora. Por todas as formas possíveis, até que abra mão da chacina que tem imposto aos palestinianos e da violação flagrante daqueles que são os mais basicos e elementares direitos universais.

Depois de bloquearem a vacina aos palestinianos, preferindo vender as suas sobras, Israel bombardeou o único laboratório que fazia testes à Covid em Gaza, a al-Rimal Clinic. A somar aos crimes de guerra, Israel não tem qualquer pejo em fazer uso da guerra biológica para acelerar o seu ímpeto genocida.

Verdades com punhos pela Alexandra Lucas Coelho, esta noite, no noticiário da RTP2. Vale a pena ouvirem tudo, mas deixo a ideia mais forte, de alguém que, por seu intermédio, também ficou meu amigo. Em Gaza, tornaram a vida tão insuportável, tão injusta, tão cruel, que até quem é pacifista tem vontade de disparar um míssil contra os genocidas de Israel.

Manifestação em Lisboa

Muita gente no Martim Moniz, em Lisboa, em defesa da Palestina e contra a radicalização da ocupação israelita.

Vídeo e fotografias.

São já 116 os árabes israelitas com processos judiciais por participarem na revolta das cidades mistas. Já colonos milicianos que assassinaram indiscriminadamente, marcaram casas à moda da turba nazi que perseguia os judeus para atacar pela calada, nem um. Nem mesmo aqueles que apareceram, em horário nobre, a linchar um taxista em praça pública.

Amanhã é dia greve geral na Palestina e na Palestina ocupada. Israel vai ter que funcionar apenas com o lado medieval da ocupação.

No Jerusalém Post, Tzvi Joffre, escreve que Israel até pode ganhar militarmente em Gaza, mas que perderá inevitavelmente a guerra. No mesmo sentido, no Diário de Notícias, Shlomo Ben-Ami, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel, escreve que Netanyahu abriu caminho ao fim da “ilusão de Israel” no que à coexistência pacífica diz respeito. Não partilho os textos que não alinho na higienização do cadastro de defensores da ocupação, mas não deixa de ser relevante o sentido do que escrevem para que tenhamos consciência da dimensão das fissuras que se abriram no interior da sociedade israelita.

Arquivo da Semana #1,

Também no Aventar.

Comments


  1. “(…)Levou 73 anos, mas finalmente o mundo percebeu que tem que fazer a sua parte para travar o genocídio do povo palestiniano.(…)!

  2. Carlos Almeida says:

    Relativamente a este assunto, anda desde o dia 10 de Maio a aguardar pacientemente as posições e opiniões dos chamados liberais que noutros assuntos, enchem de “sabedoria” os post deste blog.

    Ainda não vi nada escrito por essa gente, a condenar o apartaide e genocídio do povo palestiniano pelos israelitas.

    Mas posso estar enganado, porque cada vez frequento menos o Aventar.

  3. JgMenos says:

    «o genocídio do povo palestiniano» sempre o exagero só consola os cretinos!
    Quem representa esse povo? O Hamas e os seus rockets que de muito boa vontade promoveriam o genocídio dos judeus?
    O sionismo expansionista combina bem com o allahu akbar que é o essencial do que se conhece do programa do Hamas.
    Os palestinos saíram do jugo otomano para o britânico. Quando da declaração do Estado de Israel pela ONU a reacção pelas armas dos árabes vizinhos foi mandarem os palestinianos abandonar as suas casas para melhor fazerem a guerra, e perderam-na!
    Os bandos de ignorantes que se manifestam só comparam com os progressistas indígenas que sempre estão prontos a uma passeata com gritos e bandeiras.
    E os palestinos, que haveriam de reconhecer as sias derrotas e lutar pelos seus direitos, andam há décadas à deriva sem outro rumo que não o de potenciarem os sionistas dando-lhes o irrecusável pretexto de lutarem pela sua sobrevivência.

    • Paulo Marques says:

      Sim, coitados dos sionistas, mal se conseguem defender todos de pedras e rockets de parte dos palestinianos com tanques modernos e bombas aéreas.
      A culpa é só deles, ninguém os mandou deixarem os seus líderes serem assassinados e os radicais financiados. Justifica plenamente o genocídio que acontece hoje, e não o do sonho molhado do Menos e de alguns árabes.

      • Renato Teixeira says:

        Os sionistas em negação acham que não há um genocídio do povo palestiniano, mas acham que lutam para sobreviver numa terra onde sempre que não quiseram ser os únicos viveram em paz. Haja malabarismo para tamanha desonestidade.

        • JgMenos says:

          vai lá ao dicionário da ONU, e deixa-te de armares em esperto.

          • POIS! says:

            Pois tá bem!

            Se os espanhóis nos entrassem pela fronteira sistematicamente, ocupando cada vez maiores parcelas do território, implantando colonatos por todo o lado, matando devagarinho uma data de portugueses por ano (embora deixando vivos uma outra data deles…) isso seria genocídio?

            Bem, atrevo-me a dizer que, se tal acontecesse, talvez houvesse muito Menos dúvidas…

  4. Elvimonte says:

    Se o Hamas deixar de existir, os problemas dos palestinianos ficam resolvidos. O restante é pura demagogia que nem 73 anos ajudaram a perceber.

    E a propósito, a culpa do que está a acontecer actualmente é do Biden, que retomou as ajudas. Que servem para adquirir e fabricar rockets, entre outras coisas. O armamento custa dinheiro e ninguém fiscaliza para onde são canalizadas as ajudas, estando o resultado à vista.

    Não esquecer também o papel do Irão como financiador do Hamas.

    Na mesma lógica do Hamas, também poderíamos “enviar” uns rockets para Espanha, que mantém Olivença ocupada. E os espanhóis para o RU, que continua no rochedo. E os marroquinos para Espanha, que mantém Ceuta.

    • Renato Teixeira says:

      Menos mal que sabe há quanto tempo há problemas. Sabe a idade do Hamas?

    • Paulo Marques says:

      Se o Hamas não existisse, teria que ser inventado; espera, foi mesmo isso que Israel fez!
      Armamento por armamento, é mau negócio, o que oferecem a Israel é muito mais melhor, carago!
      Este camarada já disse tudo em 86