Um Governo que nos trata com desprezo cínico

Em relação a governantes, uma das piores sensações que se pode ter é a de identificar, com absoluta clareza e nitidez, a hipocrisia entranhada com que se nos dirigem. A desfaçatez de António Costa pretender justificar o facto de Portugal não ter assinado a carta em que governos europeus condenaram a nova lei anti-LGBT, com base na pretensa obrigação de neutralidade do Governo devido à actual presidência portuguesa só pode revoltar quem conhece a fundo a pressão declarada e vigorosa que o Governo português andou a exercer para a aprovação do acordo UE-Mercosul durante essa mesma presidência.

Então os pruridos com a neutralidade só são activados quando dá jeito??

Ouvir depois o mesmo António Costa a dar lições de moral porque afinal sim senhor, “a União Europeia é uma comunidade de valores, e só podemos estar na união querendo partilhar os mesmos valores, defendendo-os e protegendo-os“, apenas aumenta a revolta contra essas palavras vãs que dependem do que mais convém em cada momento.

Esta hipocrisia, este cinismo tão presente no Governo só podem provocar uma indignação tectónica, uma descrença radical.

Como diz Rui Tavares: A verdadeira questão é porque não usamos os nossos poderes enquanto presidência da UE , até ao último minuto, contra um violador serial dos valores da própria UE“. Ou como diz, também no Público, Amilcar Correia, “A opção portuguesa de não se associar aos 16 países que condenaram a recente lei aprovada pelo parlamento húngaro (…) é também uma posição de tibieza e de cobardia. Se há um tema em que Portugal e a UE não podem ser neutrais, é precisamente este: direitos humanos“.

Seja na abundante graxa que dá a um Bolsonaro acusado de genocídio ou a um corrupto Nyusi, o Governo faz da dissimulação e chico espertismo o seu programa – e a nós, oferece-nos o seu cinismo.

 

Comments

  1. Rute Alves says:

    Ainda bem que António Costa “os tem no sitio” e ainda pensa pels sua cabeça .
    Há que por esta estirpe dos Queer no seu devido lugar.

    Rute

  2. LUIS COELHO says:

    Os politicos em geral dizem agora uma coisa e no momento seguinte o seu contrário! Isto acontece desde sempre sobre todo e qualquer assunto! Para mim são um nojo!

  3. António Montez says:

    Que grande preocupação que nos levanta este facto…
    Não foi só António Costa que esclareceu qual era a posição de Portugal sobre este assunto mas a própria Secretária de Estado o fez em conferência de imprensa antes disso.
    Para além da meia-dúzia que se manifesta sobre o assunto, mais alguém teve alguma dúvida?

    Ainda não consegui ler nem ouvir uma palavra sobre as declarações inacreditáveis da deputada do PSD Luisa(?) Meireles na audição na AR de Fernando Medina.
    Isso não importa nem incomoda ninguém?

    • Ana Moreno says:

      Incomoda imenso, sim, mas não se pode escrever sobre tudo ao mesmo tempo num post. Neste caso, fala-se de hipocrisia, de António Costa; a mesma da Secretária de Estado que faz parte do seu governo. Aliás, vai-se a ver os seus ministros e é uns atrás dos outros a servirem-se do mesmo cinismo.

    • Paulo Marques says:

      Isabel. Nem tinha ouvido, faz parte da cabeça perdida de quem quer poder e não o vê. E bem ao lado, num partido a desaparecer, tinha quem ao menos se desse ao trabalho de saber o que falava, pelo menos para a minha surpresa.

      • Filipe Bastos says:

        Também não tinha ouvido a Meireles, li agora: “Lisboa passou a ser a Capital Europeia da Bufaria”.

        A Meireles quer poleiro e tacho? Pois quer. E o Merdina já os tem. E para quem como v. enche a boca com ‘direitos humanos’, é curiosa a sua displicência perante a bufaria, pois é bufaria, de uma Câmara xuxa.

        Bufaria, negligência, hipocrisia. Se a CML fosse laranja e se o Merdina fosse do PSD, que teria v. já dito?

        • Paulo Marques says:

          Que nada tem a ver com bufaria nem com hipocrisia na mesma. Já depois dos documentos apresentados na praça, negligência do secretário e/ou do próprio presidente é quase certo. E até o Telmo Correia lá chegou.
          Mas é menos interessante do que um telefonema pessoal ao Putin, lá isso é.

  4. Rui Naldinho says:

    Uma dos aspectos que eu mais condeno no partido socialista é a sua propensão para as “abstenções violentas” ou para o “dever de neutralidade” em assuntos relacionados com direitos humanos.
    Que o PS propõe na oposição um conjunto de projectos de lei, que posteriormente se recusa a cumprir ou aprovar, já é do nosso conhecimento. Agora a hipocrisia torna-se grotesca com este seguidismo lambe botas, na Europa.

    • Filipe Bastos says:

      Um dos aspectos que eu mais condeno no partido socialista é a sua propensão para as “abstenções violentas”…

      A sério, Naldinho? Bem, é melhor que nada.

      Já eu condeno mais outras coisas: ser a maior máfia do país, por exemplo. Ou o maior culpado, até acima da Laranja Podre, pela miséria económica e moral das últimas décadas.

      Ou um esgoto a céu aberto de chulos, pulhas e trafulhas, cuja primeira e única prioridade é saquear e corromper o país de forma impune. Sabe, essas coisas assim menores.

  5. Tal & Qual says:

    seguidismo lambe botas, na Europa.

    Olhe que não, olhe que não !

    Então quer ir morder na mão que lhe dá o pão e a carne ?

    Não pode ser…

    Estou a lembrar do Durão Barroso nos Açores….

  6. Filipe Bastos says:

    O post da Ana Moreno é justo, mas acaba antes de tempo. Falta-lhe a conclusão lógica: esta canalha não nos representa.

    Este governo não me representa. O Bosta não me representa. O PS não me representa. O bordel paralamentar não me representa.

    Não reconheço a esta canalha tal autoridade ou capacidade. Não confio neles; não os quero a decidir ou a falar por mim, muito menos sem ter forma de participar nessas decisões.

    Muita gente tem medo de admitir isto: encaram esta democracia pífia, na prática partidocracia podre, como inevitável. Pensam: “se não forem estes hão-de ser outros, se calhar piores”. Mas só se o quisermos. Temos a obrigação de fazer melhor.

    Temos a obrigação de rejeitar esta canalha. Estes pulhas não nos representam. Aliás, só 20% da população votou neste governo.

  7. Elvimonte says:

    Mais uma que foi emprenhada pelos ouvidos e pelos olhos. Ela não sabe o que está em causa, mas ouviu e leu umas coisas e lá teve que desovar uns disparates.

    Porque razão não pode um país, legitimamente, criar uma lei a proibir a promoção LGBT nas escolas e em conteúdos para menores de 18 anos?

    É que é essencialmente disso que trata – protecção de menores. Percebeu?

    E até se podem avançar outras razões que a sua manifesta heterofobia, por puro facciosismo, não abrange:

    a percentagem de LGBT rondará 1% da população;
    “The findings support the assumption that people with same-sex sexual behavior are at greater risk for psychiatric disorders”;
    os estudos científicos mostram também, consistentemente, que a população LGBT (o tal 1%) é mais infeliz sempre, não importando eventuais discriminações a que possa estar sujeita.

    Portanto, em última análise, trata-se de proteger menores e de razões de saúde pública. Não escreva disparates e não seja heterofóbica.

    • Miguel Leão says:

      Pensei aqui no Aventar não teria que ler comentários tão ordinários e estúpidos. Mas há gente para tudo!

      • Elvimonte says:

        Porque razão não pode um país, legitimamente, criar uma lei a proibir a promoção LGBT nas escolas e em conteúdos para menores de 18 anos?

        É que é essencialmente disso que trata – protecção de menores. Mas já vi que não percebeu e até talvez goste de ser sodomizado, um direito que lhe assiste. Não deve é tentar impôr essa sua opção a terceiros, nomeadamente menores.

        PS – Leões? Mais touros. Por isso, quando comento no Aventar, venho sempre vestido de vermelho. E razão tinha José Saramago quando dizia: “Antes gostávamos de dizer que a direita era estúpida, mas hoje em dia não conheço nada mais estúpido que a esquerda.”

        • POIS! says:

          Pois, mas agora há uma nova versão.

          Da citação de Saramago. Em vez das duas últimas palavras aparece agora a expressão “o Elvimonte”. Em sincera homenagem a V. Exa. A que todos nos associamos, evidentemente. Bem merece!

    • Paulo Marques says:

      Não se está a proteger ninguém, está-se a dizer a 1%, ou lá o que for, que são aberrações que não podem ser o que são, para os paizinhos poderem pensar que os filhos se tornam adultos no dia do 18º aniversário, onde descobrem o alcóol, o sexo, e o serviço militar.

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