O que é que os outros vão pensar?

do genial Susano Correia

Todos nós, pelo menos uma vez, já nos calamos por pensarmos que alguém não ia gostar do que íamos dizer. Também já deixamos de fazer coisas pelas mesmas razões. E porquê? Continuo à procura de uma resposta racional para um comportamento que se estende por tanta gente.

Aliás, a frase que dá o título a este texto foi ouvida por nós dezenas de vezes ao longo da nossa vida. Porque, realmente, os outros têm muita importância. Afinal, vivemos em sociedade, vivemos em comunidade, e todas as nossas vidas estão interligadas de alguma forma. No entanto, deixar de viver com limites auto-impostos baseados em considerações hipotéticas que fazemos sobre o que os outros pensam de nós é um comportamento irracional. Pode funcionar como uma espécie de mecanismo de defesa mas, na verdade, piora-nos interiormente.

Mas podemos ir ainda mais longe e pensar naquelas vezes em que temos o mesmo comportamento, mas porque nos dizem ou nos fazem sentir que aquilo que achamos está errado. E aí não são só os outros. São também os nossos, aqueles que fazem parte de nós e da nossa vida mais próxima. Que muitas vezes nos diminuem, propositadamente ou não e nós, deixando, acreditamos que somos desse tamanho. E passamos a ser. Não por magia, mas porque a vida funciona desta forma. Acreditemos ou não, os pensamentos que temos, as crenças que nos moldam, acabam por transformar a nossa realidade.

Todos temos uma voz interior, na nossa cabeça, que parece ir narrando as peripécias do nosso dia a dia. Podemos não verbalizar, mas mantemos grandes diálogos com ela e, no fundo, são esses diálogos que ditam aquilo que vamos receber como resultado. O segredo será, porventura, controlar essa voz. Controlar a sua dinâmica, a sua expressão, o seu tom e sermos nós a decidir todas essas nuances. E controlar também a nossa postura perante os supostos nossos que nos diminuem. Alberto Caeiro dizia que era do tamanho do que via e não da sua altura. Eu diria mais. Diria que somos do tamanho do que queremos ver.

Comments

  1. JgMenos says:

    Questões prévias:
    – A quem queremos dar-nos a conhecer.
    – A quem queremos conhecer

    Então as palavras contam.

    • POIS! says:

      Pois estamos todos completamente absolutamente estarrecidos as prementes questões levantadas por este Génio que só por exagerada modéstia se heteronimou Menos!

      Que profundidade de pensamento, meu deus!

      Receio que nem de escafandro alguém consiga atingir tal profundez.

      Mais fundo só mesmo o canhão da Nazaré, e em hora de maré alta!

      • JgMenos says:

        Eis um exemplo:
        – Quero conhecer este treteiro? Não.
        – Importa-me que me conheça? Não.

        • Tuga says:

          Toda a gente conhece o guarda livros Cruz

        • POIS! says:

          Pois, mais profundo ainda!

          JgMenos coloca-se no papel daqueles que se confrontam com a conjetura de algum dia, imprevisivelmente, com o próprio Menos se cruzarem por um acidental acaso do sempre imprevisível destino.

          Não há dúvidas e, se as houvesse, estariam desfeitas: JgMenos possui sublimes dotes de ubiquidade intelectual, quiçá longamente treinadas em frente ao aparelho reflexivo do seu pechiché.

Leave a Reply

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.