O Super Bock Super Rock e o egoísmo imbecil travestido de liberdade

Julho de 2011. Desci o país em direcção ao Meco, na única edição do Super Bock Super Rock em que acampei na Herdade do Cabeço da Flauta, ainda no tempo em que o rock não se esgotava no nome. Por lá passaram Artic Monkeys, Tame Impala a dar os primeiros passos, The Legendary Tiger Man, Arcade Fire, The Strokes e um gigante chamado Slash, entre outras coisas boas como Portishead, Rodrigo Leão ou Sven Väth. Um senhor cartaz.

Foram três dias bem passados, quase perfeitos, não fosse um pequeno detalhe: a viagem para o Meco. A viagem não. A viagem fez-se bem. Refiro-me àqueles 10km finais, que separam Fernão Ferro do recinto do festival, e que demoraram umas quatro horas a fazer. Ou mais, mas fiquemo-nos pelas quatro horas.

Disse quem chegou no primeiro dia que a espera foi ainda mais longa. E nem podia ser de outra maneira. O acesso era insuficiente para as poucas dezenas de milhar que chegavam, o estacionamento era aquele salve-se quem puder sem staff a orientar ou qualquer tipo de marcação, e o trânsito fluia a conta-gotas. Integramos a marcha lenta por volta das14:30h, montamos a tenda já perto das 19h.

Por causa desta experiência, e por conhecer muito bem a realidade dos festivais que se realizam junto a pequenas vilas ou aldeias, saúdo e vejo com total naturalidade a decisão de mudar o festival para o Pavilhão Atlântico. Com naturalidade e esperança redobrada no futuro da humanidade. Porque Portugal se encontra em risco máximo de incêndio, e aquele local, seco e acidentado, com acessibilidades indignas do nome e 30 ou 40 mil pessoas em euforias variadas, tinha tudo para se transformar numa tragédia. Na eventualidade de ser necessário evacuar aquela gente toda, por deflagrar um incêndio de largas dimensões, seria Pedrógão Grande all over again. Ou pior ainda. Mas há malta que, em nome de um egoísmo imbecil travestido de liberdade, vê na decisão um grande atropelo às suas liberdades fundamentais. A penetração do trumpismo em Portugal, para lá do partido dos fachos, é cada vez mais preocupante.

Comments

  1. José Ferreira says:

    Por momentos ainda pensei que dizia para a receita dos festivais revertessem para a recuperação das áreas ardidas…

  2. João Mendes says:

    Com essa cabeça cheia de merda, é normal que tenhas pensado.

  3. António says:

    Esta é a incultura, desta gente que até só sabe insultar soezmente! 65% dos portugueses não vão a eventos CULTURAIS. Só consomem porcaria, quando existem bons espectáculos de Teatro ou Ópera, alegam e desculpam-se que é caro! Pérolas a porcos…

  4. Luís Lavoura says:

    Na eventualidade de ser necessário evacuar aquela gente toda, por deflagrar um incêndio de largas dimensões, seria Pedrógão Grande all over again

    Se houvesse um incêndio, só pessoas parvas é que correriam para os carros a procurar sair dali. Pessoas inteligentes iriam para a borda da lagoa e atirar-se-iam para dentro dela se preciso fosse.


  5. Fui a este também, no terceiro dia. Grandes concertos. Bom lembrar.

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