Cristiano Ronaldo e a entrevista

Um jogador de futebol, provavelmente um dos melhores da história deste desporto, deu uma entrevista. Até aqui, nada de muito importante. Porém, antes mesmo da entrevista ter sido emitida, todo o cão e gato deu opinião sobre a dita. Já a tinham visto/ouvido? Não. Leram umas coisas no twitter (ainda existe?), viram umas linhas no facebook (uma magnífica fonte, como se sabe) e imediatamente tiraram conclusões. Os comentadores da bola “botaram” sentença. Os que amam o rapaz declararam o seu amor eterno. Os que o odeiam reforçaram o seu ódio. A jornalada (não confundir com jornalistas, essa espécie em vias de extinção) publicou umas coisas para procurar vendas e cliques. E essas “coisas” eram verdadeiras? Pergunta estúpida esta, como se isso nos dias que correm fosse importante. Frases retiradas do contexto? Resmas. Frases atribuídas ao jogador que afinal foram proferidas pelo entrevistador? Imensas. Frases que nem sequer foram proferidas? Demasiadas.

Finalmente, a entrevista foi emitida. Muitos que foram atrás de foguetes assobiam para o lado e já passaram para o tema seguinte, até porque o Mundial é mesmo ali ao virar da esquina. Ao longo destes dias fui vendo, ouvindo e lendo algumas coisas sobre o tema e, confesso, fiquei curioso por ver a entrevista. E vi. Afinal, o que disse o rapaz? Que encontrou um clube parado no tempo (o Mourinho ou o Zlatan já o tinham dito antes). Que o actual treinador não o respeita. Não me parece que seja uma grande novidade e já se tinha reparado – antes mesmo de o homem ser oficializado no clube já as velhas “fontes próximas” tinham aliviado a tripa a dizer que o treinador não contava com o jogador. Que os donos do clube (uns milionários americanos que percebem tanto de futebol como eu de curling) não foram solidários com a sua necessidade de estar com a família quando a sua filha mais recente ficou doente. Depois falou sobre uns antigos companheiros de balneário que hoje ganham a vida a comentar nas televisões que o criticaram. A seguir temos os momentos azia: não gostar de entrar a três minutos do fim do jogo puxando dos galões do seu estatuto de estrela mundial. E não gosta de estar no banco. Em suma, citando um amigo, o Cristiano Ronaldo disse coisas. Deu a sua opinião. De forma livre. E sabendo (não o tomem por estúpido) as consequências. As boas e as más. A entrevista e as opiniões nela vertidas pelo jogador são da sua responsabilidade.

Eu não morro de amores pelo rapaz desde aquela fatídica noite no Dragão, a 15 de Abril de 2009. O gajo, o sacana, vestia a camisola 7 do Manchester United e com um bilhete do meio da rua roubou-nos a ida às meias finais da Champions. Eu estava lá e ainda hoje vivo com uma azia do caraças aquele momento. Foi ele e não o MU quem nos eliminou. Aliás, o MU não valia cinco tostões mas ele carregava os gajos às costas. E nós fomos a vítima. Aquela maldade valeu-lhe o prémio Puskas desse ano e a minha fúria eterna. Uma fúria atenuada não tanto com a entrevista (fraquinha, por sinal) mas com a coragem de a ter feito. O homem está carregadinho de milhões, tem uma família que o apoia, uma carreira impressionante e aos 37 anos não precisava de arranjar lenha para se queimar. Podia estar sossegado mas não está. Continua a “pelear”, como dizem os espanhóis, como se fosse um miúdo de 20 anos de idade. É obra! Quero com isto dizer que concordo com tudo o que ele disse? Claro que não. Mas respeito. E cá estarei para ver o resultado. As consequências. O MU que se defenda. O ainda treinador do MU que se defenda. Foi o que fez o Cristiano Ronaldo. Daí a considerar que o homem não podia falar, não podia ter dito o que disse vai um salto gigantesco. Um salto rumo ao abismo, o abismo de limitarmos a liberdade de expressão do outro. Esse salto não dou. Para mim o Cristiano Ronaldo é apenas e tão só um jogador de futebol, um enorme jogador de futebol, um dos melhores da história e é livre de exprimir as suas opiniões. Posso concordar ou discordar mas não posso cercear a sua liberdade de expressão.

Não contem comigo é para surfar a onda dos que sem ouvir ou ver a entrevista “botam” sentença. Ao estilo “disparar primeiro e perguntar depois” neste velho estilo do jornalismo moderno ungido nas redes sociais e fundado no velho oeste. Terminada esta polémica, é só esperar pela nova que brotara numa rede social perto de si. E, já agora, os elogios a Messi (tão pouco se fala disso) ficaram-lhe muito bem.

Comments

  1. Luís Lavoura says:

    é livre de exprimir as suas opiniões. […] não posso cercear a sua liberdade de expressão.

    Quando uma pessoa é funcionária, ou trabalhadora, de uma empresa, qualquer que ela seja, a sua liberdade de expressão está sempre mais ou menos cerceada: a pessoa não é suposta ir morder a mão que lhe dá de comer.

    Ronaldo tem, evidentemente, todo o direito de dizer aquilo que disse. Tem tanto direito, que ninguém até agora lhe pôs um processo-crime em cima por difamação. Agora, aquilo que disse pode ter consequências, em particular perder o emprego e perder alguns amigos.

    • Anonimo says:

      Qualquer contrato, sim, contrato, de trabalho hoje em dia cerceia a liberdade de expressão. Ou eufemisticamente, impede o trabalhador (aka colaborador) de atentar contra o bom nome da entidade patronal.
      Ainda assim duvido que o CR, para passar a mensagem ou a sua versão dos factos, fique reduzido ao Sir Piers como último recurso da liberdade de expressão.
      Quanto ao conteúdo da entre a vista, tenho tanto interesse acerca dele como em ler a Caras. Sei, através da menina travessa da RR, que houve uns cromos armados em psicólogos, mas caramba, a televisão tem todo o direito de ombrear com o facebook em termos de dar palco a imbecis.

      • C Almeida says:

        O Facebook, da o palco. a plateia, a geral e os camarotes

  2. Paulo Marques says:

    Sim, alguém que está constantemente nos meios de comunicação continua com o direito de falar. E de fazer figuras. E o resto de gozar com isso.

  3. Joana Quelhas says:

    Gostei especialmente desta tirada:
    “… sua filha mais recente ficou doente.”

    Joana Quelhas

    • POIS! says:

      Pois tá bem, ó Quwuelllhasss (*)

      Estamos num país de poetas! Há que ter respeitinho!

      Lá por Vosselência não ter sensibilidade estética à altura, não é motivo para desdenhar!

      Se não, experimente fazer melhor. Até lhe sugiro um tema muito lindo: rimas com “Quarto Pastorinho”. Vá lá! Pratique a ver se ainda vai a tempo do Nobel!

      (*) Continua-se a seguir a máxima do Alencar (seja ele quem for…), aqui trazida por Vosselência: “não mencionar o…Vosselência”.

Discover more from Aventar

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading