Chegado a um balcão dos CTT, instalado numa casa de comércio, deparo-me com um idoso de aparência octogenária junto ao balcão, de roupas limpas mas desgastadas, magro, com ombros curvados pelo tempo, pescoço magro a destoar com a cabeça larga, apoiado numa bengala e de máscara presa abaixo do nariz.
Por entre uma respiração cansada, o idoso solicitou à funcionária que o ajudasse no pagamento da conta que constava da correspondência registada que acabava de levantar, remetida por uma entidade pública.
A funcionária, solícita, ajudou mas não foi capaz de esconder a sua indignação: a conta a pagar era de um cêntimo. A resposta do idoso, por entre a respiração cansada e forçada, que soou a uma mescla de derrota e de revolta, foi “Temos de pagar, menina. Temos de pagar”.
Paga a conta, o idoso agradeceu à funcionária o seu cuidado, desejando “Que Deus a ajude”. E após voltar-se para a porta de saída, olhou ligeiramente para trás e considerou “Se é que Deus existe…”, e apoiado na sua bengala saiu para a rua como se carregasse o mundo às costas, fustigado pelo vento e por uma chuva miudinha.
Numa breve cena, assisti a uma total desconstrução do progresso, da eficácia, da proximidade e da racionalidade, com que nos querem vender a modernidade coeva. À desconstrução de políticas, discursos, projectos, apoios, planos, bazucas, da era digital, dos “simplexes”, da inteligência artificial, dos “summits”, das redes, dos Direitos Humanos, dos discursos e das promessas. À desconstrução da fé.
Faz Marcelo Rebelo de Sousa muito bem em ir ao Catar pugnar pelos Direitos Humanos, entre um jogo de bola e umas “selfies”. Os tais direitos que, de início, eram para esquecer, mas que, afinal, já são para lembrar.
Até porque cá por casa está tudo bem. Graças a Deus. “Se é que Deus existe…”






É a eficiência, filho. É a eficiência.
É a ditadura do regulamento!
O contribuinte nem para 1 cêntimo lhe dão crédito para esperar por cobrança que não exceda a despesa de cobrar.
É a era digital dos grunhos.
Em ajustes directos são eles criativos!
Diz-me que o menos também é o resultado de um ajuste directo…
Pois tá bem! Recuemos uns anitos à “época de ouro” desta Nação…
Em plena época salazaresca a Câmara Municipal, presidida por um industrial lá do sítio, devidamente nomeado pelo Ministro do Interior, mandou um funcionário a minha casa, para exigir ao meu pai o pagamento de 5 escudos de “taxa de incêndios”, ou lá o que era.
Mas o homem nem sequer podia receber. Para se pagar uma pessoa tinha de ir para uma fila à porta do guichet da tesouraria da Câmara, onde a espera ia para mais ou Menos uma hora.
O meu pai pagou, mas deixou junto uma reclamação algo irónica sobre os custos que tinha envoilvido a cobrança daqueles 5 escudos: deslocação do funcionário, perda de horas de trabalho, desgaste dos carimbos e respetiva tinta, papéis em duplicado, papel químico, etc.
E onde foi parar a reclamação: à PIDE! Foi o suficiente para ser considerado “desafecto”. Mas os pides deveriam ter mais que fazer e, fora um telefonema para o emprego (este era um procedimento corrente dos pides, servia logo de intimidação – o que não funcionava com o patrão do meu pai, diga-se em abono da verdade), a coisa ficou por ali.
Era a “era digital” salazaresca. Passava tudo pelos dedos dos servidores…
Moral da história: tem cá Vosselência Salazaresca uma autoridadezinha para falar destas coisas…
Olhe que na era digital os robots que cá temos ainda não pensam. E essa do livro de reclamações da época salazarenta dá que pensar!
És contra as contas certas e não sabes.
… vive em Bruxelas.
desconstrução, adoro este vocábulo, quase tão bom como resiliente ou disruptivo.
A fatura de 1 cêntimo aconteceu há alguns meses, já não me lembro com que Entidade..
Mas o Mário Teixeira, vá-se lá perceber porquê, lembrou-se agora de a recuperar enrolando-a com um velhote (só faltou a velhinha a acompanhá-lo) que foi aos CTT pagar e não sabia como.
Não há limites para a imaginação?
Infelizmente, assim é! Agora tudo está pior. Dantes também se tinha de pedir um escudo para saldar uma conta e gastava-se muito mais em correio e papel. Mas podia ser que houvesse alguém que pensasse e deixasse passar até prescrever. Já agora um à parte: Hoje ainda se pedem dividas prescritas e só se o devedor invocar isso, é que está desobrigado de pagar. Caso contrário ainda pode ter muito trabalho…
E foi-se o PR catar para falar de direitos humanos, mas não leu as notícias, de hoje, sobre o tráfico de seres humanos no Alentejo onde foram resgatadas 60 pessoas e “descoberta” com muitos especialistas no assunto…
Acho piada as pessoas que vêm aqui aliviar os fígados com os seus comentários, mas não conhecem a realidade actual, onde até foi invertido o ónus da prova para quem deve impostos ao Estado.