Elon Musk e liberdade

Nos últimos tempos, temos visto crescer a imagem do oligarca sul-africano Elon Musk como um deus da liberdade de expressão, um rei libertário das massas oprimidas no Twitter.

Se a visão de um oligarca como “um defensor da liberdade”, seja ela qual for, já é abusiva, todo o endeusamento à volta do bilionário atesta o delírio colectivo. Isto porque “liberdade” e “bilionário” são duas ideias contraditórias entre si; nenhum bilionário nos trará liberdade, mas ao assumir-se como um paladino da mesma, nós, comuns mortais, estamos a assegurar a sua. E a sua liberdade é a de poder continuar a lucrar desmesuradamente com os seus negócios, aqueles onde nós investimos, mesmo sem nos apercebemos. Não pode ser uma musa da liberdade aquele que se opõe a que os seus trabalhadores usufruam das liberdades a que têm direito como, por exemplo, o direito à greve, ao qual o oligarca Musk se opõe.

Elon Musk não é exemplo de nenhuma virtude, a não ser a aparente virtude de ter muito dinheiro. Se é que isso é uma virtude por si só (plot twist: não é). Mas pode vir a sê-lo, basta querer. Em primeiro lugar, pode começar por re-admitir aqueles que despediu: os moderadores de conteúdo que tinham a tarefa de monitorizar crimes na internet. Excluir as carradas de contas de nazis que deixa andar livremente por uma plataforma mainstream, pode já ser um passo.

Depois, é simples, fecha as portas da Tesla na China, no Catar, nos Emirados Árabes Unidos, na Hungria e na Turquia, países onde não existe… liberdade de expressão.

Até lá, será apenas o rei da manipulação com um objectivo único: manter-se no topo da lista dos oligarcas mais oligarcas do mundo. E se Portugal seguisse o exemplo do Brasil, poderíamos começar a pensar em libertar, finalmente, os nossos jovens do jugo das redes sociais vistas como “mundo real”.

Liberdade haverá quando não houver espaço para nem mais um Elon Musk.

“Se é que Deus existe…”

Chegado a um balcão dos CTT, instalado numa casa de comércio, deparo-me com um idoso de aparência octogenária junto ao balcão, de roupas limpas mas desgastadas, magro, com ombros curvados pelo tempo, pescoço magro a destoar com a cabeça larga, apoiado numa bengala e de máscara presa abaixo do nariz.

Por entre uma respiração cansada, o idoso solicitou à funcionária que o ajudasse no pagamento da conta que constava da correspondência registada que acabava de levantar, remetida por uma entidade pública.

A funcionária, solícita, ajudou mas não foi capaz de esconder a sua indignação: a conta a pagar era de um cêntimo. A resposta do idoso, por entre a respiração cansada e forçada, que soou a uma mescla de derrota e de revolta, foi “Temos de pagar, menina. Temos de pagar”.

Paga a conta, o idoso agradeceu à funcionária o seu cuidado, desejando “Que Deus a ajude”. E após voltar-se para a porta de saída, olhou ligeiramente para trás e considerou “Se é que Deus existe…”, e apoiado na sua bengala saiu para a rua como se carregasse o mundo às costas, fustigado pelo vento e por uma chuva miudinha.

Numa breve cena, assisti a uma total desconstrução do progresso, da eficácia, da proximidade e da racionalidade, com que nos querem vender a modernidade coeva. À desconstrução de políticas, discursos, projectos, apoios, planos, bazucas, da era digital, dos “simplexes”, da inteligência artificial, dos “summits”, das redes, dos Direitos Humanos, dos discursos e das promessas. À desconstrução da fé.

Faz Marcelo Rebelo de Sousa muito bem em ir ao Catar pugnar pelos Direitos Humanos, entre um jogo de bola e umas “selfies”. Os tais direitos que, de início, eram para esquecer, mas que, afinal, já são para lembrar.

Até porque cá por casa está tudo bem. Graças a Deus. “Se é que Deus existe…”

Quando o dinheiro fala: o Mundial no Catar

“Catar exige à FIFA que proíba venda de cerveja nos estádios do Mundial”.

O Mundial de futebol que vai ter início no Catar este mês, está, desde o início, envolto em polémica.

Corrupção, escravatura no século XXI à boa maneira dos séculos passados, atropelos de quase todos os Direitos Humanos – as acusações são muitas, legítimas e fidedignas. E, ao contrário da narrativa vigente, as queixas não surgiram “só agora”. Há meses e anos que muitos activistas, em especial a Amnistia Internacional, alertam para o pontapé com força que o Catar dá nos Direitos Humanos… e muitos destes foram parar ao Terceiro Anel, isto é, estão lá soterrados em cimento. Já quanto à Amnistia, é risível ver que quando denunciou os abusos da entente de Putin na Ucrânia, todos aplaudiram; depois, a Amnistia apontou também o dedo à Ucrânia e a maioria fez “boooo”. Por fim, esses arautos descobriram também que a Amnistia defende que Israel impõe um Apartheid aos palestinianos e que acha que o Catar é um Estado construído sobre o sangue de escravos e afinal a Amnistia não presta e está do lado do mal. 

O Mundial de futebol de 2022 está, antes do começo, manchado de sangue. A única opção, a mais corajosa, seria, de forma concertada, que as Selecções apuradas não se fizessem representar. Ou, em contra-partida, se se fizessem representar, que tivessem, quando muito, a coragem e o brio de se manifestarem de alguma forma. A Selecção da Dinamarca foi uma das que decidiu, nas suas camisolas, fazer alusão à barbárie que é este Mundial. Consequência? Foram proibidos de as usar pela FIFA, para não ferir a susceptibilidade dos senhores representantes do Catar. E o que fez a Dinamarca? Assentiu de pronto, sem mais, com medo de perder o lugar… e os dólares pichados a sangue e petróleo.

A sociedade civil e a opinião pública, essas sim, acordaram tarde, ao contrário de muitas organizações não-governamentais e associações de activistas. Sabia-se, desde os primórdios, que o Catar não respeitava os Direitos Humanos, não respeita os trabalhadores, não respeita as mulheres, não respeita os homossexuais… mas não nos tirem a cerveja! Até porque, fomos aconselhados ontem pelo senhor Presidente da República portuguesa: “ah e tal, tudo bem os Direitos Humanos e coiso… mas e o golo do João Mário?!”. Disso ninguém fala! São quatrocentos casos de pedofilia na Igreja e seis mil e quinhentas mortes na construção de estádios de futebol no Catar… tudo coisa pouca para quem é tão popularucho. 

Talvez assim, sem álcool, muitos dos que não vêem quaisquer problemas com a realização deste Mundial, se insurjam contra a fantochada que é este “evento desportivo” que tem de tudo, menos a ver com desporto.

Quando há muito dinheiro à mistura, fala mais o pedaço de papel do que a carne do Humano.

Quem vê futebois não vê opressões

A comunicação social já está de olhos postos no Portugal X Turquia de amanhã. Como sempre, mesmo em tempos de guerra, nada como o futebol para interferir com a grelha informativa, há um mês obcecada, como nunca, por uma das muitas guerras que decorrem no planeta Terra.

O jogo é a primeira etapa dos playoffs que poderão levar Portugal ao Mundial do Qatar. Um Mundial marcado desde cedo por suspeitas de corrupção na escolha do anfitrião. Um Mundial que acontece numa monarquia absoluta, com níveis de opressão não muito diferentes dos da Federação Russa, que também organizou, recentemente, um Campeonato do Mundo de Futebol. Um Mundial ensombrado pelas denúncias internacionais de abuso de direitos humanos, com trabalho escravo na construção dos estádios e infraestruturas, sem condições dignas, que de resto levou à morte de mais de 6500 trabalhadores. Ou escravos, como preferirem, até porque, em muitos casos, os “trabalhadores” podem legalmente ser sujeitos ao trabalho escravo, não podendo sequer ausentar-se do país sem autorização do patrão. Ou, se preferirem, do oligarca lá do sítio.

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