A representação e a representatividade

Keyla Brasil, artista trans, invadiu o palco de uma peça no Teatro S. Luiz, protestando contra aquilo que denomina de ”transfake” (uma expressão, julgo, importada dos Estados Unidos da América), por um actor, que se identifica com o género masculino, estar a interpretar, na peça, o papel de uma mulher trans.

O argumento das activistas centra-se na questão da representatividade e do “lugar de fala”, exigindo, e bem, que mais artistas trans sejam contratadas para o teatro, artes performativas e para outros trabalhos onde, sabemos, há ainda discriminação e desigualdade no acesso; argumentam, também, e é aqui que a minha discórdia se apresenta, que só actores ou actrizes trans possam representar os papéis ficcionais de personagens trans. Nada mais errado, a meu ver, pois a representação não é um sinónimo de representatividade. Vejamos as definições dos dois conceitos, aplicados à questão em discussão:

1 – Representação: (teatro) “exibição em cena”, “espectáculo teatral”, (cinema, teatro, televisão) “desempenho de actores; interpretação; actuação”;
2 – Representatividade: “qualidade do que é representativo”; Representativo: “que representa”; “que envolve representação”; “constituído por representantes”.

Analisando as duas expressões, podemos concluir que as mesmas se inter-ligam. A representação pode ser representativa de alguma realidade, pode é ser, apenas, representação e, como tal, o teatro reveste-se apenas da premissa da interpretação de textos e personagens, não sendo raras as vezes que uma estória, sendo ficcional, retrata partes da realidade em que nos inserimos. A falta de representatividade no que à presença de pessoas trans na vida social e no mundo laboral, as suas dificuldades no acesso a direitos que são comuns, ou deviam ser, a todos os Seres Humanos, é real e não a podemos escamotear.

Faltam actrizes trans nas artes? Faltam, pois. Só actrizes trans poderão interpretar o papel de uma mulher trans? Não. Quem usa o argumento, como já li por aí, de que tal, sucedendo, não passa de uma maneira de “escarnecer” e “satirizar” o papel das pessoas trans, não me parece atender aos vários planos que a arte nos transmite (na arte, seja na pintura, na fotografia ou no teatro, muitas vezes há uma transformação do próprio autor – eu mesmo, tendo uma obra poética publicada, “Alter-ego”, escrevi sobre assuntos que não vivi, dos quais a experiência real desconheço, pois o objectivo era, realmente, transformar o entendimento, o meu e de quem lê). É um argumento ferido de lógica à partida, pois pressupõe que todas as peças onde uma mulher trans seja interpretada por um actor cis, tenham a intenção de ridicularizar e oprimir as mulheres trans. Ora, não tendo eu lido o guião da peça em questão “Tudo Sobre a Minha Mãe”, nem tendo assistido à mesma em qualquer circunstância, não estou em condições de aferir se a personagem em questão, interpretada pelo actor André Patrício, escarnece e ridiculariza as mulheres trans ou se, por contrário, tenta, através da representação e do seu trabalho, pôr a cobro a realidade da opressão das pessoas trans.

Em “Elite”, série de produção espanhola da Netflix, um dos personagens é Cruz, um jogador de futebol brasileiro que, ao longo da série, se vai debatendo com questões pessoais e sociais que o levam a assumir a bissexualidade. Até aqui, nada de transcendente, certo? Bem, a personagem “Cruz” é representada por Carloto Cotta. Quem é Carloto Cotta? Carloto é um actor português, nascido em França e que completou a sua formação artística na Escola Profissional de Teatro de Cascais. Não consta que tenha nacionalidade brasileira, que seja jogador de futebol ou que seja bissexual. Aparentemente, o actor (excelente actor, diga-se) Carloto Cotta é um português, nascido em França, actor e heterossexual. Mas interpretou a personagem de um brasileiro, jogador de futebol é bissexual. E fê-lo muito bem, na minha opinião. Mas alguém lhe disse que não podia? A dificuldade dos brasileiros, nomeadamente no mercado de trabalho português, em encontrarem trabalho estável, não precário, ou a exclusão de alguns artistas brasileiros da cena artística, não levou a que nenhum brasileiro (na série “Elite” há André Lamoglia, actor brasileiro que representa o filho de Cruz) invadisse o espaço das gravações da série exigindo que esse papel fosse interpretado por um actor brasileiro. Penso eu de que…

Noutro exemplo, Rodrigo Santoro, actor brasileiro, interpreta Magalhães na série “Sem Limites”. Quem é “Magalhães”? É Fernão de Magalhães, navegador português do século XVI. “Quis chegar à essência do homem e não ficar pela imagem romântica das caricaturas, era esse o meu objetivo mais importante, tentar perceber quem teria sido este homem.”, disse Rodrigo Santoro, que acrescentou ainda que lutou para que as suas frases fossem ditas, por ele, em português de Portugal. Não acho que, nesta situação, algum actor português (e sabemos bem o quanto os actores portugueses ainda são empurrados para a precariedade e para uma vida de salários baixos) tenha saltado da sua cadeira para ir tirar esclarecimentos à produção da série em causa, por esta personagem, um português do século XVI, ser interpretada por um brasileiro; até porque no século XVI, o Brasil ainda era uma colónia portuguesa.

Em suma, e tentando ser tácito no pensamento, concordo que existe discriminação e desigualdade no acesso de pessoas trans às mais diferentes formas laborais que a sociedade nos apresenta. Sendo o teatro, ou, em sentido lato, a arte em geral parte dessa sociedade, é inerente que a discriminação e a desigualdade no acesso se manifestem, também, aí. Estou solidário e lutarei também para que o progresso se faça no sentido de não excluir ninguém. Não concordo é que só actores que se idenfiquem, seja em que plano for, com a personagem, tenham o direito de interpretar essa personagem. As palavras que Keyla Brasil dirigiu a André Patrício, acusando-o de falta de ética profissional, exigindo que o mesmo nem sequer se apresentasse no dia seguinte naquele espaço, é atentatória da liberdade de expressão, de criação e artística, quer do próprio André, como dos seus colegas em palco. Não é com exclusões que conseguiremos incluir.

Na imagem: Carloto Cotta, actor português heterossexual, à direita, interpreta Cruz em “Elite”, um jogador de futebol brasileiro que descobre a sua bissexualidade; aqui contracena com Manu Ríos, actor e modelo espanhol, homossexual, que na série interpreta “Patrick”, um jovem homossexual em posição de privilégio sócio-económico.

Ps. André Patrício não ficou sem lugar na peça, pois interpreta outras três personagens para além da mulher trans. Para o lugar da personagem interpretada por André Patrício, foi contratada a actriz trans Maria João Vaz que disse “Não subscrevo o método de saltar para um palco com aquela violência. Preferi um trabalho precário no Burger King do que tomar essa atitude. Apoio e subscrevo o movimento, mas não a atitude”.

Comments

  1. JgMenos says:

    O passo seguinte é exigirem quotas.
    Ser anormal é um privilégio…em progresso.
    Anormalizar-se é construir futuro!
    O hetero começa a ser mal visto, ser macho é de gosto duvidoso, mais uma drogas e umas manipulações genéticas e a p* da igualdade levar-nos-á de volta a um qualquer cardume ancestral.

    • Paulo Marques says:

      Fala o homem preso em vários(!) passados mitológicos…

    • João L Maio says:

      JgMenos,

      O teu problema é do foro mental, não vou comentar esse teu problema, por respeito a quem tanto sofre mentalmente.

      Procura ajuda, não é vergonha nenhuma.

    • Carlos Almeida says:

      Muito bem, estimado JgMenos.
      Diz o caríssimo que “ser anormal é um previlegio” .
      Deve ser por isso que este fórum tem permitido constantes vômitos salazarentos um anormal como o estimado JgMenos.
      O Sr JgMenos é um previlegiado e não sabia.

      A bem da Nação

      Carlos Almeida

      PS. Anda por aqui cada Foxtrot Papa !

      • JgMenos says:

        Cada vez que invocas o Salazar revelas-te na inteireza do vulgar venerador do corretês: ignorante e presunçoso!

        • Carlos Almeida says:

          Estimado JgMenos

          Para sua informação, sou capaz de conhecer mais do regime do botas e do ditador Salazar propriamente dito do que o estimado o Sr JcMenos
          Continue a insultar quem não concorda com as suas doutas opiniões, que está no caminho certo e é bastante esclarecedor
          A diferença ao que acontecia no tempo da PIDE e do Botas, é que agora felizmente não pode enviar os “seus
          esbirros” para agredir e prender a quem não concorda com o Sr JcMenos.

          A bem da Nação

          Carlos Almeida

    • POIS! says:

      Pois não admira!

      Também há lugares onde há quotas para salazarescos.

      Onde?

      Olhe, por exemplo, nas espreguiçadeiras da praia do Guincho! Há lá uma fila só para salazarescos. Com direito a serviço de barbeiro, calista e tudo!

      E, por baixo, é areia. O que evita acidentes, que são sempre lamentáveis.

  2. JgMenos says:

    O postador toma o cuidado de dizer que sendo inaceitável e idiota o que diz e faz, sendo bichona, tal deve ser-lhe dito com modinhos e tiques convenientes.
    Já se fosse um hetero, para um homo armado em macho em palco, o caso seria de besta para baixo, e de fascista não se livrava.

    • João L Maio says:

      Entre bichonas e bestas como tu, venham as bichonas, meu bisonte com polegares oponíveis.

      • JgMenos says:

        A discriminação é a tua praia!
        Um mundo de bestas e tadinhos, e tu tão bonzinho do lado dos tadinhos.
        Jocista! Só te falta um Cerejeira para te pôr a benção.

        • João L Maio says:

          Sim, coisa fofa, discrimino brutalmente parolos como tu. Aqui ninguém é “Tadinho”, mas tu besta és.

          Deita-te tu nesse Cerejal, consta que já sabe o que é deitar-se com Oliveiras.

  3. Paulo Marques says:

    Ou seja, a intenção individual pode não ser discriminatória, mas o conjunto global das acções ser de exclusão, sem isso significar que merecem todos ser excomungados.
    Não conheço o meio, pelo que não me pronuncio, excepto para dizer que podem discordar, mas seguem em frente. Já outros continuam atormentados que lhes caia uma pila na cabeça, sabe-se lá como, e bom, bom, era o encenador comer umas pitas – se bem que se calhar hoje em dia isso é só direito artistas modernos, como jogadores de futebol ou quê.

  4. Anonimo says:

    Felizmente a comunidade artística em geral e o elenco da peça em particular colocaram-se ao lado do actor dispensado do papel, após uma invasão do palco de um indivíduo, que até reforços levava. Ah, espera…

    • João L Maio says:

      Infelizmente, cederam à pressão da forma errada,
      Infelizmente, dizem, a acção foi consertada e encenada, pois havia, dentro, quem já soubesse que isto estava planeado.
      Infelizmente, não foi a Keyla quem foi contratada para o papel e, parece-me que, infelizmente, vai continuar a “chupar pau” para ter dinheiro ao fim do mês.

      Resultado: uma mulher trans ocupou AQUELE lugar mas não muda o facto de as mulheres trans continuarem a ver o acesso negado no mundo laboral (e não só nas artes).

      • Anonimo says:

        Concertada ou não, fez-se.
        Claro que cedem, não querem barulho e confusão. É tudo uma questão de quem berra mais. A dobragem do Soul já foi o que foi…

        • João L Maio says:

          Podiam ter reunido sem ser necessária a invasão. Podiam juntar-se em acções de protesto frente aos teatros. Podiam criar um sindicato das trabalhadoras trans em Portugal. Podiam… haveria, certamente, mil e uma formas de luta diferentes e legítimas.

          Mas eu percebo que tendo sido feito assim choca mais, fala-se disto durante dois ou três dias, ganham-se seguidores e criam-se trincheiras, numa espécie de reality show da vida real.

          As coisas que foram ditas sobre a dobragem do Soul e, sobretudo, sobre certos actores que faziam as dobragens foi de uma ignomínia gritante. O estalo do Will Smith no Chris Rock idem. O impedimento de uma actuação do Dave Chapelle, onde milhares o esperavam, porque três ou quatro activistas trans assim o decidiram, idem idem. Parece que agora funciona assim, com acções individuais que não ajudam o colectivo (e os vários colectivos dentro do colectivo).

          • Eu vejo narcisismo a mais.

          • Paulo Marques says:

            Por oposição a não funcionar?

          • Anonimo says:

            O estalo do Will Smith não foi ignóbil, foi um acto que deveria ter a devida punição judicial (para isso os Homens fizeram as leis), mas que também não devia dar direito a ostracismo (muito moda nas redes) profissional. Errou, cumpre castigo. Engraçado como todos os criminosos merecem segunda oportunidade, mas contaste uma piada de gordas há 20 anos atrás, e é para a vida.
            Voltando ao Will, ignóbeis foram algumas reacções a desculpabilizar e contextualizar… fosse o Mel gibson a assentar uma na Ellen, aquilo explodia.

        • João L Maio says:

          Anónimo,

          Concordo.

  5. “Arranja-me um emprego, pode ser na tua empresa, com certeza, que eu dava conta do recado
    e pra ti era um sossego”. Antes era assim, agora é mais à bruta.

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  1. […] Mas, por aí, continuam acriticamente a dar palco aos promotores da fraude . E o palco não é o do S. Luiz. Haja […]

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