“Primeiro vieram buscar os socialistas, e eu fiquei calado — porque não era socialista.
Então, vieram buscar os sindicalistas, e eu fiquei calado — porque não era sindicalista.
Em seguida, vieram buscar os judeus, e eu fiquei calado — porque não era judeu.
Foi então que vieram buscar-me, e já não havia mais ninguém para me defender.”
(Martin Niemöller)
Foi após o 25 de Abril de 1974, que se consagrou o direito ao silêncio, como um dos maiores expoentes da Democracia. Pois que o silêncio deixou de ser uma arma de opressão e repressão, e passou a ser uma garantia de que ninguém poderia ser prejudicado por não falar. Passou a ser um direito, tanto mais para não se auto-incriminar. Até porque falar ou não, é um direito pessoal, manifestação de livre vontade do indivíduo.
Isto, após o regime do Estado Novo de Salazar, em que se impunha o silêncio a quem pretendia se expressar de forma contrária ao que o regime ditava como certo ou errado. E impunha-se pela força, fosse por espancamento ou mesmo morte. Impunha-se até em julgamentos nos tribunais plenários, com espancamentos diante dos olhos de magistrados em pleno julgamento.
Sim: o Estado Novo de Salazar matou gente. Matou a tiro, por tortura, por degredo. E castrou o pensamento livre, calando com censura, garantindo-se com eleições forjadas, matando opositores, prendendo a crítica, tudo sob a batuta do medo. E no mais terrífico silêncio imposto.
O objectivo do silenciamento foi sempre um só: permitir ao Estado Novo, a manutenção do status quo das ditas elites, garantindo a submissão dos demais.
A Democracia, por seu turno, permite o debate de ideias, expressão livre do voto em eleições sem fraudes, e até mesmo, que aqueles que não comunguem dos ideais da Democracia, defendam teses autocráticas.
Porque a Liberdade, enquanto valor estruturante de qualquer Democracia digna de tal nome, permite isso mesmo: que se fale, que se expresse, que se verbalize. Pois que na Democracia, respeita-se o silêncio. Não se impõe.
Sendo que o silêncio, enquanto exercício de vontade livre, tem, a cada caso, um valor intrínseco, como em qualquer exercício de opção livre. Daí que na Lei, o silêncio tanto pode ser para que alguém não se auto-incrimine, como poderá ter valor de declaração negocial ou ter o valor de confissão.
Em política, o valor do silêncio, também é aferido de acordo com as circunstâncias. Podendo ter o valor de alienação, de colaboracionismo, de concordância, etc. Dependendo, também, de como esse silêncio é exercido, ou seja em que circunstâncias de modo, tempo e lugar. E se é exercido apenas individualmente, ou se o exercício desse silêncio se estende a um grupo.
Partindo te tudo quanto supra se expôs, a opção de Luís Montenegro de se remeter ao silêncio quanto à segunda volta das eleições presidenciais, é legítima. Porquanto livre e esclarecida, é uma opção que exerce de acordo com aquilo que é uma manifestação de vontade. Outra coisa, todavia, é estender essa opção a todo um grupo, no caso o PSD.
Luís Montenegro tem todo o direito de ficar em silêncio, quanto à opção de quem apoia ou em quem vota – ainda mais em quem vota, pois que o voto é secreto -, na segunda volta das eleições presidenciais. Mas, terá ele, ainda que presidente do PSD e Chefe de Governo, o direito de impor esse silêncio ao seu partido, impedindo os seus militantes de se expressarem em sede própria – mormente em congresso -, a sua opinião?
Sobre o PSD e o seu eterno problema de ADN, já escrevi aqui. E partindo do ali escrevi e do que acima expus, não me surpreende a opção de Luís Montenegro.
O PSD não foi, não é, e duvido que algum dia seja, social-democrata. O PSD não tem, não quer ter e duvido que algum dia queira ter, alguma coisa a ver com o socialismo democrático. Pelo que percebe-se o silêncio compartilhado entre Luís Montenegro e o PSD: nas suas fileiras, desde sempre, não falta quem, de modo mais ou menos expresso, de modo mais ou menos assumido, pense o mundo pela cartilha do Chega. E, depois, falta aquela consistência ideológica, o compromisso sério com valores humanistas e sociais, que possam dar coragem para assumir confrontos difíceis. Falta rigidez à armadura feita de princípios e de convicções, que permita ultrapassar o medo do combate.
Seja, ou não, uma boa táctica de sobrevivência – a mim parece-me errada, pois só vai dar força à canibalização do PSD pelo Chega nas próximas eleições legislativas, mas veremos -, valeu o facto de algumas personalidades do PSD terem percebido o que está em causa na segunda volta das presidenciais, e, por isso, darem o seu apoio a António José Seguro. Não que Luís Montenegro e a elite do aparelho do PSD não saibam – sabem muito bem – o que está em causa: a escolha entre uma visão democrática e uma visão autocrática da política.
Face à clarividência da encruzilhada, o silêncio optado por Luís Montenegro, acaba por ser colaboracionista com aqueles que defendendo uma visão autocrática da política e da sociedade, tentam, a todo o custo criar falsos sinónimos para Democracia, como corrupção, tachismo, insegurança, bandalheira, etc. Permite pelo silêncio – ou como popular diz-se, calando, consente -, que essa mensagem passe e se enraíze na sociedade. Daí a normalizar-se grupos extremistas como o 1143 – cujo apoio, Ventura não enjeita -, tudo é fácil e natural.
Na segunda volta das presidenciais, não está em causa ser ou não socialista, ser de Esquerda ou de Direita. Como não está em causa o diagnóstico, mas, sim, o tratamento. Pois que muita coisa tem de ser corrigida em Portugal em matéria de coesão social, redistribuição da riqueza, acesso e realização da justiça, acesso aos cuidados de saúde, acesso ao ensino, carreiras profissionais, transportes, a pobreza, a segurança interna e de fronteiras, etc. A questão é se perante uma perna partida, defendemos o seu tratamento ou a sua amputação.






O PPD foi a Direita democrática, com preocupações sociais que recusava ir fundamentar em invocações religiosas como em boa medida era suscitado pelo CDS. No conjunto refletiam uma direita que só se distinguia da que constituía o Estado Novo na sua fase final pelo culto da Liberdade Política e conseqüente adesão à Democracia.
Deixar-se arrastar para o rótulo social-democrata foi tática expansionista que só compara com um PS essencialmente burguês que por esse tempo se proclamava marxista e se queria ‘diverso’ para melhor parasitar o Estado.
Continua o PSD de hoje a balançar entre ser PPD e social-democrata (esse pântano ideológico que que põe as preocupações socias da direita a freqüentar o prostíbulo marxista).
Não tem os tomates necessários para crescer para o lado do PPD que se fez Chega, não querendo de afastar-se do p*teiro que foi construindo com os social-burgueses do PS.
Do restante restolho esquerdalho nem falo…
Portanto, o PS não é socialista. Obrigado pela admissão.
Já agora aí vai a conhecida confissão de Niemöller: completa:
Primeiro levaram os comunistas, e eu não disse nada, porque não era comunista.
Depois levaram os judeus, e eu não disse nada,porque não era judeu.
Depois levaram os sindicalistas, e eu não disse nada, porque não era sindicalista.
Depois levaram os católicos, e eu não disse nada, porque era protestante.
Depois levaram-me, e já não havia ninguém para falar por mim.
Mas não esqueçamos que isto foi o epitáfio de uma consciência que despertou tarde demais.
Não é apenas um alerta: é a prova de que o mal vence não pela força, mas pelo silêncio dos justos ( Recordar também Edmund Burke sobre a Revolução Francesa).
Enquanto que Dietrich Bonhoeffer, ao contrário de Niemöller, não esperou.
Reconheceu desde o início que entre o Cristianismo e o Nazismo havia uma incompatibilidade essencial, não de estilo, mas de substância.
Enquanto Niemöller lamentou, Bonhoeffer combateu.
Um é memória. O outro, exemplo que está disposto a pagar com a própria vida.
Joana Quelhas
Pois cá está!
Mais um episódio da famosa strimmingada série “Oh p’rá Quwwelllhasss a Comparar Figuras Históricas e Tal”.
No próximo episódio, que todos aguardam em pulgas (fornecidas pela própria Qwwwuelllhhasss, da sua criação particular), irão ser comparados de forma definitiva D. Afonso Henriques (Hetero de Ação) com D. Sebastião (Não Binário de Hesitação).
No entanto, primeiro levaram os alegados “desviados sexuais”, mas isso não dá jeito.
De entre os vários pontos, pego num: os cidadãos têm direito ao silêncio, mas deviam silenciar-se menos invés de deixaram que falem por si. Senão o primeiro pateta que “diz umas verdades” simplesmente fica com a sua parte e o resto continua.