Bacalhau

Um dos eixos principais da estratégia política do Presidente da República consiste na tentativa de contenção, no nosso país, daquilo a que se chama agora “nacionalismo populista”. Parece um paradoxo, mas não é. O Presidente da República fá-lo ocupando o espaço semiótico com acções coordenadas que não têm uma natureza estritamente política, mas psicopolítica, daí derivando o epíteto de “Presidente dos afectos”. Esses “afectos”, que se traduzem simultaneamente numa grande excentricidade do exercício das suas funções e numa proximidade simbólica ao “homem comum” exacerbada, pretendem captar e prender pela emoção primária, também ela populista, todos aqueles que, de outro modo, se poderiam mostrar receptivos à mensagem que varre com força uma boa parte do ocidente e que normalmente se identifica na radical oposição ao modelo de “democracia global” até agora vigente. A originalidade de Marcelo Rebelo de Sousa é o seu Populismo Católico, instrumento com que tenta travar a chegada, a este lado da península ibérica, dos exércitos de Bannon. Nada garante que Bannon não chegue cá, mas se não fosse Marcelo, talvez já cá estivesse.

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Hipocrisia alimentar

A mesma Europa tão preocupada com o sal e com as maçãs fora de formato é aquela que nem hesita perante a introdução de mais um produto inquinado.

vagas de fundo fosfatado

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O portentoso Costa dos desastres urbanos diz que vai  mas não vai e afinal apenas avisa. Deve estar à espera de conseguir uma daquelas vagas de fundo ao estilo da Nazaré. No entanto, a notícia que mais interessa ao comum transeunte das nossas escalavradas calçadas, é a má nova acerca do bacalhau fosfatado. A escória bruxelesa nada mais tem em que pensar senão nos beneficíos a conceder às indústrias de venenos da Alemanha, Suécia, Holanda, Finlândia e Dinamarca. Isso mesmo, tudo não passará de mais ganância sobre ainda maior ganância.

Quando em boa hora levámos a cabo a Restauração de 1640, os nossos amigos da onça batavos, de imediato decidiram exigir a península de Setúbal como compensação pela paz. Queriam o sal, vá-se lá saber porquê…

Desconto de 100%

Não se consegue perceber por que razão é detido um homem tão dotado de empreendedorismo e que se limitou a tentar usar as leis do mercado a seu favor, acomodando cuidadosamente bacalhau no interior do casaco.

Há pouco tempo, muitos defenderam o Pingo Doce. Seria de uma hipocrisia sem nome que os mesmos criticassem, agora, um homem que propôs um desconto de 100%.

Como Se Fora Um Conto – O Meu Dia de Reis


O MEU DIA DE REIS

Durante muitos anos, nos meus tempos de ganapo e mais tarde de adolescente, a noite de 5 de Janeiro era uma perfeita e completa chatice.

Meu pai, não dispensava ao jantar, o bacalhau e as batatas e as couves e o polvo cozidos, e o vinho tinto (que eu não podia beber por causa da idade, só a água me era permitida) e o pão e os doces (que eu detestava) e mais nada! Em tudo igualzinho aos jantares do dia 24 e do dia 31 de Dezembro. Chamava-lhes a consoada de Natal, de Fim de Ano e de Reis. O problema era que como a consoada do dia 31, não tinha as prendas do Menino Jesus no sapatinho, e ao contrário desta e da do dia 24, não era feriado no dia seguinte.

Era, como disse, uma chatice (termo que na altura se não podia dizer, que era feio, usando-se ao invés a palavra aborrecimento, muito mais suave e que a meu ver não traduzia devidamente a real chatice que tudo aquilo era). Se ainda fossemos espanhóis, que eles ao menos tinham as prendas nos Reis e as nossas já há muito estavam estragadas ou nós cansados de brincar com elas pois que nessa época era só uma prendita para cada um, vi-me eu a dizer uma ou outra vez, sem saber, como é evidente, o que dizia, que isto na altura era complicado com a peseta a valer metade do escudo, e os maus ventos que se dizia que de lá vinham, e os maus casamentos e tudo.
Mais tarde, quando eu e os meus primos começamos a casar e nos fomos dividindo pela casa dos avós e pela casa dos pais e avós dos/as nossos/as consortes, ano sim num lado, ano não no outro, e quase nunca era possível encontramo-nos, decidi reinventar o dia de Reis. Assim consegui reunir nesse dia, em minha casa, toda a família de sempre e mais os que ao longo dos anos se foram juntando por via do casamento ou por nascimento. E era uma enorme e maravilhosa festa anual. No 3º ano, decidi juntar aos familiares, alguns amigos, poucos, que no dia-a-dia se tinham mostrado mais família que família. E a festa aumentou. Chegamos ao lindo número de setenta e cinco pessoas. E a festa engrandeceu, e nesses dias, os arrufos, as desavenças, as chatices, e fosse o que fosse de menos bom, desaparecia. Tudo quase como antigamente nos dias de Natal em casa de meu avô paterno.

E assim foi enquanto as despesas com tal reunião se não tornou incomportável. Depois, acabou! Acabou e descobri nessa altura que não havia ninguém que me substituísse, decidindo fazer nas casas deles o que eu tinha vindo a fazer ao longo dos anos, fosse em que formato fosse, dividindo despesas ou não, reduzindo o número de presenças ou outra coisa qualquer. Assim acabou o meu dia de Reis. Foi bom enquanto durou, mas lamentavelmente, os mais novos, os que já chegaram depois do meu dia ter acabado, não vão poder usufruir da felicidade que era ter tanta gente amiga e bem amada, junta.
Hoje, na nossa sociedade, ninguém se importa com tais reuniões. Só alguns mais velhos e saudosos vão mantendo essa maneira de viver, essas festas de família, que serviam em muito para um crescimento são, dos nossos filhos e sobrinhos. Hoje é cada um para o seu lado, em suas casas, na esperança de que ninguém os chateie, bastando haver uma vez por ano essas reuniões que custam um dinheirão e que normalmente se realizam no Natal.
O meu dia de Reis, era, esse sim, o meu Natal anual, a minha maneira de, de novo, ter a alegria de estar com os meus em sã alegria, e a minha maneira de ensinar aos mais novos o que uma família deve ser. Espero ainda poder, num ano próximo reeditar esse dia maravilhoso, ou convencer alguém a ajudar-me a concretizar esse sonho.