O fogo fátuo do populismo

Enquanto as urgências do Hospital de Gaia rebentam pelas costuras, com os corredores transformados em unidade de internamento e tempos de espera para doentes urgentes na ordem das 7 horas, a Câmara de Gaia decidiu estourar uma fortuna do dinheiro dos contribuintes para assinalar o Dia de Reis, conhecida tradição republicana e laica que o município diz querer “recuperar”. Essa “recuperação” foi feita ontem com um mega-concerto musical ao qual assistiram cerca de 300 pessoas e com um grande espectáculo de fogo de artifício, ao som dos AC/DC – banda de rock australiana conhecida pela sua produção de música sacra -, para uma beira-rio deserta, conforme se pode ver na imagem.

Vila Nova de Gaia, 7 de Janeiro de 2018. Fogo de artifício lançado a partir da Serra do Pilar e da Ponte Luís I para uma Beira-Rio deserta.

Talvez seja este criterioso gasto de recursos públicos e dos impostos dos contribuintes, desbaratando centenas de milhares de euros em festanças natalícias a que ninguém assiste, que toma o nome de populismo. Talvez aqui resida um dos fundamentos do prestígio crescente de que a “classe política” beneficia entre o povo ignaro, a turba “raivosa” – como a adjectiva a deputada Isabel Moreira – sempre pronta a atacar os partidos políticos e a sua sacrossanta legitimidade representativa. Isto enquanto dois quilómetros acima, nas urgências do Hospital de Gaia, faltam lençóis para cobrir os corpos espalhados em macas pelos corredores.

Noite de Reis: “mirra” é uma ordem

…e Gaspar é o seu mensageiro.

Como Se Fora Um Conto – O Natal e o meu dia de Reis

Durante muitos anos, nos meus tempos de ganapo e mais tarde de adolescente, a noite de 5 de Janeiro era uma perfeita e completa chatice.

Meu pai, não dispensava ao jantar, o bacalhau e as batatas e as couves e o polvo cozidos, e o vinho tinto (que eu não podia beber por causa da idade, só a água me era permitida) e o pão e os doces (que eu detestava) e mais nada! Em tudo igualzinho aos jantares do dia 24 e do dia 31 de Dezembro. Chamava-lhes a consoada de Natal, de Fim de Ano e de Reis. O problema era que tal como a consoada do dia 31, esta não tinha as prendas do Menino Jesus no sapatinho, e para além disso e também ao contrário desta e da do dia 24, não era feriado no dia seguinte. [Read more…]

Como Se Fora Um Conto – O Meu Dia de Reis


O MEU DIA DE REIS

Durante muitos anos, nos meus tempos de ganapo e mais tarde de adolescente, a noite de 5 de Janeiro era uma perfeita e completa chatice.

Meu pai, não dispensava ao jantar, o bacalhau e as batatas e as couves e o polvo cozidos, e o vinho tinto (que eu não podia beber por causa da idade, só a água me era permitida) e o pão e os doces (que eu detestava) e mais nada! Em tudo igualzinho aos jantares do dia 24 e do dia 31 de Dezembro. Chamava-lhes a consoada de Natal, de Fim de Ano e de Reis. O problema era que como a consoada do dia 31, não tinha as prendas do Menino Jesus no sapatinho, e ao contrário desta e da do dia 24, não era feriado no dia seguinte.

Era, como disse, uma chatice (termo que na altura se não podia dizer, que era feio, usando-se ao invés a palavra aborrecimento, muito mais suave e que a meu ver não traduzia devidamente a real chatice que tudo aquilo era). Se ainda fossemos espanhóis, que eles ao menos tinham as prendas nos Reis e as nossas já há muito estavam estragadas ou nós cansados de brincar com elas pois que nessa época era só uma prendita para cada um, vi-me eu a dizer uma ou outra vez, sem saber, como é evidente, o que dizia, que isto na altura era complicado com a peseta a valer metade do escudo, e os maus ventos que se dizia que de lá vinham, e os maus casamentos e tudo.
Mais tarde, quando eu e os meus primos começamos a casar e nos fomos dividindo pela casa dos avós e pela casa dos pais e avós dos/as nossos/as consortes, ano sim num lado, ano não no outro, e quase nunca era possível encontramo-nos, decidi reinventar o dia de Reis. Assim consegui reunir nesse dia, em minha casa, toda a família de sempre e mais os que ao longo dos anos se foram juntando por via do casamento ou por nascimento. E era uma enorme e maravilhosa festa anual. No 3º ano, decidi juntar aos familiares, alguns amigos, poucos, que no dia-a-dia se tinham mostrado mais família que família. E a festa aumentou. Chegamos ao lindo número de setenta e cinco pessoas. E a festa engrandeceu, e nesses dias, os arrufos, as desavenças, as chatices, e fosse o que fosse de menos bom, desaparecia. Tudo quase como antigamente nos dias de Natal em casa de meu avô paterno.

E assim foi enquanto as despesas com tal reunião se não tornou incomportável. Depois, acabou! Acabou e descobri nessa altura que não havia ninguém que me substituísse, decidindo fazer nas casas deles o que eu tinha vindo a fazer ao longo dos anos, fosse em que formato fosse, dividindo despesas ou não, reduzindo o número de presenças ou outra coisa qualquer. Assim acabou o meu dia de Reis. Foi bom enquanto durou, mas lamentavelmente, os mais novos, os que já chegaram depois do meu dia ter acabado, não vão poder usufruir da felicidade que era ter tanta gente amiga e bem amada, junta.
Hoje, na nossa sociedade, ninguém se importa com tais reuniões. Só alguns mais velhos e saudosos vão mantendo essa maneira de viver, essas festas de família, que serviam em muito para um crescimento são, dos nossos filhos e sobrinhos. Hoje é cada um para o seu lado, em suas casas, na esperança de que ninguém os chateie, bastando haver uma vez por ano essas reuniões que custam um dinheirão e que normalmente se realizam no Natal.
O meu dia de Reis, era, esse sim, o meu Natal anual, a minha maneira de, de novo, ter a alegria de estar com os meus em sã alegria, e a minha maneira de ensinar aos mais novos o que uma família deve ser. Espero ainda poder, num ano próximo reeditar esse dia maravilhoso, ou convencer alguém a ajudar-me a concretizar esse sonho.