“Este filho da puta…

… , ainda há-de andar a pé como eu”.

Por ocasião de um evento social, acabei por participar num grupo de comensais em que, a dada altura, alguém contou o que outrora, em finais dos anos 70, um seu professor da Faculdade lhe havia dito acerca da diferença de mentalidade entre um inglês e um português: um inglês, à porta da fábrica, vê passar o patrão de Jaguar e comenta para o seu colega “Um dia, o meu filho há-de ter um carro destes”. Pela mesma altura, um português, à porta da fábrica e ao ver chegar o patrão num Mercedes, comenta para o colega “Este filho da puta, ainda há-de andar a pé como eu”.

Lembrei-me deste episódio, quando ouvi hoje no fórum da TSF – sob o tema “Mudanças nas regras do trabalho na Função Pública” -, algumas pessoas a criticar as ditas benesses dos trabalhadores da Função Pública em relação aos trabalhadores do sector privado. E a lógica dominante era a tão costumeira lusitana cultura de nivelar por baixo. Ou seja, não ouvi ninguém a defender que as ditas benesses – que cada um enunciava – deveriam ser para todos. Deixando de ser benesses, para passarem a ser conquistas sociais, numa lógica de equidade.

Pelo contrário, a lógica dominante era que as ditas benesses acabassem. Como se tais perdas dessem alguma melhoria nas suas condições de vida, ou alguma satisfação para além de uma espécie de vingança ou de recalcamento vitorioso.

O poder político, seja ele qual for em matéria ideológica, agradece. Pois é mais fácil governar quem quer o mal dos outros, do que quem quer o melhor para si e para os seus.

As benesses

Chocam-me estas benesses que certos cargos podem proporcionar, em particular cargos pagos pelo erário público. Estes especificamente porque, frequentemente, há decisões que são tomadas que têm impacto no dinheiro dos outros. E já se sabe, se não sai do bolso, não se sente.

Os políticos têm o dever de ter sensibilidade para esta questão e, sendo cargos de nomeação, os cuidados precisam de ser redobrados. Por isso, todos os que aceitaram prendas, que mais não são do que pequenos subornos, que tenham a dignidade de se demitirem. Ou que sejam demitidos, se não tiverem essa elevação.

Não importa se a benesse influencia ou não alguma decisão. Certamente que algumas influenciarão, caso contrário estaríamos perante um exercício de atribuir prémios de simpatia. A política, hoje em dia, é uma profissão, como qualquer outra, até tem formação de quadros e “universidades”, mesmo que durando apenas uns dias no Verão, assim se vê a qualidade dos graduados, portanto, porque é que hão-de ter estes profissionais pagamentos por baixo da mesa? Até porque os políticos, estes mesmos que aceitam prendas daqueles que procuram ganhar concursos, trataram de ilegalizar para as outras profissões, e bem, os esquemas das benesses por baixo da mesa.

Ah!, não me venham tretas partidárias. Não me recordo de um governo que não tenha tido casos desta natureza. Há, isso sim, hipócritas que apontam o dedo, esquecendo os três dedos que ficam a apontar para si mesmos.

Proposta Frugal ao Pançudo Soares

Conspirativo e velho, mas de velhice moral aplicada à política, por que é que Mário Soares, em vez de vir propor um novo Governo, com aquele tesão todo juvenil e manhoso, não propõe que se finem os salários e mordomias vitalícios dos ex-PR?! Um acto finalmente frugal no ocaso da vida seria tão belo como todo um Januário com tento na língua e visão de conjunto. Ou ainda não chega de encher a pança à fartazana pelas décadas das décadas?! Soares, o Grande Cevado da Política Portuguesa, seria amigo se me transferisse uns cinco euros para eu poder comprar uns pães, uma garrafa de vinho tinto e uma dúzia de ovos.