Pensar transmontano

sendim_elisabete_figueiredo_agosto_01_2015
© Elisabete Figueiredo (01/08/2015)

Um homem está sentado à porta com o seu cão. Passo. Digo boa tarde. E pergunto se o rio é longe. Longe? Isso são duas horas para ir e duas horas p’ra vir! Diz ele. Eia. Isso é mesmo longe! Digo eu. E ele: bem… enquanto vai e vem o caminho não está sozinho.
Não fui. Vou antes à estação abandonada.

Cartoline d’Italia (1) (da Firenze) – Un luogo troppo strano*

Elisabete Figueiredo

Cartolina 1A

gostava de dizer que não é estranho. na verdade, talvez não seja. mas parece. vens a um lugar onde estiveste já tantas vezes. onde repetes algumas fotos ou, mesmo, todas. onde falas uma língua que amas tanto (talvez mais) que a tua própria. vens a um lugar que é, fora do teu país, aquele onde estiveste mais vezes. com um calor abrasador. com um frio cortante. com demasiada chuva. com neve como raramente viste. um lugar que te é demasiado familiar. onde já tiveste a ‘tua’ lavandaria, a ‘tua’ trattoria, o ‘teu’ café, as ‘tuas’ casas e, até, o ‘teu’ coração. vens a este lugar e gostavas de dizer que não é estranho… (se leste Vila-Matas, sei que me compreendes bem). [Read more…]

Postcards from Romania (3)

Elisabete Figueiredo

 Entre Bucareste e Brasov

A estação de Bucareste Norte parece-se vagamente com um filme do Kusturica. uma confusão brutal. O intercity entre Bucareste e Budapeste é lento, mas confortável. Escrevo umas coisas no meu caderno novo, lilás. Leio umas páginas de ‘Uma Manhã Perdida’ da escritora romena Gabriela Adamesteanu.

Entramos na Transilvânia e as montanhas cortam-me o folego. Ao longo da janela desfilam carroças redondas, coloridas, lindas, dos ciganos.

Em Brasov a estação parece-se ainda mais com um filme do Kusturica. Mulheres de lenços na cabeça, rodeadas de crianças.

O taxista, desta vez, fala francês e não me rouba no preço. É até muito simpático. Oferece-se para me levar amanhã a Bran por 30 euros. Digo-lhe que quero ir de autocarro. Ele entende que um autocarro cheio de mochileiros não é sítio para uma mulher ‘elegante’ (?) como eu. Rio-me e digo-lhe que nãos e preocupe, que estou habituada a andar de autocarro. Insiste e dá-me um cartão. Digo-lhe que sexta-feira o chamo de certeza para me levar de volta à estação. desfilam carroças redondas, coloridas, lindas, dos ciganos. Em Brasov a estação parece-se ainda mais com um filme do Kusturica. Mulheres de lenços na cabeça rodeadas de crianças. O taxista desta vez fala francês e não me rouba no preço. É até muito simpático. Oferece-se para me levar amanhã a Bran por 30 euros. Digo-lhe que quero ir de autocarro. Ele entende que um autocarro cheio de mochileiros não é sítio para uma mulher ‘elegante’ (?) como eu. Rio-me e digo-lhe que não se preocupe, que estou habituada a andar de autocarro. insiste dá-me um cartão. digo-lhe que sexta-feira o chamo de certeza para me levar de volta à estação.

(Brasov, 7 de Agosto de 2012)

Postcards from Romania (2)

Elisabete Figueiredo

Para a Roménia viajam apenas os romenos

Sou a única portuguesa no avião. Suponho que para a Roménia, de Lisboa, viajem apenas os romenos. Não sei. Em Bucareste, 40 graus às 16h40. Apanho um táxi, depois de perguntar o preço (150 lei) para a estação central. O taxista fala em italiano, assumindo primeiro que eu sou italiana e depois que, não sendo, falo a língua.

Pergunta-me para onde vou de comboio. Brasov, respondo. Insiste que me leva por 700 lei. Respondo-lhe que não. Várias vezes. ‘Voglio andare a Brasov com il treno’ repito. Insiste, uma e outra e ainda outra vez. Repito: ‘voglio andare com il treno, mi piace viaggare sul treno’. Argumenta que o comboio é muito perigoso. Que vou ser assaltada na estação. Que o bilhete de comboio é muito caro. Digo-lhe que não vou nada ser assaltada, pergunto-lhe porque há-de dizer tais coisas sobre o seu país.

Deposita-me, com maus modos, na estação. Em vez de 150 cobra-me 200 lei. Entro na estação. Compro o bilhete. Um puto pede-me dinheiro, dou-lhe 1 leu. Peço ajuda a um casal de romenos sobre a linha do comboio.

Fumo um cigarro. Penso que não fui assaltada. Reconsidero. Fui, em 50 lei, mas pelo taxista.

(Bucareste, 7 de Agosto de 2012)

Postcards from Romania (1)

Elisabete Figueiredo

  A importância de falar italiano menos mal

Depois de muitas horas cheguei ao meu destino. Brasov à noite parece bonito. Ainda bem que falo italiano menos mal.

La revedere.

(Bucareste, 7 de Agosto de 2012)