A reprodução no celibato

celibato        Quando falo de reprodução social, refiro-me à quantidade de recursos, bens e pessoas, que cada grupo social deve reservar para garantir a sua continuidade, bem como o conhecimento com o qual se organiza a relação entre pessoas e coisas e a sua gestão. A reprodução dos homens é um processo ligado aos bens, um sistema complexo, no qual a forma em que os bens são possuídos é parte da conjuntura histórica que define a estrutura em que os homens são feitos. Este facto acaba por explicar, na minha opinião, a coexistência de duas formas reprodutivas dos seres humanos: o casamento e o celibato. Do primeiro provém a filiação vinculada aos bens; do segundo, provêm os filhos sem pai social, tratando-se de uma filiação não vinculativa aos bens e mantida num sistema de parentesco extenso, no qual o apadrinhamento é o laço que define o lugar social de cada um.

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O celibato como sistema reprodutivo de pessoas, bens e saberes em aldeias camponesas

        Este texto é a reconstrução por escrito das minhas palavras sobre a reprodução no IV Congresso de Antropologia de Espanha, realizado em Alicante. Ao trabalhar o argumento que apresentara com base num esboço, outras ideias levaram-me um pouco mais longe em relação à exposição original. De facto, este texto é fruto do estudo que venho desenvolvendo sobre racionalidade, reprodução e estratégia, para o qual me sirvo de dados sobre camponeses europeus, estando, portanto, entrelaçado com o argumento que debato em vários outros textos dispersos pelo mundo. É, por isso, que no final, incluo uma lista deles que, oxalá, pudessem juntar-se a este para sua melhor compreensão. Em qualquer caso, o que pretendo aqui é inspeccionar as ideias e factos que, não sendo das aldeias estudadas, fazem parte da etnografia que um antropólogo europeísta deve consultar e que é possível encontrar na História, na lei positiva e canónica, na religião como na doutrina, Igreja e fiéis, assim como na economia teórica e conjuntural. É este o contexto dos factos da lógica camponesa que, na sua dimensão própria, está registado nas relações sociais e na tecnologia, que são os textos do saber oral e da sua cultura.

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Podem os homens viver sem as mulheres?

 Recentemente ouvi um desabafo que não me saiu mais da cabeça.  Um homem contava, aparentemente sem drama nem cinismo, que, após um divórcio mais ou menos civilizado, havia desistido das mulheres. Ou melhor, desistira de relacionamentos com alguma profundidade.

 

Admitia encontros esporádicos, sem compromisso, desde que estivessem claras e fossem aceites por ambas as partes as condições em que os encontros decorreriam. Em síntese, seriam encontros sexuais com a garantia de que nunca se tornariam em algo mais do que isso. Se elas estivessem dispostas, claro. E aproveitou o embalo para fazer um elogio do celibato, garantindo que agora se sentia mais livre, mais autónomo, capaz de decidir sem amarras e sem cedências à vontade alheia.

 

Lembrei-me de uma velha canção do Tom Waits, “Better off without a wife”, um elogio à amizade entre homens e às vantagens de poder dormir até ao meio dia, sair quando se entende, ir de pescaria ou ficar a uivar à lua sem nunca ter de prestar contas a nenhuma mulher. Tudo isto com a ironia de Waits, ou não tivesse ele acabado por casar não muito depois de ter gravado essa canção. 

 

Para os homens da geração do meu pai, e salvo meritórias excepções, viver sem mulher comportava problemas logísticos de tal ordem que não seria exactamente uma opção. Quem cozinharia, quem trataria da casa, quem se ocuparia dos filhos? Quando, ao fim de décadas, se encontravam sozinhos, por divórcio ou viuvez, deparavam-se com um caos difícil de superar, constatavam a sua inépcia para resolver aquilo que sempre lhes parecera fácil, ou no qual simplesmente nem haviam reparado.

 

Actualmente podemos acreditar, com algum optimismo, que as mulheres já não são vistas unicamente como donas de casa ou mães, as relações entre homens e mulheres já não têm como um dos alicerces essa complementação de papéis: homem ganha-pão, mulher mãe/dona-de-casa, e já se pode ponderar se os relacionamentos, com as exigências que pressupõem, valem a pena. Os jogos de sedução iniciais, as cedências, os almoços com a família dela, os aniversários para recordar, os raspanetes pelas tarefas por cumprir, as exigências permanentes do romantismo, tudo isso desaparece num ápice e fica apenas a agenda telefónica.

 

Haverá quem diga que o que fica, nessas condições, é a solidão, o vazio pela ausência de laços afectivos sólidos com outro ser humano, mas também isso corresponde a um modelo de vida de que nem todos partilham. Este homem de que vos falava no início não se manifestava contra as mulheres, não proferiu nenhuma crítica, nenhum queixume. Tendo experimentado as alegrias e as amarguras do relacionamento conjugal, chegou à conclusão de que estava melhor sem ele.

 

Dizia Waits nessa canção: “sou egoísta no que respeita à minha privacidade, mas enquanto puder estar comigo damo-nos tão bem que eu nem acredito”.

Desculpem tanto tempo às voltas com este tema, mas confesso que, tal como imagino que deva acontecer com outras mulheres, a ideia de que eles possam e queiram viver sem nós parece-me estranhíssima.

 

Mas, tal como aceito que possa existir um clube de fãs do Fernando Rocha, ou vida fora do planeta Terra, também tenho de abrir espaço nas minhas crenças pessoais para essa possibilidade fantástica. A de que haja, entre o género masculino, quem esteja convencido de que não precisa das mulheres.