Dial C for Cristina

Um caso de James Marlowe, Chico Nelo para os inimigos.

O telefone tocou. Suspirei. Um caso, finalmente, o primeiro desde Fátima. Uma voz rouca, sensual, lenta perguntou-me se já tinha almoçado. Respondi, irritado:

– Mãe, já lhe disse que não me ligasse para o emprego!

A voz rouca, sensual insistia na necessidade de que me alimentasse convenientemente, acrescentando que eu não tinha propriamente emprego. Despedi-me o menos educadamente possível, tendo chegado a deitar a língua de fora ao bucal, de modo a que não se ouvisse.

Alguém mais atento poderia notar a inverosimilhança da ausência de um telemóvel, como se fosse possível um detective anacrónico usar objectos crónicos.

O telefone voltou a tocar:

– Mãe, outra vez?!

Claro que não era a minha mãe e não vale a pena insistirem no telemóvel que me permitiria saber quem me estava a ligar.

Do outro lado, estava uma voz tão inconfundível como a da minha mãe, ainda que menos sensual: era aquele que, doravante, por razões de segurança, passaremos a designar pelo nome de código “Presidente da República”.

– Estou a ligar-lhe confidencialmente para lhe pedir que, de modo discreto, me arranje o número de telefone do novo programa da senhora Cristina Ferreira, aquela da SIC. É para um amigo. [Read more…]

Fátima minha

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      Um caso de James Marlowe, Chico Nelo para os inimigos.

O meu nome é James Marlowe, embora toda a gente me chame Chico Nelo, porque fui baptizado Francisco Manuel. As pessoas não percebem que isso me pode retirar credibilidade como detective privado, mas velhos hábitos são difíceis de matar.

Aquele era um dia igual aos outros, talvez um bocado mais quente. O sol estava abrasador e, apesar do meu esforço por passar despercebido, as pessoas riam-se, quando passavam por mim, e algumas chegavam a inventar piadas sobre o facto de caminhar pela rua de gabardina apertada, como se fosse possível ser-se um verdadeiro detective privado de t-shirt e calções.

Quando cheguei ao prédio onde ficava o meu escritório, acendi mais um cigarro, a fim de estar preparado para subir quatro andares pelas escadas. Antes de entrar, olhei para o edifício onde era obrigado a conviver com a pior escumalha à face da terra: havia ali vários escritórios de advogados e duas sedes de partidos políticos. Iniciei a subida, sempre preparado para o pior, sentindo, ainda, um calafrio na espinha, ao lembrar-me de que me tinha cruzado com dois ministros na semana anterior, o que me fez ficar dois dias com vontade de fazer promessas e quebrá-las, porque apanho doenças com muita facilidade. [Read more…]