Dial C for Cristina

Um caso de James Marlowe, Chico Nelo para os inimigos.

O telefone tocou. Suspirei. Um caso, finalmente, o primeiro desde Fátima. Uma voz rouca, sensual, lenta perguntou-me se já tinha almoçado. Respondi, irritado:

– Mãe, já lhe disse que não me ligasse para o emprego!

A voz rouca, sensual insistia na necessidade de que me alimentasse convenientemente, acrescentando que eu não tinha propriamente emprego. Despedi-me o menos educadamente possível, tendo chegado a deitar a língua de fora ao bucal, de modo a que não se ouvisse.

Alguém mais atento poderia notar a inverosimilhança da ausência de um telemóvel, como se fosse possível um detective anacrónico usar objectos crónicos.

O telefone voltou a tocar:

– Mãe, outra vez?!

Claro que não era a minha mãe e não vale a pena insistirem no telemóvel que me permitiria saber quem me estava a ligar.

Do outro lado, estava uma voz tão inconfundível como a da minha mãe, ainda que menos sensual: era aquele que, doravante, por razões de segurança, passaremos a designar pelo nome de código “Presidente da República”.

– Estou a ligar-lhe confidencialmente para lhe pedir que, de modo discreto, me arranje o número de telefone do novo programa da senhora Cristina Ferreira, aquela da SIC. É para um amigo.

Tentei aligeirar a conversa:

– Para um amigo, amigo? Olhe que essa desculpa já é antiga!

O tremor na voz revelou uma ligeira quebra de compostura, que se dissipou nos segundos resultantes de anos de prática a ignorar críticas:

– Não é admissível que possa duvidar da palavra de alguém que até pode ser o Chefe de Estado deste país e que nunca poderia ligar para um programa de televisão em directo, ainda mais tendo em conta que esse mesmo hipotético chefe de Estado até pode ter sido comentador de política desse canal, ter pertencido ao partido do dono do canal e pode, até, ter sido director de um jornal que pertence ao mesmo grupo empresarial. Faça-me, então, o favor de arranjar o que lhe pedi e de modo célere, fingindo que não lhe estou a dar uma ordem.

Recuei mentalmente, pedi desculpa e garanti que o serviço estaria feito dentro de pouco tempo, de modo absolutamente gratuito, porque um detective é necessariamente um patriota. No dia seguinte, pude confirmar que o “amigo” do meu cliente ligou à Cristina. Recostei-me na cadeira: mais um trabalho sujo, mas alguém tinha de ligar.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    “ Até ao final do terceiro parágrafo do seu post, ainda pensei que fosse a Mila Ferreira, a desafiá-lo para uma corrida. Quem sabe o “Cogumelo do Tempo”, o faça rejuvenescer, e com isso consiga chegar aos 75 anos, a lecionar, já no topo da carreira.
    Continuando a ler, já fico confuso.
    Mas afinal, quem é que lhe ligou?
    O Quintino Aires ou o Hernâni de Carvalho? “

    • José Peralta says:

      Caro Rui Naldinho,

      À sua ironia, permita-me que responda… com a minha !

      “Mas afinal, quem é que lhe ligou?
      O Quintino Aires ou o Hernâni de Carvalho? “

      Nem um nem o outro ! Foi…”a Mila Ferreira” (mas, a ligar, vá lá saber-se porquê, do Palácio de Belém !)…

      • Rui Naldinho says:

        Eu já desconfiava que o Marcelo, com aquela energia toda, andava a meter-se no “Cogumelo do Tempo”.
        Depois dá nisto!

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