Fátima minha

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      Um caso de James Marlowe, Chico Nelo para os inimigos.

O meu nome é James Marlowe, embora toda a gente me chame Chico Nelo, porque fui baptizado Francisco Manuel. As pessoas não percebem que isso me pode retirar credibilidade como detective privado, mas velhos hábitos são difíceis de matar.

Aquele era um dia igual aos outros, talvez um bocado mais quente. O sol estava abrasador e, apesar do meu esforço por passar despercebido, as pessoas riam-se, quando passavam por mim, e algumas chegavam a inventar piadas sobre o facto de caminhar pela rua de gabardina apertada, como se fosse possível ser-se um verdadeiro detective privado de t-shirt e calções.

Quando cheguei ao prédio onde ficava o meu escritório, acendi mais um cigarro, a fim de estar preparado para subir quatro andares pelas escadas. Antes de entrar, olhei para o edifício onde era obrigado a conviver com a pior escumalha à face da terra: havia ali vários escritórios de advogados e duas sedes de partidos políticos. Iniciei a subida, sempre preparado para o pior, sentindo, ainda, um calafrio na espinha, ao lembrar-me de que me tinha cruzado com dois ministros na semana anterior, o que me fez ficar dois dias com vontade de fazer promessas e quebrá-las, porque apanho doenças com muita facilidade.

Consegui chegar sem problemas de maior. Ao acercar-me da porta do escritório, percebi que estava entreaberta e ouvi movimento no interior. Tinha de jogar todos os trunfos naquele momento. Entrei de repente e fiquei sem pinga de sangue: uma mulher de formas generosas, com um vestido curto que deixava ver umas pernas bronzeadas, perfeitamente torneadas, estava, curvada para a frente, a acabar de arrumar os papéis que tanto trabalho me tinham dado a espelhar. Não me contive e, atirando com o chapéu, gritei:

– Ó mãe, já não estou farto de lhe dizer que não quero que me venha arrumar o escritório?!

– Já sabes que não vale a pena vires com essa conversa. Sou a tua mãe e nunca deixarei de fazer isto. Ainda por cima, arranjei um parceiro sexual maravilhoso aqui perto e aproveitei.

– A mãe não pode falar dos seus namorados de outra maneira? Não percebe que isso me magoa? O que ia pensar o pai, se a ouvisse falar assim?

– Ó querido, e tu insistes nessa mania! Já te disse que não sei quem é o teu pai.

– Pois, mas ele não ia gostar na mesma.

Maravilhosamente perfumada, puxou-me contra o peito e beijou-me como se me fosse dar vida.

– E, agora, vou indo, porque não me pus assim maravilhosa para te andar a arrumar o escritório. Tchau, querido! Não conto contigo para jantar.

Saiu, deixando para trás um rasto de sensualidade e de desejo e um eco risonho, o que, como já era costume, me deixou melancólico. Fiquei sozinho frente a um escritório tão arrumado que tinha deixado de saber o lugar das coisas. Acendi mais um cigarro, tirei a gabardina, maldisse a minha mãe e, depois de uns segundos de reflexão, empurrei uns papéis para o chão e deitei cinza ao lado do cinzeiro.

Quando estava a preparar-me para me sentar, ouvi a porta a abrir-se e, sem que tivesse tempo para reagir, fiquei com a cara encostada ao chão e os braços atrás das costas, manietados por uma mão firme, ao mesmo tempo que senti um joelho a esmagar-me a coluna. Resolvi que a melhor solução era não reagir, porque, caso contrário, alguém podia magoar-se.

Uma voz grave sussurrou-me ao ouvido:

– Vai entrar aqui uma pessoa para falar consigo. Se é sua intenção continuar a controlar as funções fisiológicas e a capacidade de locomoção, esta conversa vai, decerto, manter-se secreta.

Pensei que não era habitual um gorila exprimir-se com tanta correcção, mas resolvi guardar o comentário para mim, porque tenho muito respeito por todos os símios. Apanhei o cigarro e levantei-me a esfregar as costas, porque é sempre boa ideia mostrar uma aparente fragilidade.

Segundos depois, entrava no meu escritório um homem moreno, com um fato que parecia cheirar a dinheiro. Tirou os óculos escuros e sorriu, mostrando uns dentes branquíssimos que contrastavam com a pele. Quando ouvi a voz levemente nasalada, percebi que não podia contar a ninguém que Paulo Portas tinha acabado de entrar no meu humilde escritório.

– Espero que esteja bem ciente – começou ele – de que não estou aqui. Ficaria muito pesaroso, se fosse obrigado a relembrar-lhe a necessidade de me esquecer.

Sentei-me, compondo o ar mais amnésico que consegui. Pedi-lhe que continuasse.

– Resolvi recorrer aos seus serviços, uma vez que desconfio de que ando a ser traído.

– Traído por quem, senhor min… engenheiro?

O poderoso ministro de Estado respirou fundo, passou a mão direita pela cara e, a custo, numa voz ligeiramente abafada, confessou:

– Parece-me que Nossa Senhora de Fátima anda a conversar com um homem casado que vive em Belém, o que, depois de tudo o que fiz por ela, me parece intolerável. Só quero saber se é sério ou se tudo não passa de um devaneio.

– Depressa ficará a saber, mas prepare-se para o pior. A minha experiência diz-me que as que se armam em santinhas são as piores.

Ainda não tinha chegado à última sílaba e já o gorila bem-falante me tinha agarrado pelo colarinho. Não fosse a tranquila e firme intervenção do ministro e estaria a alimentar-me por uma palhinha. Deixou-me no chão. Ao meu lado, caíram três notas. Ouvi Portas:

– Deve chegar para as primeiras impressões

No dia seguinte, pus-me a caminho de Fátima. Não deveria ser difícil encontrar Nossa Senhora: não podia haver muitas mulheres de manto branco, de coroa e com capacidade para se equilibrar em cima de uma azinheira. Rapidamente percebi que não ia ser fácil, porque o primeiro manto que encontrei foi o do silêncio: mesmo quando me respondiam, notava-se que havia má vontade, quando não hostilidade. Alguns chegaram a dizer-me que andava à procura de problemas.

Resolvi parar para pensar e sentei-me a olhar para o santuário. Passado um momento, um homem sentou-se ao meu lado e, continuando a olhar para o infinito, disse:

– É você que anda a perguntar por uma certa santa? Não olhe para mim.

Qualquer coisa me disse que não deveria olhar para ele. Respondi:

– Sou eu.

– Esteja à dez da noite, à porta da Basílica. Não olhe para mim.

E afastou-se tão furtivo como tinha chegado. Acendi mais um cigarro e continuei a não olhar para ele.

Passei o resto da dia a suar debaixo da gabardina e a beber finos para compensar a desidratação. Quando me levantei, percebi que estava tão hidratado que não conseguia caminhar normalmente. Ainda assim, cheguei ao local combinado. Três vultos já lá estavam e ouvi a mesma voz que já tinha ouvido de tarde:

– Não olhe para nós.

– Calha bem. – respondi – Com a hidratação com que estou e com a escuridão que está bem podia ficar a olhar fixamente que não via nada.

Passado algum tempo, sem me lembrar como, estava dentro de uma casa, amarrado a uma cadeira e com a nítida sensação de que me tinham esmurrado mais do que uma vez, tendo em conta que tinha alguma dificuldade em abrir o olho direito, de tão inchado que estava. Dei por mim a pensar que, na minha vida, havia uma relação demasiado próxima entre dizer uma piada e levar nas trombas e que talvez não fosse má ideia abandonar o humor, em benefício da saúde.

O meu raciocínio foi interrompido por uma luz fortíssima que me foi apontada à cara. Ao fundo, vi uma silhueta de uma mulher coroada, com um longo manto branco. Depois de acender um cigarro e deitar uma baforada, perguntou:

– Queria falar comigo?

– Nunca pensei que Nossa Senhora de Fátima fosse fumadora. – comentei, como se tivesse importância.

– Ando a tentar deixar, mas só Deus sabe como é difícil. Diga ao que vem, que ainda tenho muita promessa para despachar.

Depois de ter feito um curto relatório, Nossa Senhora, apagando o cigarro, tossiu levemente e respondeu, com um riso compassivo:

– Coitado do Paulinho! Tem uma fixação por mim, porque tem problemas em não ser do povo. Então, usa-me, como usa as boinas nas feiras, quando há eleições. Devia ficar chateada com ele, mas não consigo, por causa destes malditos complexos de culpa judaico-cristãos. Aquilo com o senhor de Belém foi só uma noite e foi porque a mulher, a Maria, veio falar comigo, imagine. Que os senhores da troika precisavam de iluminação e que estavam às escuras e o diabo a quatro. Lá fui eu, cheia de boas intenções, e, quando cheguei, era só um fusível queimado: não era de uma santa que precisavam, era de um electricista, mas o senhor de Belém meteu na cabeça que tinha sido um milagre e agora é isto.

Fiquei a pensar que não valia a pena ter apanhado tanta porrada por causa de um fusível, mas a vida é feita de bifurcações e, depois de escolhido o caminho, perde-se muito tempo a voltar atrás. Não percebi a que propósito tinha feito esta reflexão, mas o verdadeiro detective tem sempre de produzir algumas máximas, de preferência amargas.

No dia seguinte, com um saco de gelo encostado ao olho e um cigarro na boca para encher o cenário de fumo, estava no escritório a telefonar ao cliente, para lhe fazer o relatório. Do outro lado, depois de um pequeno murmúrio, senti algum desalento, e ouvi a voz do ministro:

– Essa história está muito mal contada. Não sei se acredito em Fátima.

Comments

  1. nightwishpt says:

    xD

    Parabéns e obrigado pelo texto.


  2. Tiro-te o meu borsalino em sinal de embasbacada reverência. Magnífico.

  3. MAGRIÇO says:

    Dos melhores policiais que já li! 😀

  4. sinaizdefumo says:

    Hilariante.

  5. ferpin says:

    Excelente. Com tudo o que acontece por Portugal, podes escrever um grosso livro com as investigações do chico nelo.
    Desde já prometo estar na apresentação do mesmo numa FNAC do Porto.

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