Passar à História

(adão cruz)

Texto, sempre oportuno, de Marcos Cruz

PASSAR À HISTÓRIA

Há coisas em nós que são extremamente difíceis de trabalhar. Tomamos consciência delas e achamos que, cumprida essa etapa, vai ser fácil repô-las no lugar. É, eventualmente, um efeito perverso dos comprimidos, cada vez mais comuns ao nosso quotidiano, sejam para uso pontual ou crónico: se temos qualquer variação nos níveis considerados normais disto ou daquilo, metemos uma ou várias pastilhas e, em mais ou menos tempo, a regularidade está de volta. Até pode ser que um dia haja comprimidos para a inveja, por exemplo, mas não creio que a raiz de onde ela vem possa ser moldada sinteticamente, que possa ser convertida por um corpo externo. O efeito desses comprimidos será, em princípio, paliativo, no sentido em que, deixado o seu uso, a inveja regressa, a menos que, como acontece nomeadamente com os fármacos antidepressivos, a pessoa aproveite as consequências anímicas da toma para trabalhar, ela mesma, a verdadeira causa da depressão. [Read more…]

O antimalária

Comecei hoje a tomar um comprimido para prevenir os efeitos de um mosquito lixado que vive em certas zonas e que mata milhões de pessoas, especialmente crianças.

Tenho que tomar sete dias antes de viajar, durante todo o tempo que estiver no território e mais sete dias depois de voltar. Isto dá 24 comprimidos que comprei sem participação do Estado o que me levou a desembolsar noventa e um euros e quarenta cêntimos, a que tenho que acrescentar mais uns euros (poucos) do repelente, e um completo arsenal medicamentoso que já tinha comprado por ter viajado ao Brasil e Argentina.

A malária é uma doença em várias vertentes, antes de tudo o mosquito gosta de águas paradas e não tratadas, lixeiras e esgotos a céu aberto. Ora quem vive nestas condições não tem capacidade financeira nem para mandar fechar os esgotos e tratar as águas nem para comprar os comprimidos.

Para vencer o mosquito bastava pois, sanear o território, a doença é endémica, o mosquito morreria com o tempo. Foi com o urbanismo e a medicina pública que se derrotaram doenças que durante séculos mataram milhões de pessoas. As famosas “pestes” que grassavam em Lisboa deviam-se à falta de sanidade pública(sabiam que apesar do génio de Pombal e a sua equipa de engenheiros, os prédios da Baixa Pombalina, não têm uma só sanita de origem?)

Depois, e apesar de haver milhões de pessoas a sofrerem com a malária, só há bem pouco tempo se começou a investigar a sério no combate à doença (ainda nos lembramos todos que o melhor medicamento era o “gin tónico” porque a água tónica tem quinino). Temos em Portugal uma investigadora que já recebeu um prémio muito importante a nível mundial pelas descobertas que fez sobre os malefícios que o parasita faz ao nosso fígado.

Esta conversa toda, bem necessária, por sinal, é tambem porque estou a sentir uma série de efeitos colaterais que vêm na “bula” ( calor, vermelhão na face, zumbidos…) mas espero que logo que o corpo se habitue isto passe.

E se eu aderisse novamente ao “gin tónico” e me deixasse de modernices ainda por cima caras?

Miguel, já compraste os comprimidos? Vendo com desconto…