Sexta-feira 13 dos Professores, mas ainda mais das Escolas e dos alunos

Estou há horas para começar este post, mas os dedos teimaram em não responder.

Hoje, vi as escolas como nunca tinha visto

Depois de um dia fantástico, o de ontem, nas ruas da Lisboa antiga, do Rossio ao Parlamento,eu não merecia um dia assim. Nós, os resistentes, não merecíamos um dia assim!

E nem falo por mim.

Tenho dificuldade em colocar em palavras o que aconteceu.

Há de tudo: diretores que chamam os professores, tipo centro de saúde com o povo todo na sala de espera.

Há quem mande por correio, quem ordene um telefonema. Também há quem recorra ao mail e, é verdade, por SMS:” Caro colega, ao abrigo da Legislação em vigor, venho a informar que não temos componente letiva para si”.

Eu já tinha ouvido falar em despedimentos por mail, agora por sms!!!

Queria conseguir explicar isto aos leitores do Aventar que não são Professores, mas não é fácil – acham normal que professores “efectivos” há mais de vinte anos estejam sem horário para o próximo ano? E aos milhares?!!

São Directores de Turma e Coordenadores, professores do 1ºciclo, do secundário, educadores de infância e professores do básico. São de matemática e de línguas, de expressões e de história. No litoral e no interior…

Não há post algum que possa receber a raiva que se viveu hoje nas escolas públicas portuguesas.

Foi, de facto, uma verdadeira 6ªfeira 13 para a Escola Pública.

E Nós só queremos que nos DEIXEM ser Professores!

Só isso!

Um bramido de raiva

adão cruz

 

 

Senti um frio arrepiante e um buraco negro nas entranhas tão fundo como a silhueta daquele maldito comboio da inglória velocidade rebentando a dor direito à morte que está em pé na berma do cais pela mão de uma criança.

O pai nos braços de um escombro deste mundo sem sol nem lua destino bárbaro e cruel da perda total de mão dada com o filho contra a majestade de um gélido cadafalso de ferro parido pela força de um desumano progresso contra o qual se esmagam os pobres e desamparados que vivem em contra-mão.

Meu menino sonâmbulo de olhos negros e pálida doçura quase luminosa firme terna inocente confiante na verdade desfeita em sangue pela mentira das mãos fatalistas de uma sociedade podre.

Podia ser um menino nascido no berço do lado ao colo de um pai ou de um avô trabalhador-milionário desiludido porque a sua fortuna não havia atingido o limiar do absurdo o que não deixava de ser triste mas a vida filha da puta meu menino pobre nada mais te deu do que um pai sem nada sem prendas sem força nem entreactos que te enxergassem melhor sorte do que a morte.

O monstruoso comboio entra na tua boca a toda a brida o ar louco sai em turbilhão do teu pequenino peito sem eco a vida estilhaça-se em ruidoso estrondo e o teu corpo frágil cai em pedaços sobre os bonecos das tuas meias no pavoroso silêncio dos teus olhitos redondos.

E o mundo continua como se nada tivesse acontecido.

Quando vi que eras tu o menino que estava no curto caminho da morte pela mão de um pai que não dominava a fome e não tinha dinheiro para te comprar uma bola um pai que não sorria nem cantava para ti porque a alma se perdeu na praça do medo com o sol congelado na boca senti um bramido de raiva e uma louca vontade de pedir contas a Deus.

 

O maluco lúcido

O maluco lúcido

Hoje de manhã, enquanto passeava a minha netinha, um homenzinho gritava a plenos pulmões, fazendo-se ouvir em toda a rua: o cavaco e o primeiro-ministro arruinaram este país e o povo continua burro. Na verdade, ele não dizia arruinaram, dizia foderam, eu é que procurei fugir à asneirola.

 A raiva com que ele clamava, alto e bom som, não passava despercebida a alguns transeuntes que assentiam levemente com a cabeça, se calhar também com a mesma vontade de gritar uma tão grande verdade, não fora o facto de serem tidos como malucos.

Eu era um deles.

De facto, depois do que fizeram deste pobre país, depois de se terem rodeado de uma legião de ladrões e corruptos, e terem estourado com tudo, depois de permitirem e abrirem caminho ao assalto e ao roubo da nação, deixando-a nas lonas materiais, psicológicas e sociais, depois de devorarem o país, têm a lata preparar eleições para exumar o cadáver, como abutres, a ver se ainda há restos para comer.

 E o povo sereno!

Como me apetecia ir para a rua, passar por maluco durante meia hora, e berrar bem alto: o cavaco e o primeiro-ministro deram cabo deste país. Apenas por uma questão de linguagem mais limpa não diria foderam.

Passar à História

(adão cruz)

Texto, sempre oportuno, de Marcos Cruz

PASSAR À HISTÓRIA

Há coisas em nós que são extremamente difíceis de trabalhar. Tomamos consciência delas e achamos que, cumprida essa etapa, vai ser fácil repô-las no lugar. É, eventualmente, um efeito perverso dos comprimidos, cada vez mais comuns ao nosso quotidiano, sejam para uso pontual ou crónico: se temos qualquer variação nos níveis considerados normais disto ou daquilo, metemos uma ou várias pastilhas e, em mais ou menos tempo, a regularidade está de volta. Até pode ser que um dia haja comprimidos para a inveja, por exemplo, mas não creio que a raiz de onde ela vem possa ser moldada sinteticamente, que possa ser convertida por um corpo externo. O efeito desses comprimidos será, em princípio, paliativo, no sentido em que, deixado o seu uso, a inveja regressa, a menos que, como acontece nomeadamente com os fármacos antidepressivos, a pessoa aproveite as consequências anímicas da toma para trabalhar, ela mesma, a verdadeira causa da depressão. [Read more…]