Sopa de Letras – Os cafés do Porto

Os cafés do Porto pela escrita do Poeta Daniel Filipe (1925-1964), no livro Discurso Sobre a Cidade (compilação de crónicas escritas em 1956 e 1957 editada em 1977 pela Presença).

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Sopa de Letras - Os cafés do Porto
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25 Poemas de Abril (VI)

Como lobos de súbito
irrompem na planície citadina
carregados de morte

Seu nome é violência
Trazem nas mãos mortíferos sinais
e de órbitas vazias

caminham em silêncio
envoltos na terrível solidão
do crime encomendado [Read more…]

A máquina do tempo: Os encontros da imprensa cultural

 

Momento em que no II Encontro se guardava um minuto de silêncio em memória de Daniel Filipe.

 

Fui colaborador dos suplementos culturais do Diário Popular, do Diário de Lisboa, do Jornal de Notícias e de páginas e suplementos de numerosos jornais de província, entre outros, do Jornal de Évora, A Planície (Moura), O Templário (Tomar), A Nossa Terra (Cascais), Notícias de Guimarães, Jornal da Costa do Sol (Cascais), Almonda (Torres Novas), etc. No entanto, a minha experiência mais marcante em termos de imprensa cultural, foi a da revista Setentrião, em Vila Real, e a do suplemento Labareda de «O Templário», de Tomar. Colaborar na imprensa regional era um trabalho de militância cívica a que muitos escritores e jornalistas não se furtaram.

 

 Às vezes, sem que se esperasse, um trabalho publicado nessas humildes folhas ganhava uma grande divulgação. Lembro-me de uma entrevista que fiz para a Labareda, em Janeiro de 1964, a Fernando Lopes Graça (na qual, embora o maestro tenha desconversado comigo todo o tempo, o resultado foi interessante). Com alguns foros de sensação, foi abundantemente transcrita na imprensa diária, em resumos ou na íntegra, em quase todos os jornais, e mencionada em revistas de referência. Até o Diário de Luanda a publicou. Entre outras afirmações desassombradas, Lopes-Graça considerava os agrupamentos folclóricos, criados por António Ferro, o Goebbels português,  tão do gosto do regime, como «meras contrafacções» da cultura popular genuína.

 

 

 

Em 1963, alguns colaboradores dessa imprensa regional, lançaram a ideia de se realizar um encontro anual das páginas culturais. Para quem não se lembre ou não tenha vivido esse tempo, recordo que os suplementos culturais desempenhavam um papel importantíssimo na resistência de uma cultura autónoma, não controlada pelo regime. Naturalmente que eram submetidas à Comissão de Censura que, muitas vezes, cortava tudo ou quase tudo.

 

Entre os escritores que impulsionaram esse movimento recordo os de Manuel Ferreira, Mário Braga, António Augusto Menano, Manuel Simões, António Sales, Vasco Granja, António Cabral, Arsénio Mota, José dos Santos Marques, Bento Vintém, Joaquim Canais Rocha, Aurora Santos, Fernando Grade, Silva Ferreira, Santos Simões, José Ferraz Diogo, Alfredo Canana, Jorge Moita e tantos outros.

 

Lembro, como paradigma dos suplementos, o que se publicou durante muitos anos no «Diário de Lisboa». O suplemento do Lisboa, ágil, lesto na crítica, rico no elenco de colaboradores, era um modelo para todos os que criavam estas extensões culturais na imprensa regional. Os principais suplementos culturais, que saíam semanalmente (quase todos às quintas-feiras), constituíam um acontecimento.

 

Ali se criticavam os livros, as emissões de televisão e de rádio, as peças de teatro, os filmes. Os melhores jornalistas, críticos, professores, escritores, colaboravam. Nada que se compare com o que agora se faz. Um exemplo: o suplemento de sexta-feira do Público, a «Ípsilon», graficamente luxuosa quando comparada com os modestos suplementos da época, é uma coisada intragável, superficial, comercialóide, que agora já deito fora sem ler, numa papeleira que está à porta do estabelecimento onde compro o jornal.  Não me estou a lembrar de nenhum suplemento que mereça a pena ler, hoje em dia. Talvez o tempo dessa forma de fazer cultura tenha passado.

 

Por estas amostras bastardas, meros recipientes de publicidade de editoras de livros, de discos e de outros produtos, não se avalia o que eram, nesses anos que antecederam o advento do regime democrático, os suplementos culturais. Eram um pouco, como os blogues de hoje, uma forma de, pessoas que não tinham acesso às tribunas de imprensa, rádio ou televisão e de alguns «colunistas desempregados», para usar a curiosa expressão de Clara Ferreira Alves, se exprimirem. Alguns desses párias, desempregados ou nunca antes empregados, era gente silenciada pelo poder político e que encontrava nos jornais de província um porto de abrigo para as suas vozes.

 

A designação inicial dessas assembleias era Encontros de Suplementos e Páginas Culturais da Imprensa Regional. A designação foi depois simplificada para Encontros da Imprensa Cultural, dado que os jornais diários começaram também a enviar representantes. O primeiro destes encontros realizou-se na Figueira da Foz em 28 e 29 de Setembro de 1963.

 

Estiveram presentes, entre outros, os escritores Daniel Filipe e Alfredo Margarido. Na ordem de trabalhos, salientava-se o carácter essencialmente cultural dos suplementos e páginas culturais (vacina contra a suspeição das autoridades), referindo-se as dificuldades intelectuais de colaboração. Aliás, a comunicação a esse primeiro encontro da Labareda, suplemento de que eu era activo colaborador, exortava os intelectuais a abandonarem a sua torre de marfim e escrever para um público diversificado de estudantes e de trabalhadores, abandonando a linguagem pseudo-elevada em que habitualmente se exprimiam.

 

Apontava-se também a necessidade de criar alguma coordenação entre os diferentes suplementos e páginas, ao nível do intercâmbio de textos e apontava-se a conveniência de criar um prémio literário anual. Entre as diversas conclusões e medidas, destaca-se a criação de diversas comissões específicas, a instituição de prémios anuais (tendo-se elaborado os respectivos regulamentos) e, por sugestão de Vasco Granja, a marcação do II Encontro para a vila de Cascais.

 

 

O II Encontro realizou-se, em Junho de 1964, conforme ficara determinado, em Cascais, organizado pelo jornal «A Nossa Terra» daquela vila.  Em representação da Sociedade Portuguesa de Escritores, presidiu Manuel Ferreira que na abertura da primeira sessão de trabalhos se congratulou por se assinalar a presença de representantes de todos os suplementos activos do país, registando-se um avanço relativamente ao encontro da Figueira. Antes de se entrar na discussão da ordem de trabalhos, Santos Simões, do «Notícias de Guimarães» pediu um minuto de silêncio em memória de Daniel Filipe. Estava também presente o escritor catalão Fèlix Cucurull. Foi criado, por d
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isão tomada nesta reunião, o boletim «Encontro» de que apenas saíram dois números. Em Fevereiro de 1965 todos os arquivos e material gráfico da publicação foram apreendidos pela PIDE e preso o seu coordenador.

 

O III Encontro realizado em Guimarães, no Hotel das Caldas das Taipas,  em Agosto de 1965, sob a presidência do escritor Ferreira de Castro.1966. Na foto, vemos o momento em que intervinha Santos Simões, do «Notícias de Guimarães», anfitrião do Encontro.

 

Não existe uma informação pormenorizada sobre a evolução deste movimento. Ainda estive presente no IV Encontro, realizado em 1967 no Casino da Figueira da Foz, presidido, salvo erro, pelo escritor Mário Braga. Em 1968 passei uma importante parte do ano preso em Caxias, mas deve ter sido realizado o V Encontro. Em Fevereiro de 1969, em Guimarães, presidido por Mário Sacramento, houve o VI e creio que último Encontro de Imprensa Regional. Muito do que estou a dizer é dito de memória, não encontro registos credíveis e se alguém tiver elementos que aqui faltam ou puder corrigir falhas ou imprecisões por mim cometidas, ficarei grato. Porque era importante fazer a história deste movimento que, reunindo gente de pequenas cidades, fora dos dois grandes centros urbanos do País, conseguiu criar bastiões, redutos, onde se defendia a cultura das investidas da estúpida fera fascista.

 

Mas creio que depois não se realizaram mais encontros. A partir de 1969, a luta política agudizou-se, as pessoas que animavam os encontros iam sendo presas ou estavam absorvidas por essa luta que passara do papel para as assembleias de empresa, de faculdade, para os quartéis… Os passos cadenciados que abrem a «Grândola Vila Morena» ecoavam já no nosso horizonte. Dentro em pouco, os capitães do MFA começavam a reunir. Uma nova realidade se avizinhava e nela já não cabiam as modestas folhas dos jornais de província.

 

 

O III Encontro foi realizado em Guimarães, no Hotel das Caldas das Taipas,  em Agosto de 1965, sob a presidência do escritor Ferreira de Castro.1966. Na foto, vemos o momento em que intervinha Santos Simões, do «Notícias de Guimarães».

Clube dos Poetas Imortais: Daniel Filipe (1925-1964)

Ouvimos o belo poema de Daniel Filipe, «A Invenção do Amor», muito bem dito por João Manuel Alves e seguido por uma canção de Pedro Abrunhosa inspirada no poema. Daniel Filipe é um poeta, nascido em Cabo Verde, mas que faz parte da história da Literatura Portuguesa do século XX – no entanto, não vamos com isso criar um problema com os nossos irmãos cabo-verdianos – digamos que ele pertence aos dois países – a Cabo Verde porque lá nasceu, a Portugal porque aqui viveu, sofreu, amou e escreveu a sua poesia maravilhosa.

 

Além dos livros que nos deixou, foi um activista cultural e político. No final da década de 50, trabalhou na delegação do Porto do jornal lisboeta Diário Ilustrado. Cordial, amistoso, grande contador de histórias, depressa se relacionou com um grupo de escritores antifascistas como ele – Egito Gonçalves, Papiniano Carlos, Luís Veiga Leitão e outros. Com este grupo ajudou a criar as «Notícias do Bloqueio», título de um poema de Egito Gonçalves e de uma série de nove «fascículos de poesia», publicados no Porto entre 1957 e 1961. A PIDE prendeu-o porque animação cultural para aquela gente significava «agitação social» (talvez não o tenham prendido só pela sua actividade cultural; mas também). Foi, segundo consta, barbaramente torturado. Morreu em Lisboa com 39 anos.

Não tive o prazer de o conhecer. Vi-o uma vez ou duas, disseram-me – «Olha, é o Daniel Filipe, o da “Invenção do Amor”», mas nunca falámos. Fora um dos organizadores dos Encontros da Imprensa Cultural, ou melhor, organizou o primeiro, no qual não estive. Participei no segundo em Cascais, em Julho de 1964, quando ele acabara de falecer. Na foto que encerra o texto  documenta-se o momento em que nesse II Encontro, se guardava um minuto de silêncio em memória de Daniel Filipe, fundador daquele movimento e grande poeta.

 

Daniel Filipe, nasceu em 1925 na ilha da Boavista, em Cabo Verde, e faleceu em Lisboa no ano de 1964. Jornalista e funcionário da Agência-Geral do Ultramar. Dirigiu o programa «Voz do Império» na Emissora Nacional. Foi preso pela PIDE, sendo submetido a tortura. Entre a sua obra destaca-se: «O Viageiro Solitário» (1951), «A Invenção do Amor» (1961) e «Pátria Lugar de Exílio» (1963), colectânea de que seleccionei um fragmento da 3ª Canção:

            Pátria, lugar de exílio

            geométrico afã

            ou venenoso idílio

            na serena manhã.

 

            Pátria, mas terra agreste;

            terra, apesar da morte.

            Pátria sem medo a leste.

            Lugar de exílio a norte.

 

            Pátria terra, lugar,

            cemitério adiado

            com vista para o mar

            e um tempo equivocado.

 

            Terra, débil lamento

            na temerosa noite.

            Sobre os carrascos, vento,

            Desfere o teu açoite!

 

No II Encontro da Imprensa Cultural, realizado em Cascais em Julho de 1964, guarda-se um minuto de silêncio em memória de Daniel Filipe. Este encontro foi presidido por Manuel Ferreira, ao centro. O escritor catalão Fèlix Cucurull é o sétimo, da esquerda para a direita.

 

Clube dos Poetas Imortais: Eugénio Tavares (1867-1930)

 

 

 

Alguém já chamou a Eugénio Tavares o Camões de Cabo Verde. Na verdade, a ele se deve a consciência que, a partir de finais do século XIX, os cabo-verdianos foram tomando da existência de uma cultura genuinamente sua. Eugénio Tavares foi um poeta, sim, mas também um agente consciencializador da cabo-verdianidade, actuando no palco político, jornalístico, lutando contra as injustiças de que o seu povo era vítima. Sofrendo as inevitáveis perseguições por parte do poder colonial, foi obrigado a exilar-se. Descendente de europeus, foi dos primeiros a proclamar que as gentes do arquipélago tinham direito a uma cultura diferenciada a uma expressão idiomática distinta, a uma identidade própria.

Pouco conhecido em Portugal ou conhecido sob a forma redutora de «criador de mornas», Eugénio Tavares foi um apreciável escritor, um jornalista e polemista de grande valor.  No ano em que o Prémio Camões, o mais alto galardão literário do mundo lusófono, foi atribuído ao poeta cabo-verdiano Arménio Vieira (1941) e em que a literatura do arquipélago se afirma como uma das mais pujantes do universo lusófono, com nomes como o do romancista Germano Almeida, sem esquecer o grande Daniel Filipe, e o de Arménio Vieira, faz todo o sentido lembrar e homenagear Eugénio Tavares, pioneiro das letras de Cabo Verde.

 

 

Eugénio Tavares, nasceu na ilha Brava a 18 de Outubro de 1867, onde faleceu em Junho de 1930. Autodidacta, adquiriu grande cultura, transformando-se na figura literária e jornalística mais importante de Cabo Verde nas primeiras três décadas do século XX. Com apenas quinze anos, publicou os seus primeiros poemas no «Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiras», deixando uma vasta produção, em português e em crioulo – poemas, narrativas, peças de teatro e, sobretudo, artigos jornalísticos. Quando exilado nos Estados Unidos, fundou o jornal «Alvorada» em New Bedford. Com colaboração intensa na «Revista de Cabo Verde» e no jornal «A Voz de Cabo Verde», foi postumamente publicado um volume com as suas «Mornas». Da sua produção poética escolhi um poema em português, pois neste «Clube» só entram poetas lusófonos – é um poema do exílio:

Exilado

Pensa no que há de mais sombrio e triste;

terás, destes meus dias vaga imagem;

soturnos céus – como tu nunca viste –

nunca os doirou o halo de uma miragem.

O sol – um sol que só de nome existe –

envolto na algidez e na brumagem

dum frio como tu nunca sentiste,

do nosso sol parece a morta imagem

imerge o retransido pensamento

nas noites mais escuras, mais glaciais,

prenhes de raios e vendavais;

verás que anos de dor, esse momento

passado, na saudade e no penar,

longe do sol vital do teu olhar!

(Fairhaven, 1900)