Braga, o Medo e o Respeitinho

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A AUTO-CENSURA é mais tenebrosa que o MEDO?*
(o tema é mesmo supermercados)

Um grupo de cidadãos reúne-se em Braga (“a terceira cidade de Portugal“) para discutir a implementação em curso de (mais) um supermercado numa zona consolidada da cidade.
A dar eco deste debate sobre urbanismo e qualidade de vida na cidade está presente a Rádio Universitária do Minhowww.rum.pt

Na cidade, publicam-se os dois únicos jornais diários de todo o Minho, o Diário do Minho – de assumida inspiração católica, – e o Correio do Minho – assumidamente inspirado por quem quer que queira pagar.
Na terceira cidade de Portugal, nenhum dos dois jornais diários aqui publicados optou por dedicar um único parágrafo a um debate sobre urbanismo (mau urbanismo, na minha opinião).
Será porque a autarquia, convidada, declinou o convite para se fazer representar?
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Precisamos de jornais?

Precisamos? – Precisamos!
Ou precisamos apenas dos comunicados e das fotos (ao molho) que a autarquia graciosamente faz chegar às redacções? Braga, “cidade autêntica”, como agora se diz por cá, nesta matéria não é diferente de outras cidades.
Corações ao alto e as minhas preces vão para a imprensa regional.
Que descanse em paz entre os esplendores do facebook perpétuo e amen.

O papel das regiões, as regiões em papel

Os blogues são filhos do papel. Muitas vezes, filhos do papel de jornal. Mesmo sabendo que as relações entre pais e filhos sofreram mutações, continua a ser de bom-tom ter uma palavra simpática sobre os progenitores e ajudá-los sempre que possível.

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A Trofa, os jornalistas e a imprensa regional

Foi ontem, numa terra onde eu nunca tinha estado, que senti o quanto valeu a pena. Decorria em Vila Nova de Famalicão  o [primeiro] Encontro de Imprensa Regional e lá fui, à procura dos pares, saber como páram as modas a norte – onde os jornais são mais antigos, são muitos e ainda empregam muita gente. Tinham passado apenas umas horas desde que o Sindicato dos Jornalistas emitiu um comunicado a propósito do (inenarrável, mas real) caso da apresentação pública na Trofa, a semana passada, de que tive conhecimento por aqui mesmo, num post do João Mendes. [Read more…]

O jornal já está fechado

Paula Sofia Luz*

Faz hoje oito dias. Enquanto a greve dos jornalistas da agência Lusa dominava as conversas na rede, uma cidade portuguesa assistia à morte anunciada do seu (último) jornal. Na quinta-feira, 18 de Outubro, a notícia começou a circular na rua: O Correio de Pombal deixou de se publicar, sem aviso prévio. Não chegou às bancas como era costume, não seguiu pelo correio para casa dos assinantes. O título que José Pimpão dos Santos fez (re)nascer na primavera de 1990 – pois tratava-se de uma reedição de um título com quase 200 anos – deixou de sair para a rua, num dia triste para Pombal, para a imprensa, para o que resta da democracia.

Eram conhecidas as dificuldades (financeiras, editoriais e sobretudo morais) em que o jornal se afundou nos últimos tempos, mesmo quando ficou sozinho num mercado que em tempos dividiu com dois e três títulos. Por isso, deixar de se publicar foi tão só o golpe de misericórdia. A morte do jornal não foi notícia em lado nenhum, à excepção de escritos na blogosfera e no Facebook. E no entanto a ferida continua aberta para os trabalhadores que restavam – e que continuam a apresentar-se todos os dias no local de trabalho. E para os milhares de leitores que o alimentaram por mais de 22 anos, e que de repente estão desnorteados. Os leitores sem notícias, os notários e advogados sem suporte para os anúncios judiciais, os emigrantes que agora não sabem quem morreu na semana passada. [Read more…]

Para modernizar a imprensa regional

O jornal mensal e regional  O Sul,de Setubal,   que me convidou para o dirigir, é um projecto que ja vinha sendo discutido entre nós, ou seja, na cooperativa Prima Folia, a que não pertenço, mas  que é a detentora do titulo   .  Contudo, passar à pratica esse projecto   não é fácil,particularmente, em tempos de crise  geral, e da imprensa em particular.
Nos EUA grandes jornais estão a fechar ,ou a reduzir as suas edições, ou a transformar-se em jornais on line,  e, mesmo assim ,nem sempre com sucesso. Até o NYT…
Pois  é nessa  nessa linha  que desejo  desenvolver  algumas considerações .Naturalmente, vou referir-me ao comércio electrónico, o e-comerce, o “business  to business”  a mundialização, e também ao glocal , que nos interessa neste caso,por sermos  imprensa regional    .
Estou portanto, a  sugerir que aproveitemos as novas tecnologias  que dispomos hoje -que estão  para além do capitalismo de mercado,tal como este tambem já substituiu o mercantilismo-para os nossos projectos  locais .
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A máquina do tempo: Os encontros da imprensa cultural

 

Momento em que no II Encontro se guardava um minuto de silêncio em memória de Daniel Filipe.

 

Fui colaborador dos suplementos culturais do Diário Popular, do Diário de Lisboa, do Jornal de Notícias e de páginas e suplementos de numerosos jornais de província, entre outros, do Jornal de Évora, A Planície (Moura), O Templário (Tomar), A Nossa Terra (Cascais), Notícias de Guimarães, Jornal da Costa do Sol (Cascais), Almonda (Torres Novas), etc. No entanto, a minha experiência mais marcante em termos de imprensa cultural, foi a da revista Setentrião, em Vila Real, e a do suplemento Labareda de «O Templário», de Tomar. Colaborar na imprensa regional era um trabalho de militância cívica a que muitos escritores e jornalistas não se furtaram.

 

 Às vezes, sem que se esperasse, um trabalho publicado nessas humildes folhas ganhava uma grande divulgação. Lembro-me de uma entrevista que fiz para a Labareda, em Janeiro de 1964, a Fernando Lopes Graça (na qual, embora o maestro tenha desconversado comigo todo o tempo, o resultado foi interessante). Com alguns foros de sensação, foi abundantemente transcrita na imprensa diária, em resumos ou na íntegra, em quase todos os jornais, e mencionada em revistas de referência. Até o Diário de Luanda a publicou. Entre outras afirmações desassombradas, Lopes-Graça considerava os agrupamentos folclóricos, criados por António Ferro, o Goebbels português,  tão do gosto do regime, como «meras contrafacções» da cultura popular genuína.

 

 

 

Em 1963, alguns colaboradores dessa imprensa regional, lançaram a ideia de se realizar um encontro anual das páginas culturais. Para quem não se lembre ou não tenha vivido esse tempo, recordo que os suplementos culturais desempenhavam um papel importantíssimo na resistência de uma cultura autónoma, não controlada pelo regime. Naturalmente que eram submetidas à Comissão de Censura que, muitas vezes, cortava tudo ou quase tudo.

 

Entre os escritores que impulsionaram esse movimento recordo os de Manuel Ferreira, Mário Braga, António Augusto Menano, Manuel Simões, António Sales, Vasco Granja, António Cabral, Arsénio Mota, José dos Santos Marques, Bento Vintém, Joaquim Canais Rocha, Aurora Santos, Fernando Grade, Silva Ferreira, Santos Simões, José Ferraz Diogo, Alfredo Canana, Jorge Moita e tantos outros.

 

Lembro, como paradigma dos suplementos, o que se publicou durante muitos anos no «Diário de Lisboa». O suplemento do Lisboa, ágil, lesto na crítica, rico no elenco de colaboradores, era um modelo para todos os que criavam estas extensões culturais na imprensa regional. Os principais suplementos culturais, que saíam semanalmente (quase todos às quintas-feiras), constituíam um acontecimento.

 

Ali se criticavam os livros, as emissões de televisão e de rádio, as peças de teatro, os filmes. Os melhores jornalistas, críticos, professores, escritores, colaboravam. Nada que se compare com o que agora se faz. Um exemplo: o suplemento de sexta-feira do Público, a «Ípsilon», graficamente luxuosa quando comparada com os modestos suplementos da época, é uma coisada intragável, superficial, comercialóide, que agora já deito fora sem ler, numa papeleira que está à porta do estabelecimento onde compro o jornal.  Não me estou a lembrar de nenhum suplemento que mereça a pena ler, hoje em dia. Talvez o tempo dessa forma de fazer cultura tenha passado.

 

Por estas amostras bastardas, meros recipientes de publicidade de editoras de livros, de discos e de outros produtos, não se avalia o que eram, nesses anos que antecederam o advento do regime democrático, os suplementos culturais. Eram um pouco, como os blogues de hoje, uma forma de, pessoas que não tinham acesso às tribunas de imprensa, rádio ou televisão e de alguns «colunistas desempregados», para usar a curiosa expressão de Clara Ferreira Alves, se exprimirem. Alguns desses párias, desempregados ou nunca antes empregados, era gente silenciada pelo poder político e que encontrava nos jornais de província um porto de abrigo para as suas vozes.

 

A designação inicial dessas assembleias era Encontros de Suplementos e Páginas Culturais da Imprensa Regional. A designação foi depois simplificada para Encontros da Imprensa Cultural, dado que os jornais diários começaram também a enviar representantes. O primeiro destes encontros realizou-se na Figueira da Foz em 28 e 29 de Setembro de 1963.

 

Estiveram presentes, entre outros, os escritores Daniel Filipe e Alfredo Margarido. Na ordem de trabalhos, salientava-se o carácter essencialmente cultural dos suplementos e páginas culturais (vacina contra a suspeição das autoridades), referindo-se as dificuldades intelectuais de colaboração. Aliás, a comunicação a esse primeiro encontro da Labareda, suplemento de que eu era activo colaborador, exortava os intelectuais a abandonarem a sua torre de marfim e escrever para um público diversificado de estudantes e de trabalhadores, abandonando a linguagem pseudo-elevada em que habitualmente se exprimiam.

 

Apontava-se também a necessidade de criar alguma coordenação entre os diferentes suplementos e páginas, ao nível do intercâmbio de textos e apontava-se a conveniência de criar um prémio literário anual. Entre as diversas conclusões e medidas, destaca-se a criação de diversas comissões específicas, a instituição de prémios anuais (tendo-se elaborado os respectivos regulamentos) e, por sugestão de Vasco Granja, a marcação do II Encontro para a vila de Cascais.

 

 

O II Encontro realizou-se, em Junho de 1964, conforme ficara determinado, em Cascais, organizado pelo jornal «A Nossa Terra» daquela vila.  Em representação da Sociedade Portuguesa de Escritores, presidiu Manuel Ferreira que na abertura da primeira sessão de trabalhos se congratulou por se assinalar a presença de representantes de todos os suplementos activos do país, registando-se um avanço relativamente ao encontro da Figueira. Antes de se entrar na discussão da ordem de trabalhos, Santos Simões, do «Notícias de Guimarães» pediu um minuto de silêncio em memória de Daniel Filipe. Estava também presente o escritor catalão Fèlix Cucurull. Foi criado, por d
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isão tomada nesta reunião, o boletim «Encontro» de que apenas saíram dois números. Em Fevereiro de 1965 todos os arquivos e material gráfico da publicação foram apreendidos pela PIDE e preso o seu coordenador.

 

O III Encontro realizado em Guimarães, no Hotel das Caldas das Taipas,  em Agosto de 1965, sob a presidência do escritor Ferreira de Castro.1966. Na foto, vemos o momento em que intervinha Santos Simões, do «Notícias de Guimarães», anfitrião do Encontro.

 

Não existe uma informação pormenorizada sobre a evolução deste movimento. Ainda estive presente no IV Encontro, realizado em 1967 no Casino da Figueira da Foz, presidido, salvo erro, pelo escritor Mário Braga. Em 1968 passei uma importante parte do ano preso em Caxias, mas deve ter sido realizado o V Encontro. Em Fevereiro de 1969, em Guimarães, presidido por Mário Sacramento, houve o VI e creio que último Encontro de Imprensa Regional. Muito do que estou a dizer é dito de memória, não encontro registos credíveis e se alguém tiver elementos que aqui faltam ou puder corrigir falhas ou imprecisões por mim cometidas, ficarei grato. Porque era importante fazer a história deste movimento que, reunindo gente de pequenas cidades, fora dos dois grandes centros urbanos do País, conseguiu criar bastiões, redutos, onde se defendia a cultura das investidas da estúpida fera fascista.

 

Mas creio que depois não se realizaram mais encontros. A partir de 1969, a luta política agudizou-se, as pessoas que animavam os encontros iam sendo presas ou estavam absorvidas por essa luta que passara do papel para as assembleias de empresa, de faculdade, para os quartéis… Os passos cadenciados que abrem a «Grândola Vila Morena» ecoavam já no nosso horizonte. Dentro em pouco, os capitães do MFA começavam a reunir. Uma nova realidade se avizinhava e nela já não cabiam as modestas folhas dos jornais de província.

 

 

O III Encontro foi realizado em Guimarães, no Hotel das Caldas das Taipas,  em Agosto de 1965, sob a presidência do escritor Ferreira de Castro.1966. Na foto, vemos o momento em que intervinha Santos Simões, do «Notícias de Guimarães».