O regresso de Diogo Leite Campos

Depois da publicação deste vídeo no Aventar o vice-presidente do PSD desapareceu das televisões (favor que generosamente fiz ao PSD, e não é para cobrar: sou um mãos largas).

Agora, depois do anúncio de um aumento de treta no IRS dos mais ricos leio nos blogues da direita herdeira dos garotos de Chicago que ganhar 5000 euros não é ser rico, blasfema-se e arma-se um 31 por causa do dito cujo.

Este aumentozito é mera manobra de marketing: taxar os ricos só seria eficaz taxando o património, coisa que não se faz com a desculpa de ser muito difícil (mas não impossível: até o Medina Carreira inventou um truque para o fazer, embora agora se mostre arrependido) e em ambos os casos com a ameaça da fuga de capitais (o que não é verdade: quase todos os nossos ricos sacam e sempre sacaram do estado, e não encontram outro estado à mão de semear onde governantes e empresas se misturem com a facilidade lusitana).

Volta Leite Campos, estás perdoado.

Diogo Leite Campos a mamar do estado

O ex-professor catedrático da Universidade de Coimbra vai auferir uma pensão de 3240,93 euros, valor que soma à reforma que já recebe do Banco de Portugal, de onde se aposentou como administrador em Fevereiro de 2000. O fiscalista exerceu aquele cargo entre os anos de 1994 e 2000. CM

Mesmo reformado Leite Campos é sócio da Leite de Campos, Soutelinho & Associados – Sociedade de Advogados, RL, que em 2010 facturou à conta do estado pelo menos 17000€ em pareceres. Recentemente abandonou a PLMJ:  “Quase a atingir os 65 anos, Diogo Leite de Campos tem que reformar-se e deixar de prestar serviços para a sociedade”, explicava o DE.

“PSD não sobe impostos em 2011”: onde é que eu já ouvi isto?

Esta entrevista de Diogo Leite Campos, vice-presidente do PSD, constitui um documento importante, que merecerá ser analisado até às eleições e escrutinado depois delas, porque as palavras ficam, por muito que os políticos desejem que voem e se dissolvam no ar.

O conteúdo das respostas do social-democrata é de tal modo consensual que o entrevistador chega a provocá-lo: “Jerónimo de Sousa, o secretário-geral do PCP, iria gostar de o ouvir agora.” Efectivamente, há nesta entrevista um grande peso concedido à intervenção do Estado na resolução de muitos problemas como, por exemplo, o do direito à habitação, consagrado na Constituição. Para além disso, há uma referência à necessidade de apoiar as famílias mais necessitadas e, também aqui, há um dado surpreendente: Diogo Leite Campos refere-se “a todas as famílias que ganhem até 2500 euros.”, o que vai ao arrepio da tendência recente para considerar milionário qualquer um que ganhasse mais que o ordenado mínimo.

É claro que, ao longo dos últimos trinta anos, temos assistido demasiadas vezes à rábula do partido que chega ao governo e descobre que o executivo anterior tinha deixado as contas públicas tão mal que, afinal, não é possível manter as promessas feitas durante a campanha. Foi assim com a comédia do “país de tanga” de Durão Barroso e assim foi com a ópera bufa do “afinal o défice era maior” de José Sócrates. É certo que Diogo Leite Campos declara, antes das eleições, que “O PSD sabe que vai substituir o pior governo da história de Portugal. O PSD sabe que vai ter muitas surpresas quando chegar ao poder, mas nunca invocará isso porque sabe que vai tomar conta do país num estado desastroso.”

Gostava muito de estar enganado, mas qualquer coisa me diz que, lá para Agosto ou Setembro, estaremos a ouvir um Passos Coelho compungido, justificando mais medidas de austeridade, dizendo qualquer coisa como “Afinal, o país estava muito pior do que pensávamos. A culpa não é nossa.” E a verdade é que a culpa não será deles. Será nossa.