“PSD não sobe impostos em 2011”: onde é que eu já ouvi isto?

Esta entrevista de Diogo Leite Campos, vice-presidente do PSD, constitui um documento importante, que merecerá ser analisado até às eleições e escrutinado depois delas, porque as palavras ficam, por muito que os políticos desejem que voem e se dissolvam no ar.

O conteúdo das respostas do social-democrata é de tal modo consensual que o entrevistador chega a provocá-lo: “Jerónimo de Sousa, o secretário-geral do PCP, iria gostar de o ouvir agora.” Efectivamente, há nesta entrevista um grande peso concedido à intervenção do Estado na resolução de muitos problemas como, por exemplo, o do direito à habitação, consagrado na Constituição. Para além disso, há uma referência à necessidade de apoiar as famílias mais necessitadas e, também aqui, há um dado surpreendente: Diogo Leite Campos refere-se “a todas as famílias que ganhem até 2500 euros.”, o que vai ao arrepio da tendência recente para considerar milionário qualquer um que ganhasse mais que o ordenado mínimo.

É claro que, ao longo dos últimos trinta anos, temos assistido demasiadas vezes à rábula do partido que chega ao governo e descobre que o executivo anterior tinha deixado as contas públicas tão mal que, afinal, não é possível manter as promessas feitas durante a campanha. Foi assim com a comédia do “país de tanga” de Durão Barroso e assim foi com a ópera bufa do “afinal o défice era maior” de José Sócrates. É certo que Diogo Leite Campos declara, antes das eleições, que “O PSD sabe que vai substituir o pior governo da história de Portugal. O PSD sabe que vai ter muitas surpresas quando chegar ao poder, mas nunca invocará isso porque sabe que vai tomar conta do país num estado desastroso.”

Gostava muito de estar enganado, mas qualquer coisa me diz que, lá para Agosto ou Setembro, estaremos a ouvir um Passos Coelho compungido, justificando mais medidas de austeridade, dizendo qualquer coisa como “Afinal, o país estava muito pior do que pensávamos. A culpa não é nossa.” E a verdade é que a culpa não será deles. Será nossa.

Comments

  1. Alex says:

    Sr Antonio Nabais
    Como diz o povo, gato escaldado…
    Concordo com as suas preocupações e duvidas sobre esta entrevista. Agora é preciso que o orçamento de 2011 seja cumprido cortando por exemplo nas parcerias Publico Privadas, nas fundações, nos institutos nas obras faraónicas… situações estas que não foram executadas pelo governo, só o aumento dos impostos e corte dos ordenados é que foram implementados. Se o PSD ganhar as eleições e encontrarem as tais surpresas, então deverá criar-se por exemplo, um taxa de IVA a 25% para os artigos de Luxo a ser implementada a partir de 2012, isto segundo notícias de colegas do Dr. Diogo Leite Campos que li à pouco tempo. Se o chumbo do PEC IV foi pela pretensão do governo em criar mais aumentos de impostos em 2011…


  2. Mais impostos só vai provocar mais fraude e evasão fiscal. O caminho deve ser do lado da despesa. A começar por um tecto salarial na função pública. Por exemplo ninguém recebia mais de 2000 euros até a crise passar…

  3. Péricles says:

    em Outubro de 2005 Teixeira dos Santos jurava a pés juntos que no orçamento de Estado para 2006 então em discução na Assembleia da República só estava previsto aumentar o IRS nas pensões superiores a 3 200 euros mensais, aprovado o orçamente verificou-se que todas as pensões sujeitas a IRS ( superiores a 680 euros) viram o referido imposto aumentado, vem isto a propósito para referir que há muita maneira de matar moscas, neste caso Teixeira dos Santos não disse que a taxa subia de x para Y, bastou diminuir o abatimento à colecta para que todas as pensões vissem o IRS aumentado, aliás isso mesmo era proposto novamente no famoso PEC 4 que se tivesse sido aprovado aumentaria o IRS a todas as pensões superiores a 500 euros, muitas delas passariam a pagar o dobro do IRS, mas como é sabido isso passou ao lado dos jornalistas, dos comentadores, mas está lá, é so consultar o capitulo VI do PEC 4.

Trackbacks


  1. […] me enganei, quando escrevi, aqui, o que passo a […]


  2. […] “PSD não sobe impostos em 2011″: onde é que eu já ouvi isto? […]

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.