Fernando Gomes, a eterna mocidade que disse à gente o que é ser nobre e leal

O futebol português perdeu hoje uma das suas grandes figuras, dono de uma característica cada vez mais rara e caída em desuso na modalidade: Fernando Gomes era, entre muitas outras coisas, um homem decente.

Para quem, como eu, nasceu nos anos 80, o Bibota era uma espécie de divindade omnipresente, que entrava em todas as histórias do passado recente do nosso Porto, que ouvíamos aos nossos pais, avós e aos amigos deles. Por ser um avançado fora de série, fundamental na afirmação nacional e internacional do FC Porto, integrando o restrito lote de bibotas europeus, mas também pelo cavalheiro, pelo homem de princípios e exemplo de integridade que foi fora das quatro linhas.

Houve um tempo em que achei que o veria um dia como sucessor de Pinto da Costa, mas há muito que a doença tinha chegado para contrariar e enterrar as minhas expectativas. O nosso Bibota perdeu essa partida, contra um adversário implacável, mas morre de pé, como morrem os vencedores, porque é ele a expressão maior dessa eterna mocidade, que diz à gente o que é ser nobre e leal.

Descansa em paz, capitão Bibota 💙💙

Eunice e a eternidade

Ninguem é eterno, mas existem aqueles que conquistam a eternidade depois da morte. Eunice Munoz, uma mulher extraordinária, conquistou-a em vida. E não foi o seu maior feito. Que descanse em paz.

Per saecula saeculorum

A pergunta apanhou-me de surpresa:

Sabes de alguém que queira vender um jazigo?

Nascida numa família de campas rasas, um jazigo soou-me sempre a luxo das elites,  vagamente oitocentista, um garante per saecula saeculorum de que não haveria misturas inapropriadas no além tangível das ossadas.

Entendo que se possa buscar conforto na ideia de manter unidos os membros de uma família, enfrentar a morte acompanhado por quem se amou em vida, mas é precisa uma grande dose de pensamento mágico para que esse conforto seja real. E, claro, há o horror à decomposição na terra, mas são assuntos em que se pensa às quatro da manhã, depois de um pesadelo, e se esquece pela alvorada.

Portanto, eu não sabia de jazigos à venda nem estava interessada em sabê-lo, mas a minha amiga estava e não foi preciso muita insistência para que eu acabasse a fazer-lhe companhia num encontro com um vendedor. O meu papel era fazer perguntas inteligentes, tarefa em que manifestamente falhei, e avaliar se o negócio valia a pena, competência para a qual nunca manifestei grande talento, mas é sempre comovedor ver como os amigos acreditam em nós. [Read more…]