France: douze points

A história é simples, a de um bebé chamado Mercy que nasce numa embarcação de refugiados a caminho da Europa. Depois troca-se por ali as voltas ao significado de Mercy em inglês e de Merci em francês. A música é bem esgalhada e com potencial para irritar os governos húngaro, polaco, britânico e todo o refugo xenófobo de Le Pen a Beppe Grillo. Só por isso, mereceria logo à cabeça douze points. Entre as minhas favoritas estão também a da Irlanda e da Albânia.

As várias mensagens políticas da Eurovisão ao longo das décadas são muito bem abordadas num documentário do canal ARTE, intitulado “Eurovisions” (não disponível), onde se refere a canção de Paulo Carvalho que serviu de senha do 25 de Abril, as vitórias de Dana International e Conchita Würst ou a canção anti-Putin de Verka Serduchka.

Pode-se pensar o que se quiser deste que é o espetáculo televisivo mais popular da Europa, mas comparado com o conservadorismo do Super Bowl americano onde uma simples maminha causou escândalo nacional, prefiro a Eurovisão onde as avozinhas e as netas dão a vitória a um grupo de Heavy Metal finlandês, a um travesti israelita ou a uma mulher de barba austríaca.

Uma bela canção com selo de vitória

Militaõ por eſta opiniaõ infinitos exemplos. Porque de Alexandre eſcreveu Diodoro, que tangendo Timoteo ſeu Cantor, o incitava a tomar as armas; & com o meſmo inſtrumento, mas com outras clauſulas, o fazia logo entrar em ſocego. Terpander Lesbio com a ſua muſica pos em paz as ſedições dos Lecedemonios, como o refere Plutarco, & ſegundo Boecio.

Dom Francisco Manoel de Mello

 

 

A “geoestratégia” da Eurovisão


Claro que o “music-hall” Eurovision Song Contest é “coisa inferior e própria de países subdesenvolvidos”. Não tendo qualquer interesse ou substância, apenas os supra-pacóvios moradores de distantes tugúrios como a Suécia, a Alemanha, Noruega, Dinamarca, Holanda e alguns países do leste lhe poderão dar alguma atenção. Por mero e ardiloso acaso, são precisamente os países onde existe uma educação musical ministrada nas escolas, coisa por cá desaparecida há uns quarenta anos. Enfim, deixando desde logo este tranquilizador ponto de descanso da consciência dos nossos intelectuais do lacrimoso neo-realismo doutoral, vamos ao que interessa.
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Filhos de uma grandessíssima luta

O portuguesinho anda sempre muito preocupado em ser bem-comportado quando se devia revoltar, ao mesmo tempo que vive obcecado por quebrar regras sem importância em nome de direitos irrelevantes, o que o leva a não respeitar filas ou a deitar lixo para chão.

Os “Homens da Luta” conseguem o milagre de herdar o espírito de revolta que nasceu com o 25 de Abril, atacando o comodismo burguês, e, pelo caminho, ridicularizam a própria imagem dos que cultivam o espírito de revolta e cultivam, na clandestinidade, o mesmo comodismo burguês. Para usar uma expressão associada ao Jel, com os “Homens da Luta” vai tudo abaixo.

É verdade que, hoje, em Dusseldorf, não vão representar Portugal. Para o fazerem teriam de tentar imitar o pior que se faz na Europa, só porque é o que se faz na Europa. Pelo contrário, os “Homens da Luta” continuam, pelo menos, a abanar o país do respeitinho, o país que vive preocupado com o que vão pensar de nós, o país que, para ser o bom aluno, chegou a um ponto em que é muito menos país do que era.

Para o ano, espero que sejam os “Ena Pá 2000” a ganhar o Festival. Luta que os pariu a todos!