A “geoestratégia” da Eurovisão


Claro que o “music-hall” Eurovision Song Contest é “coisa inferior e própria de países subdesenvolvidos”. Não tendo qualquer interesse ou substância, apenas os supra-pacóvios moradores de distantes tugúrios como a Suécia, a Alemanha, Noruega, Dinamarca, Holanda e alguns países do leste lhe poderão dar alguma atenção. Por mero e ardiloso acaso, são precisamente os países onde existe uma educação musical ministrada nas escolas, coisa por cá desaparecida há uns quarenta anos. Enfim, deixando desde logo este tranquilizador ponto de descanso da consciência dos nossos intelectuais do lacrimoso neo-realismo doutoral, vamos ao que interessa.
Bem podem os portugueses encontrar uma linda rapariga que cante bem. Bem fazem em esforçar-se por enviar canções com letras que transmitam algo para além dos lá-lá-lás, yeah! e boom-boom-boom que ontem escutámos. Pode a RTP até colocar os dois filhos de Toni Carreira nus em palco e mesmo assim não vai a sítio algum. Esmifre-se a RTP em utilizar bandeiras de Património Mundial, pois isso de nada serve. Temos apenas um vizinho e mesmo esse, bastas vezes como é seu costume noutras matérias mais importantes, faz de conta não existirmos. Se Vasco da Gama “nunca existiu”, who cares about Simone, Cid, Doce and so on?
Nos tempos em que este concurso fazia parte de uma certa ideia da Europa do pós-guerra – roupa da Carnaby Street, CEE, NATO e Eurovisão -, já verificávamos certos favoritismos “just because”, traduzindo-se estes nas trocas de 10 e 12 pontos entres os escandinavos e entre os irmãos separados gregos e cipriotas, por exemplo. Cada um cantava na sua língua, embora o conjunto geral sempre tivesse algo de internacional e ditado pela moda de cada ano. Com o definitivo rasgar da Cortina de Ferro, instalou-se o inglês como obrigação de palmatoada, vieram candidatos ao decadentismo musical pequeno burguês do Ocidente e surpresa das surpresas, com vontade de tornarem o certame como coisa própria. Mais ainda, conseguiram os russos, ucranianos, baltas e nórdicos, arrastar os alemães para as praças onde aos magotes de milhar assistem à coisa como se uma final de um Euro do futebol se tratasse. Como é possível aquela gente que ainda há vinte e cinco anos vivia num mundo sem tecnologia de consumo, sem ié-ié ou disco sound, atrever-se a estas exibições que fazem inveja a Las Vegas? A resposta é fácil: tradição, escola e cultura musical, coisas perfeitamente caducas e dispensáveis neste nosso mundo de sabichões choramingas à beira Atlântico.
Há vinte anos, croatas, sérvios, bósnios e macedónios matavam-se uns aos outros sem dó ou piedade, mas hoje em dia é verificarmos o desvelo, o suspense quase em espírito de renascimento do Império Austro-Húngaro semi-titista que os locutores tentam dar à transmissão dos tais almejados doze pontos que no caso de croatas, eslovenos ou macedónios vão infalivelmente para a TV de Belgrado. O vice-versa aplica-se e isto seis vezes repetidas. Idem idem, aspas aspas em relação ao império dos czares e de Estaline. Nagorno-Karaback, Tchechénia-Ingúchia, contorcionismos georgianos, luta pela frota do Mar Negro, má-língua pelo gasoduto, rota do petróleo e pela Crimeia? Qual quê…se até o caudilho de Minsk se dá ao luxo de ser ele o autocrático e presidencial seleccionador de quem vai representar a TV daquele país?
Os tradicionais vencedores volatilizaram-se dos primeiros lugares, muitos deles já nem sequer conseguindo passar a cavilosa pré-selecção que no mesmo lote coloca quatro ou cinco países ex-jugoslavos e na outra uns cinco da antiga Rússia imperial. Assim é fácil e longe vão os tempos das Sandie Show, Severine, Vicky Leandros, Cliff Richard, Abba, Celine Dion e por aí fora. Enfim, acabaram-se as divas por uma noite. Apenas a Suécia conseguiu ontem escapar ao massacre ocidental e se estiveram com um mínimo de atenção, decerto terão reparado de onde vinha aquela “votaria” toda: sendo a cantora de origem marroquina e a canção de uma menos que suburbana vulgaridade mais que absoluta, arrebanhou 12 pontos em todos os países onde existem fortes comunidades muçulmanas. Bem podem os imãs arrancar as barbas e invocar o Profeta, pois a rapariga parece ser exactamente o oposto daquilo que no Ocidente se considera ser uma “mulher islâmica”. E ainda bem que assim foi, apesar do flagrante abuso fruadulento em que consiste o voto “just because”.

Mas não nos ralemos com isso. O video que aqui deixamos não envergonha seja quem for. Uma espectacular rapariga cantando uma música composta por um nome retintamente eslavo que parece conhecer-nos demasiadamente bem. Nem um saltão, saltimbanco ou trupe de palhaços a enquadrarem a cena de encher o olho. Uma letra que nos trás às ruas da Lisboa de todos os dias, um som que identifica Portugal – e um acordeão de Buenos Aires – ao fim de alguns segundos e ainda por cima cantado naquela insignificante língua de 250 milhões. E assim deverá continuar a ser.

Comments


  1. Pois


  2. Para os ouvidos dum europeu formatado na cultura musical acentuadamente anglo-saxónica (servindo esta de cadinho para as mais diversas influencias… ), a “bela” música tuga deve soar a uma ladainha étnica de origem mediterrânica com pinceladas árabes… Nós, os portugueses temos tanto orgulho na nossa “cultura” que nos atrevemos a entrar na batalha da Eurovisão com o despudor de lhe ignorar as regras básicas. Trata-se de apurar a “melhor” entre músicas “pop” que partilham a mesma sintonia… Sonoridade internacional, abrangente, perceptível por povos das mais diferentes latitudes europeias. Como temos a “mania” de ser “especiais” acabamos por nos tornar “freaks” e os outros mandam-nos aquela parte… Não é só na música…. Ou seja, fazemos boas músicas para nós próprios (e disso não sobressaem dúvidas…). Mas não é isso que se pede!… Os alemãs e outros cantam em inglês para agradar – uma vez que é um dos requisitos -, nós mandamos um faduncho tecno-melodramático…

    • Nuno Castelo-Branco says:

      Nem sempre, há uns anos mandámos a “tuga” Senhora do Mar que foi muitíssimo bem recebida e cantada em português. Se o LuísF está tão certo do que afirma, o que dizer então da formidável prestação albanesa de ontem à noite, sem dúvida de uma excelência que tornava quase todas as outras ridículas? Simplesmente merecia a vitória. Os italianos também trouxeram algo ao bom estilo cine-Marilyn Monroe e desgraçadamente prescindiram da maravilhosa língua do seu próprio país?
      Mas que “regras básicas” são essas se a nossa melhor classificação pertenceu a Lúcia Moniz com uma canção difícil, a roçar o nosso folclore?
      Não, na questão da língua não pode haver qualquer tipo de cedência. Os portugueses, os espanhóis – até a Roménia ontem cantou em castelhano – e a França não podem ceder. Os alemães e os outros que façam o que bem entenderem, pois de qualquer forma, fora da Europa não existe um único país que com eles partilhe o idioma.
      Não, nada de cedências.


  3. Todas as “regras” tem excepção… Mas compreendo-o. Muita gente pensa da mesma maneira… Era a esses que o meu “veneno” se dirigia… 😉
    Mas não dramatizemos… Nós os tugas dramatizamos em excesso as coisas simples e até triviais…. Cantar numa outra língua que não a própria, não rebaixa, não ofende, não é crime. Até porque existem países com mais do que uma língua, e até bem diferentes, como sabe… Portanto qual é o problema de cantar em inglês? Está a vender-se a pátria?

  4. Fernando says:

    Concordo com o artigo do Nuno C Branco. Acho estranho como e’ que Portugal que esta a braços com uma tremenda crise e a fome alastra, mas tem dinheiro para alimentar estas fantochadas que de musica tem pouco. Mas que da direito a umas passeatas.
    A língua de Camões não tem qualquer peso no exterior por mais que possam atulhar-nos os tímpanos. E não me venham para cá com os 180 ou 200 milhões de falantes de Camões.
    No estrangeiro e’ de longe mais conhecido um jogador de futebol de primeira linha, do que o Camões que ate os pombos cagam em cima dele….
    O Brasil e’ um caso aparte. Por alguma razão se encontra em vários sites o português de Portugal e o do Brasil. Why?
    Quando dou o meu nome no Pais onde vivo a pergunta sagrada e’ ” are you from South America?”

  5. Zuruspa says:

    “Os tradicionais vencedores volatilizaram-se dos primeiros lugares, muitos deles já nem sequer conseguindo passar a cavilosa pré-selecção”… mas isso também pode ser explicado simplesmente pela porcaria que têm mandado! 😀

    O apelo do Eurofestival nos países nórdicos vem de muito longe e tem mais a ver com outras coisas que näo a música. É toda uma indústria. E nos países de Leste, é por ser (ainda) novidade. Se fosse pela boa formaçäo musical as cançonetas que mandariam seriam melhores que aquela mixórdia pop-pastilha eslástica em mau inglês que säo 90% dos casos.

    A melhor cançäo foi sem dúvida a da Sérvia, como de resto sempre acontece quando o Zeljko está involvido.
    Desta vez ganhou a da Suécia… ai foi por ser marroquina… ou por ser uma imitaçäo de Lady Gaga? Eu estava na sala ao lado e só ouvia gritos. Mas o povo gosta, né?

    Deixemo-nos de coisas, o Eurofestival é o que é, favoritismos sempre existiram, os países ricos só notam agora porque näo ganham (e daí, Alemanha e Suécia…). E se os jugoslavos votam entre si é normal, os mesmos artistas correm os Balcäs todos o ano inteiro e toda a gente da Eslovénia à Bulgária os conhece. Perguntem “Quem é Toshe?” por exemplo (e já morreu há uns 5 anos). Enquanto isso, quem em Espanha sabe quem é o Quim Barreiros?

    Portugal deve mandar mais “Senhoras do Mar” e näo tentar jogar num terreno onde näo consegue competir–o da musiqueta pop pum catrapum com grandes coreografias. Näo ganhamos na mesma mas pelo menos näo temos de ter vergonha do que mandámos. E daí, até o recöndito Azerbeijäo já ganhou, e com uma cançäo decente. Enquanto isso o Zeljko bem se esforça mas mesmo com o tal suposto e terrível “lobby jugoslavo” a votar-lhe, näo consegue nunca ganhar. VIDAS!

  6. Zuruspa says:

    Para que conste, näo vi aquela estucha. Aliás, näo a vejo desde há uns 10 anos. Näo há pachorra!!! Meus ricos ouvidos (e olhos)!!!
    Desta vez estive a ver um (bom) filme, e nos intervalos ia “zapando”, que a Maria pedia (e um bónus foram as maravilhosas pernocas da grega!). No fim do filme ela ficou a ver o resto, e eu só vi o resumo de 10 segundos por cançäo, e sinceramente bastou para ter uma ideia do que era bom e mau. Posteriormente confirmei a minha impressäo ao ver na Net a cançäo da Sérvia.

  7. sergio says:

    andamos cheios de dinheiro para gastar nestas coisas… música lenta, tristonha, guarda roupa ultrapassado, coro de 5 pessoas que foram passear

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