Lembrar um mestre

Por estes dias tenho pensado muito em George Steiner. A morte dele, há precisamente um ano, fez antever um 2020 que nada trazia de bom.

Steiner é uma das presenças intelectuais mais assíduas na minha vida. Não há semana que passe sem que eu leia qualquer coisa que ele escreveu ou disse. A longa entrevista ao programa Beauty and Consolation, os artigos no New Yorker, excertos das Dez Razões para a Tristeza do pensamento estão nos favoritos do meu computador, na pastazinha onde escrevo passagens que me marcam. Antes do confinamento, comprei alegremente as quatro entrevistas a George Steiner feitas por Ramin Jahanbegloo e publicadas pela VS.

Acusado frequentemente de snobismo – uma questão que das várias que ele suscita é a menos interessante – Steiner entendia algo de muito importante sobre o trabalho intelectual: ele é suposto ser díficil. A literatura, por exemplo, é um constante diálogo entre diversas formas de pensamento, entre várias personagens e enredos e formas narrativas, e só a leitura incansável nos pode transmitir a plenitude de determinado livro ou história (estória).

Li vários artigos extraordinários sobre Steiner depois da sua morte. Mas o mais notável, pela sua compreensão da obra e do homem, foi o de Diogo Vaz Pinto no Jornal I em Dezembro de 2020:

Dotado de uma abrangência incomparável, move-se com uma elegância e uma desenvoltura que nos absorvem, com aquela capacidade de aceder à realidade como se a atraísse a um ínvio argumento, ressaltando algum padrão inusitado, aspectos finos e que traduzem uma qualidade mítica numa razão de outro modo insuportável. Deste modo, ensina-nos a perdoar à vida, e até à condição humana “o facto de ser a coisa indiferente e pontual que é”. Steiner diz-nos que as artes da compreensão (hermenêutica) são tão variadas quanto os seus objectos, e que “não há nada de mais exasperante na condição humana que o facto de nós podermos significar e/ou dizer seja o que for”.

 

O coração

Ontem escrevi sobre o umbigo como a mais bela e simbólica cicatriz do nosso corpo.

Hoje apetece-me dedicar umas palavras ao orgão central, o orgão da vida por excelência.

Vai Aonde Te Leva o Coração, escreveu Susanna Tamaro em 1994 (“desconfie de tudo excepto daquilo que o coração lhe disser”);

Saber algo de cor (do coração), como o Paulo Gonzo sabe de cor cada traço do rosto e do olhar dela, como um pianista toca de cor uma obra ao fim de tantas horas a estudar, repetindo;

Sobre isto de aprender de cor, George Steiner escreveu inúmeras vezes, como em No Castelo do Barba Azul: “Aprendia-se em grande medida de cor (do coração) – termo que se adequa magnificamente à presença íntima, orgânica, da palavra e do sentido no espírito individual. A decadência catastrófica da memorização no ensino contemporâneo e na bagagem do adulto (…)”.

Depois há as diversas expressões: «não tens coração»; «coração de oiro»; «coração de passarinho»; «falar com o coração»; «aperto no coração»; etc.

Você deve conhecer muitas! Queira acrescentar!

Obrigada.

Livro, leitura e liberdade

No Dia do Livro, é difícil fugir de escrever algo sobre o assunto…

Tiro da prateleira O Silêncio dos Livros de George Steiner, um pequeno ensaio escrito em 2005. Transcrevo algumas ideias para recordar e me fazer pensar:

“A maior parte das pessoas não lê livros. Porém, canta e dança.

O acto de ler livros, (…) pressupõe um determinado conjunto de circunstâncias.

Um dos requisitos fundamentais é, também, o silêncio. 

E, acima de tudo, é preciso ter tempo para ler. (…)

(…) quase meio século de vida consagrado à contínua leitura e releitura (…) e continuo assombrado (…)

(…) do milagre sempre renovado de segurar nas mãos um novo livro.” [Read more…]

George Steiner em Viseu

 

Ora aqui está um título improvável. Mas assim será, por ocasião das 5as. Conferências Internacionais de Filosofia e Epistemologia, organizadas pelo Instituto Piaget de Viseu, nos dias 23, 24 e 25 de Novembro.

A conferência de Steiner – “Can We Still Speak of a Human Condition? Some Brief Remarks” –  será no dia 23, na Aula Magna.

O programa e a lista de conferencistas estão disponíveis aqui