Os dias do fim – 13 de Fevereiro de 1910


Teixeira de Sousa

É a edição de Domingo do «JN», maior e mais ilustrada do que o costume. Dois «cartoons» marcam a primeira página. Num deles, dois pobres conversam enquanto vasculham o lixo. «Um papel assinado?» – pergunta um. «Isso deve ser um programa político» – responde o outro. No segundo cartoon, um homem sentado à mesa: «Como tudo muda! Antigamente os bifes… eram maiores.»
Ainda na capa, é publicado um extenso «dossier» intitulado «A Onda Vermelha» – o grande aumento da criminalidade que se está a verificar em Portugal.
No noticiário político, o Conselheiro Teixeira de Sousa vai assistir a uma reunião do Partido Regenerador em Cascais. Segundo se diz, no último Conselho de Ministros houve graves desavenças por causa de uma comissão ilegal que foi concedida ao general Baracho.
O rei recebeu ontem Francisco Pires Bordalo, Melchior Guedes e Manuel Luis Lima Perfeito de Magalhães, representantes da Associação Comercial de Lamego, e ainda Henrique Taviera, presidente da Associação Industrial Portugesa. Os presentes ofereceram ao monarca uma caixa para tabaco feita de uma só peça de madeira de cerejeira, com ornamentação em ouro. O objectivo da comitiva era pedir ao monarca o prolongamento da Linha da Régua até Lamego.
Faltam 235 dias para a instauração da República.

Os dias do fim – 12 de Fevereiro de 1910

É Sábado. Na política nacional, Francisco Beirão não parece disposto a continuar à frente do Governo depois do falhanço das negociações relativas à reforma da lei eleitoral. Diz a boataria que lhe sucederá um Governo liderado por Júio de Vilhena.
Saiu a público o primeiro número da revista «Alma Nacional», dirigida pelo republicano António José de Almeida.
Morreu ontem o Conde de Tattenbach, que esteve em Portugal durante alguns anos como ambaixador da Alemanha. Ainda do estrangeiro, um sacerdote foi envenenado em Roma enquanto rezava a missa. Em Paris, começou a ser representada a peça Chantecler, no Teatro de Port Saint-Martin.
Faltam 236 dias para a instauração da República.

Os dias do fim – 11 de Fevereiro de 1910

 
Com o fim do Carnaval, a actualidade política regressou ao topo da actualidade. O «Jornal de Notócias» fala da reforma eleitoral e das audições aos Partidos que estão a ser promovidas pelo chefe do Governo, o progressista Francisco Beirão. Não se sabe muito bem em que consistirá essa reforma, embora se fale na criação de pequenos círculos de 2 a 6 deputados, na existência de voto obrigatório e voto por procuração para os entrevados e ausentes, «excepto o gato do sr. José Luciano de Castro, que esse vota por acumulação».
Entretanto, os partidos da Oposição queixam-se da perseguição que lhes está a ser movida pelo ministro da Fazenda. Francisco Beirão bem prometeu que não haveria retaliações, mas «teve de largar do bico o raminho de oliveira ou engoli-lo, transformando ao mesmo tempo a bandeira branca em lençol para envolver o corpo dos adversários que vão descendo à cova.»
Reuniu-se ontem a Câmara do Porto, sob a liderança do presidente Cândido de Pinho. Foram debatidos os melhoramentos na cidade, em especial o porto de Leixões e do Douro. Em Coimbra, foi preso o democrata Francisco da Fonseca, por ter em casa duas carabinas novas e algumas caixas de munições. Em Braga, vai ser organizado um «bodo aos pobres» por iniciativa do conde de Agrolongo.
Do noticiário internacional, saliente-se a tomada de posse do novo Governo de Espanha, chefiado por José Cavalejas. Em Paris, anda à solta um estripador que já fez dezenas de vítimas. Em Tribunal, uma mulher, Roselia Bosch, foi condenada À morte por ter morto uma rapariga.
Faltam 237 dias para a instauração da República.

Os dias do fim – 10 de Fevereiro de 1910


Terminado o Carnaval, é tempo de regressar à normalidade. «Findou o período de loucura e de disfarce, anualmente permitido, para que se julgue haver juizo e verdade durante o resto do ano», diz o correspondente de Lisboa do «Jornal de Notícias».
Em Braga, foram grandiosos os festejos carnavalescos promovidos pelo Clube dos Invencíveis. No Porto, foi a enterrar o alquilador José Galiza.
O noticiário internacional está marcado pelas grandes cheias de Paris – as águas chegaram a atingir 6 metros de altura. Há milhares de mortos. Neste momento, felizmente, as águas do Sena já começaram a descer. No Brasil, o navio «Minas Gerais» vai à Virgínia buscar os restos mortais do seu embaixador em Washington Joaquim Nabuco. Como principal momento da sua carreira, a luta contra a escravatura. Ainda no Brasil, morreu o poeta Luis Delfim dos Santos.
O photógrafo H. Loureiro – Nellas anuncia «Photographias Galantes» de nús a 500 réis a dúzia.
Faltam 238 dias para a instauração da República.

Os dias do fim – 9 de Fevereiro de 1910


via Póvoa 2010

Hoje, dia 9 de Fevereiro de 1910, não houve jornais. Ontem, comemorou-se a Terça-Feira de Carnaval, razão pela qual os jornalistas e tipógrafos não trabalharam.
No dia 8, o tema do dia era precisamente o Carnaval, com dois cartoons alusivos à quadra e um longo texto sobre a história do Carnaval.
Em Lisboa, fala-se da possibilidade de organizar uma grande Exposição Internacional, da qual faria parte a construção de um grande palácio no alto do Parque Eduardo VII.
No noticiário internacional, aventa-se, segundo informações vindas da capital francesa, que o cometa Halley vai chocar com a Terra. Dá-se também conta de um crime em Paris, com duas mulheres degoladas por motivos passionais.
Ainda no que respeita à criminalidade, a D. Maria Rosa de Almeida foi assaltada no Porto. Roubaram-lhe, no largo dos Lóios, uma bolsa que ela trazia no avental com 5 meias libras, 10$000 réis em dinheiro e um vigésimo da Lotaria de Lisboa.
Morreu José Galiza, «estimado e importante alquilador» do Porto. Foi ele que estabeleceu o serviço de carros eléctricos entre Vila do Conde e a Póvoa.
O «Jornal de Notícias», dirigido por Alfredo de Figueiredo e com 42 mil exemplares de tiragem diária, já é o jornal com maior circulação no norte do país.
Faltam 239 dias para a instauração da República.

Os dias do fim


Não, para já não me refiro a José Sócrates.
Acontece que, a partir de hoje, o Aventar vai acompanhar dia a dia o último ano da Monarquia. São os dias do fim de um regime que caiu em 5 de Outubro de 1910. Através da imprensa, iremos saber quais foram as notícias de há 100 anos e qual o estado de espírito do reino nas vésperas de uma revolução.
Aqui. No Aventar.