Zero Minutos, Zero Golos

MEET THE MILLIONS OF BRAZILIANS BATTLING FOR SHELTEREu e o futebol = zero.
A miséria continua dentro de momentos.

Oração

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Não acreditando na tua existência pode parecer um abuso, mas na forma como os homens te criaram, infinitamente bom e misericordioso, escutarás o pedido de um descrente da tua existência como se fosse a de um devoto, sei.

Agora que antes da final um dos teus papas já ganhou a copa e demonstrado de vez não seres brasileiro, garantindo tratamento igual para todos os povos, podias pensar num deles, teu crente, numa parte do planeta onde ainda tens teocracias, que está a levar com os maluquinhos de outro povo, igualmente teu crente, a matar pessoas todos os dias, e a malta já nem repara, nem dá importância, bombardeamentos em Gaza mal é notícia.

Mas devia ser; tal como judeus e ciganos no século passado foram amuralhados antes do extermínio final, agora temos os palestinianos, mais pós-moderno mas o mesmo gueto, os muros, o mesmo apartheid, mas com muito mais dinheiro espalhado pelo mundo para comprar a tolerância com o invasor, a propaganda, para adquirir o silêncio dos mortos.

Também podia dizer umas coisas sobre essa insistência em deixares os teus fanáticos divididos em religiões que se isarael-ó-palestinizam umas às outras, um pouco por toda a parte, mas era abuso, um ateu conhece os limites, fico, caro Deus, por Gaza. Obrigado.

imagem: Prisioneiros ciganos no campo de Belzec, Polónia, 1940.

Última crónica do Mundial [Portugal/Gana]

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Volto ao bar do Sérgio e a esse exercício disfórico que é deixar atrás de mim a tarde ainda tão diurna para entrar a meio dela na escuridão de um bar. Outros já lá estão, companheiros do primeiro jogo, cumprimentamo-nos como náufragos que se reencontram numa gruta sombria para fazer juntos qualquer coisa  ilícita. A rua fica de novo subitamente deserta, a tarde outra vez suspensa durante o tempo de um jogo de futebol que é muito mais do que um jogo de futebol. Naquele jogo joga-se a ideia de um país. Quantas expectativas há nele depositadas, como apostas delirantes jogadas em favor de uma ideia de grandeza cuja comunhão apenas através dele se realiza? No bar do Sérgio temos todos fé, ou não fôssemos nós portugueses. A palavra milagre anda por ali perto e queremos todos ser testemunhas desse fenómeno extraordinário que premeia os crentes.

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Crónica do Mundial [Portugal/USA]

mundial_futebol_brasil_portugal_USA_22_junho_2014

Domingo 22 de Junho de 2014 não ponho o lenço de ir à guerra. Lá fora na rua passam grupos de rapazes com packs de cervejas na mão, a atmosfera exala a esperança nacional, às onze retoma a guerra. Um pouco antes das 23h00 abro a página da RTP para ver o jogo Portugal/Estados Unidos em streaming. Minutos depois de começar a partida a página deixa de funcionar. Na zona de comentários, os portugueses espalhados pelo Mundo (entre os quais se contam os que estão no território e vêm tevê via Internet) depositam insultos e pragas à RTP, Portugal e a RTP transformam-se numa e na mesma coisa – coisa improvisada que subitamente ninguém tolera, sem estratégia nem visão (nem tecnologia), de serviço público sem qualidades –, e alguns deixam endereços alternativos onde a emissão via Internet não dá o berro e se pode ver a guerra do princípio ao fim.

Assim acabo a ver o jogo num site norte-americano, com comentadores norte-americanos a dizer os nomes dos jogadores da selecção portuguesa em inglês e a dar vivas quando os norte-americanos goleiam. Tudo bem, gosto sempre de ver as coisas noutra perspectiva, reparo que respeitam Ronaldo (Christiano), e pelo menos naquele site o streaming funciona independentemente do tráfego. Funciona o streaming e funciona o jogo dos norte-americanos – nem tanto assim jogado mas o bastante para os portugueses mortiços e pouco jogadores, que têm espelhado no Brasil aquele «deixa-andar que logo se vê» que já não se aguenta, aquele «fia-te na Virgem» que «há-des» ganhar a guerra, mas pelo sim pelo não o melhor é ires buscar aquela «estátua fluorescente da Virgem Maria que [te] dá confiança e brilha à noite».

Crónica do Mundial [Portugal/Alemanha]

mundial_futebol_brasil_portugal_alemanha_16_junho_2014

Ponho o lenço com a bandeira nacional que comprei no chinês em 2004 e vou ser portuguesa com os portugueses, sofrer com eles por causa de um jogo de futebol, ser uma igual, apesar do olhar deles pousado na minha excentricidade de mulher amalucada naqueles preparos, a portugalidade por um fio, a estrangeirice toda à mostra, que as mulheres verdadeiramente portuguesas da minha idade não são bem assim, nem vão sozinhas ver futebol para os bares a meio da tarde. Peço uma mine da marca Sagres pois parece-me ser mais portuguesa. Sento-me na obscuridade, quero lá saber da  luz da tarde, e preparo-me para ter a cabeça quente. Lá fora na rua não há vivalma, a semana ainda agora começou e já parece no fim.

Ponho o lenço, bebo a mine, como tremoços, enquanto 50 e tal mil pessoas numa arena no Brasil se transformam em selvagens, ali à minha frente, no écran gigante do Sérgio. Estou em Roma a beber uma Sagres e a comer tremoços enquanto os bárbaros rosnam. Um homem chamado Mueller (ou talvez seja Müller) marca três golos, dois sem glória, só sorte macaca e um árbitro subjectivo. Outro homem, um Hummels ubíquo, desmultiplica-se nesses todos do seu nome plural e faz o resto. Quatro golos. Já não quero mais nenhuma mine e até me apetece tirar o lenço. Talvez tenha dado azar, sabe-se lá. Saio para a luz do fim da tarde que parece ter ficado suspensa, e é outra vez Segunda, apesar dos homens desolados com quem me cruzo na rua, a semana ainda mal começada e eles já tão tristes.

Tensão no Brasil

imagem_capa_publico_10_junho_2014_reuters_kai_pfaffenbachA imagem de capa da edição do jornal Público de 10 de Junho de 2014. Fotografia inesquecível de Kai Pfaffenbach (distribuído pela Reuters). Bom jornalismo