trabalho de campo

a escrita é o resultado da investigação em trabalho de campo

Acabo de escrever um livro. Para mim, um livro muito especial. Parece uma frase redundante. Ao acabar um livro, são todos especiais. Especialmente se gostamos da escrita, esse pôr as nossas experiências de investigação no papel, esse passar das nossas ideias à letra gravada em diários de campo, ou na nossa memória, rascunhos em pequenos livros que enchemos, enquanto ouvimos o que nos é contado, sem retirar o nosso olhar da cara da pessoa que nos narra a sua história de vida, ou a cronologia do sítio em que vive. E, se confia em nós, fala da família, dos amigos e dos vizinhos, tal como do trabalho e dos prazeres que tem na vida. Por vezes, quando a relação entre observador e observado se estreita, isto é a relação de confiança fortalece-se, então, este último, aborda as suas tristezas.

Nós ouvimos, anotamos e calamos, excepto se a pessoa (informante) é tímida e fala pouco. Nestas circunstâncias torna-se, pois, necessário intervir um pouco, narrando as nossas vidas e experiências, para acordar a sua curiosidade e inverter os papéis que jogamos, passando de curioso a narrador. Narrativa que estimula a pessoa

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desesperos de criança e de adulto maior

a alma dos desesperados...

O leitor pode pensar que não existe comparação entre um grupo de crianças e um de idosos. Contudo, o meu trabalho de campo tem-me demonstrado que as emoções são muito semelhantes: o desespero existe nos dos dois extremos do processo da vida. O primeiro facto a tratar, é procurar a forma de canalizar essa emoção quer para idosos, quer para o futuro adulto.

A velhice e a doença que normalmente a acompanha, faz do adulto sujeito de mimos, como se de um bebé se tratasse. Esse idoso que, um dia, não conseguirá falar ou movimentar o seu corpo. Os seus pares de geração ou de gerações próximas perdem a paciência devido à lentidão dos movimentos, das palavras que faltam, dos esquecimentos. E, como se de um bebé se tratasse, vão falando com palavras parvas, no intuito de ajudar. Uma senhora que lia e conduzia o seu carro, apesar dos seus 85 anos, sem óculos e sem problemas de orientação, até que um mês depois, vítima de um aneurisma, fica imobilizada, logo, lenta e envergonhada numa procura desesperada das memórias que o derrame cerebral tinha lavado, como um rio. Uma amiga próxima da sua geração, ao pretender estimular esse rio, nublou com adivinhas de nomes e sítios, essa memória perdida e, conjunturalmente, enervada ao perceber que não consegue agir, como esperado. E, na sua boa intenção, a amiga insiste: coitadinha, claro que sabes, vá lá, diz… Num acesso de fúria mal contida, intervenho e digo com arrogância: Não era melhor dar a pista com uma palavra para ela continuar a frase… Frase a minha que não é ouvida porque os adultos sadios entendem que adulto maior e doente precisa de…compaixão,  como refiro no texto, A criança velha, publicado neste sítio de ensaios académicos. O meu apoio à criança velha mas consciente da sua situação, ajuda-a encontrar as palavras costumeiras, com calma, e diz: Bom, foi um prazer, vou andando, e a conversa acaba. Mas, a senhora compassiva, porque é assim que tem sido ensinada, começa com festinhas na cabeça desse adulto maior, beijinhos nas bochechas e

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a materialidade dos afectos

duas mãos enlaçadas, o múltiplo do amor

Para os nossos discentes de Etnopsicologia da Infância.

As crianças observam-nos. As crianças sabem de nós. As crianças descortinam-nos. Esses pequenos seres entre os 12 meses e os cinco anos, imitam-nos. Procuram em nós uma satisfação sentimental das suas emoções e colmatar os seus desejos de uma resposta simpática no difícil processo de amar. Um processo que requer um parceiro, esse processo de ida e volta, conjugado no verbo amar: de simpatia, de antipatia, com raiva, ou, simplesmente, não amar. Em síntese, uma complexidade entre as relações baseadas nas emoções, nos sentimentos e na intimidade do desejo [Read more…]