Mentir é feio

Lula da Silva costuma dizer que governar bem é fazer o óbvio e o processo de colocação de professores é um daqueles que é tão simples que não é fácil entender de onde vem tanta confusão.

Como já antes escrevi, enquanto o concurso é nacional, corre tudo bem. Quando o Governo resolve introduzir outras variáveis no concurso, então está o caldo entornado.

A explicação é simples: para os concursos dos professores dos quadros, nas escolas “normais” o MEC faz uma lista (de graduação) em que entram apenas dois factores – nota de curso e o tempo de serviço. Simples e eficaz. Completamente aceite por toda a classe como o mecanismo mais eficaz de criar uma lista ordenada.

Quando chega à fase de escolher os professores contratados, Passos Coelho resolve inventar e introduz outras variáveis, nomeadamente nas candidaturas às escolas TEIP (“mais complicadas”) e às escolas com Autonomia (uma coisa que não existe).

E a prova de que o erro está no concurso “especial” resulta deste facto – o concurso dos professores dos quadros não deu erro e o concurso que colocou docentes a contrato nas escolas “normais” está fechado também sem erros.

Só há erros onde Passos Coelho resolveu inventar.

Perante o erro, há duas semanas atrás no Parlamento, um personagem de quem me recuso a dizer o nome, pediu desculpas e acrescentou duas afirmações mais: vamos corrigir o erro e nenhum professor será prejudicado.

Pois, está visto como são sentidas e honestas as palavras dos homens de confiança de Passos Coelho.

E, se me permitem, esta reflexão vai direitinha para Pedro Passos Coelho uma vez que não há Ministro da Educação:

– a Joana é uma mulher com 30 anos. Tem um filho com 5 e vive em Espinho. Foi colocada na Amadora. Tirou o filho do Jardim de Infância aqui no Norte e rumou a sul, montou uma casa nova e começou a dar aulas na sua nova escola. O filhote teve que se adaptar a uma nova realidade. Hoje, a mãe do Pedro, a Joana, foi chamada à Direção: és o elo mais fraco. Estás despedida.

Sabe, senhor Primeiro Ministro, o que eu estimo é o que lhe desejo. Espero que os seus filhos ou os seus netos possam sentir o mesmo que está a sentir o Pedro. E, já agora, aos seus desejo o mesmo que o senhor desejou à Joana.

Da garrafa para o brinquedo

Verdadeiramente brutal porque nos confronta com as nossas práticas que são solidárias com esta violência!

Conjugação do verbo Suicidar-se

suicídio

Eu,  pedro passsos coelho, suicido-te

Tu, aníbal silva, suicida-lo

Ele, josé socrates, suicida-te

Ela, paula teixeira da cruz, suicida-te

Nós, governantes corruptos de qualquer cor, suicidamo-vos

Vós, banqueiros gordos e desonestos, suicidais-nos

ELES, povo reles que fede a pobre, suicidam-se

ELAS, mulheres inúteis que fedem a miséria, suicidam-se

ELES e ELAS, crianças indefesas que fedem a falta de futuro, suicidam-se às mãos de progenitores desesperados

Tenham vergonha na cara! Deixem de matar inocentes! O vosso nome ficará para sempre associado a todos os nossos que cairam por não haver quem lhes desse a mão, por não verem uma nesga de luz ao fundo do túnel, por estarem irremediavelmente desesperados.

Chora, Portugal, o luto que te consome diariamente pela perda destes filhos tão desgraçadamente desaparecidos.

14.095 oportunidades docentes

Que trio de incompetentes! Um mês atrás do outro

Há coisas assim

Ser Professora (ou Professor!) em Portugal é, sem dúvida, uma profissão de risco.educarmata

São assustadoras as notícias dos últimos dias.

Obviamente há, nos casos mais recentes, muitas coisas por explicar, mas estas situações são sinais extremos de que há algo de muito mau nas escolas – e quem lá anda sabe isso!

Não há muitas palavras que permitam explicar a sensação de desconforto, a ideia de que se trabalha atrás do nada, a preencher papeladas sem sentido, para justificar insucessos de alunos que teimam em não aprender, para proteger o profissional dos ataques dos pais. Direcções que incomodam, regras que mudam todos os dias, e o desemprego e o roubo nos salários, e…

Tradicionalmente, o trabalho dos Professores continua em casa, invade e prejudica o ambiente familiar – são fichas para realizar, para corrigir, actas para elaborar e sei lá o quê mais! E os filhos, ali ao lado, entregues à solidão de quem se volta para onde não devia, digo eu.

A pasta, essa maldita – confesso que me consegui ver livre dela ao fim-de-semana: escondo-a na mala do carro. Foi uma atitude de defesa que recomendo! O trabalho? Espera! É mais saudável assim.

Mas, o ambiente está duro, pesado e talvez seja interessante  cruzar informações, abrir os olhos e dar um olá a quem se esconde. Vale a pena estudar isto e talvez esteja aqui a guerra que todos os professores e todas as professoras quererão comprar.

 

Quem tem fome dá o cão II

Não, isto não é uma resposta ao post do JJC.

Sou defensora dos animais, mas não quero que ele me morda. Para mais, como um cão raivoso. Que medo!

Este post é um acrescento. Parece que andámos em consonância de pensamentos, só que eu adormeci mais cedo e deixei o post para o dia seguinte, ou seja, hoje.

O post e o mail que me encarreguei de enviar, por volta das seis da manhã, para saber de que é que esta família necessita. Com 70 euros (!) mensais e duas crianças, presumo que necessita de tudo. [Read more…]

Ainda há alunos sem professor – é por aqui que está a reduzir a despesa sr. Crato?

Os concursos de professores são um tema tão recorrente que se torna complicado escrever sobre o assunto, mas a realidade consegue sempre surpreender, até os mais atentos. Como por aqui escrevemos há umas semanas, neste momento as escolas estão envoltas numa enorme trapalhada – as ofertas de escola.

Neste processo burocrático, as escolas através da plataforma electrónica do Ministério da Educação, divulgam as suas necessidades e os professores mediante o que cada escola vai pedindo – de um simples (ou nem por isso!) portefólio até uma entrevista – vão tentando obter uma colocação para trabalhar.

Há escolas onde o destino é fatal e o nome do colocado é conhecido antes do concurso abrir – há quem lhe chame cunha. Eu prefiro dizer que é uma ilegalidade e que por isso tem que ser denunciada.

Ironias de outros destinos – as escolas que optaram por fazer tudo direitinho estão metidas num poço sem fundo.

De acordo com a lei (artigo 39º) o Director tem que ir “chamando” os candidatos em “montinhos” de cinco – depois pode acontecer uma de três coisas: [Read more…]

Listas de Graduação dos Professores sem horário confirmam a cratera

DACL: Destacamento por ausência de componente letiva; DAR: Destacamento por aproximação à residência.

O MEC, como prometido, divulgou as listas de graduação da mobilidade interna, isto é, um conjunto de listagens onde constam o nome dos docentes a quem a escola não atribuiu horário, havendo ainda alguns que concorrem para tentarem uma aproximação à residência.

O SPN (FENPROF) já fez as contas e não são muito diferentes das estimativas feitas há algum tempo: há 13306 docentes dos quadros para quem o MEC não tem horário.

O mais espantoso, pelo menos aos olhos exteriores à educação é que há 986 professores efectivos de matemática que o MEC considera dispensáveis – sabemos todos o sucesso nos exames…

Muito se falou na questão de EVT e até parece que esse seria o maior problema, mas há mais de mil docentes do 1ºciclo sem horário e no 3º ciclo são quase sete mil…

A esta altura estarão a pensar que se o MEC não precisa destes professores, a bem das finanças, deve mesmo despedir. Pois, mas aí é que está a questão: estes professores, como os de matemática que acima referi, são muito necessários ao sistema. Para aproveitar os recursos existentes o sr. Crato poderia permitir o desdobramento de turmas com mais dificuldades ou garantir mais horas de apoio aos alunos mais complicados. Poderia, também, manter ou reduzir o número de alunos por turma.

O que fazem Passos Coelho e Nuno Crato, inspirados na formação superior de Miguel Relvas? O contrário de tudo isto: despedem na Escola Pública e com isso prejudicam os alunos.

Sim, esse mesmo: o seu filho!

Nota: é um dado lateral, ou talvez não. Será que é legal a publicitação, sem qualquer tipo de protecção dos dados dos professores a concurso, nomeadamente nome, escola onde trabalham, data de nascimento? Não deveria haver um bocadinho mais de cuidado?

Em busca do salário perdido

O pároco da minha freguesia leu um aviso que deixou a assembleia a murmurar, reagindo. Alguém perdeu a carteira onde trazia todo o salário. 

Penso nesse homem ou nessa mulher que, a esta hora, se sente ainda mais pobre e mais desesperado. Imagino o pior dos cenários.

Não deve viver muito longe da minha casa. A crise,  se ainda não entrou na minha (sou afortunada), anda por perto: na minha rua, na escola dos meus filhos, etc.

No estabelecimento onde costumo tomar café reparei, certa vez, numa criatura com o jornal aberto nos anúncios de Emprego. Apontou um contacto num guardanapo. Talvez tenha conseguido o desejado emprego. Espero que sim.

É tão difícil «arranjar» trabalho nos dias que correm. A falta que faz o merecido e tão necessário salário…

Acredito que esse homem ou essa mulher vai encontrar o seu dinheiro, mais cedo ou mais tarde. Os portugueses são, na sua maioria, gente de confiança e compaixão.

Apelo aos portugueses e aos diretores dos jornais

Será a loucura total o que vou dizer a seguir. Mas espero que não me levem a mal!

O desespero dos portugueses já chegou ao espaço dos leitores nos jornais diários: alguns já não aguentam estar calados e, pela via mais democrática, educada e civilizada, dão o seu grito «Basta!».

Estamos “indignados” e a “ser roubados por políticos incompetentes, mentirosos e rascas”, li ontem no JN. Pensamos todos, como aquele leitor, “numa forma de correr com eles pela via democrática”. Será que vamos conseguir, algum dia?

E se um dia… [Read more…]

desesperos de criança e de adulto maior

a alma dos desesperados...

O leitor pode pensar que não existe comparação entre um grupo de crianças e um de idosos. Contudo, o meu trabalho de campo tem-me demonstrado que as emoções são muito semelhantes: o desespero existe nos dos dois extremos do processo da vida. O primeiro facto a tratar, é procurar a forma de canalizar essa emoção quer para idosos, quer para o futuro adulto.

A velhice e a doença que normalmente a acompanha, faz do adulto sujeito de mimos, como se de um bebé se tratasse. Esse idoso que, um dia, não conseguirá falar ou movimentar o seu corpo. Os seus pares de geração ou de gerações próximas perdem a paciência devido à lentidão dos movimentos, das palavras que faltam, dos esquecimentos. E, como se de um bebé se tratasse, vão falando com palavras parvas, no intuito de ajudar. Uma senhora que lia e conduzia o seu carro, apesar dos seus 85 anos, sem óculos e sem problemas de orientação, até que um mês depois, vítima de um aneurisma, fica imobilizada, logo, lenta e envergonhada numa procura desesperada das memórias que o derrame cerebral tinha lavado, como um rio. Uma amiga próxima da sua geração, ao pretender estimular esse rio, nublou com adivinhas de nomes e sítios, essa memória perdida e, conjunturalmente, enervada ao perceber que não consegue agir, como esperado. E, na sua boa intenção, a amiga insiste: coitadinha, claro que sabes, vá lá, diz… Num acesso de fúria mal contida, intervenho e digo com arrogância: Não era melhor dar a pista com uma palavra para ela continuar a frase… Frase a minha que não é ouvida porque os adultos sadios entendem que adulto maior e doente precisa de…compaixão,  como refiro no texto, A criança velha, publicado neste sítio de ensaios académicos. O meu apoio à criança velha mas consciente da sua situação, ajuda-a encontrar as palavras costumeiras, com calma, e diz: Bom, foi um prazer, vou andando, e a conversa acaba. Mas, a senhora compassiva, porque é assim que tem sido ensinada, começa com festinhas na cabeça desse adulto maior, beijinhos nas bochechas e

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Como Se Fora Um Conto – O Descalabro do J

O Descalabro do J

O estrondo, enorme e contínuo, baralha as ideias, impede o pensamento e perturba o imperturbável caminhar das horas e dos dias.

As casas, os prédios e as pontes, caem como baralhos de cartas, lançando a destruição à sua volta. As estradas, as ruas e os caminhos, desaparecem, deixando no seu lugar, uma amálgama de trilhos sem sentido e sem indicação de rumo.

No meio de tanta desgraça, J sente-se perdido. Olha à sua volta e só a devastação e a ruína se encontram à vista. O desespero ameaça tomar conta das suas acções. As soluções não existem, os caminhos não se vêm, a solidão está presente.

Os familiares, mesmo que voltassem com os seus esforços e cheios de boa vontade, não apagariam a tristeza nem acalmariam a desesperança.

J é a imagem personificada do desânimo.

Ao seu lado, não tem companheiros de infortúnio. Ninguém repara no seu sofrimento, ou ao menos se importa. Cada um tem a sua própria dor. E as dores dos outros são sempre privadas. [Read more…]

as mulheres não gostam de nós II parte

o homem confessa

Torno a perguntar porque é que as mulheres não gostam de nós. E torno a ficar sem resposta. Será que não há colaboração entre ela e ele? Será que o homem a abandona reiteradamente? Será que o gosto e o desgosto mudam com o tempo e a idade? Ou será apenas que a mulher gosta de mandar, ser obedecida e seduzir por meio do desgosto do homem que verdadeiramente ama?

Um casal não é unicamente uma junção de dois. Esses dois, inseridos numa época histórica e num contexto social, têm vários papeis a cumprir ao longo do tempo. O mais importante é o de serem pais e ocuparem-se dos filhos. Não apenas da sua saúde e bem-estar, bem como do seu saber e da sua educação. A minha experiência de etnopsicólogo diz-me ser a mulher quem se interessa mais pela sabedoria dos mais novos, pela sua aprendizagem, pela sua mais-valia como ser humano. Não é em vão que vão à escola perguntar como anda esse saber infantil, bem como não é em vão ser a mãe a convidada pelos professores das crianças para saber dos seus comportamentos na escola. O pai está sempre ocupado com o seu trabalho de ganhar dinheiro, ou a sentir a emoção de ser chefe de família, essa de educar em casa o descendente. Normalmente, com punição. Às vezes, com alegria.

É mais do que conhecido que a alegria da leitura depende da alegria que essas leituras causam nos ascendentes. Enquanto mais lêem os adultos, mais lêem os mais novos. Como acontece com outros saberes. O que se fala em casa fica gravado na memória da infância e passa a ser uma temática que é contínua entre adulto e criança. Não é que em casa não se brinque ou se façam brincadeiras, mas brincadeiras eruditas, como dançar Rimsky-Korsakov, ou representar Shakespeare à laia e entendimento dos mais novos. Os adultos, em casos como esses, observam com atenção e não fazem mofa dos erros; bem pelo contrário, calam e depois, em silêncio e entre adulto e criança, o livro à revisto e explicado. Esse é, diria eu, um lar feliz, com exercício, passeios ao ar livre e horas certas para adormecer e levantar, seja Sábado ou dia de semana.

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