A Ciência

Há quem pense que Ciência é vestir uma bata branca e sentar-se ao microscópio.
Mas Vítor Gaspar, por exemplo, é um cientista e faz Ciência.

Deep Mind 2 a 0 contra o humano

Lee Se-dol volta a perder contra o computador. Ainda não chegámos à singularidade, mas talvez isso seja possível.

“O século XXI será espiritual. Ou não será.” (André Malraux)

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André Malraux fotografado por Germaine Krull (por volta de 1930)

«O enfraquecimento ou o desaparecimento da religião parecem estar, para alguns, na origem do comunismo ou do nazismo. Será verdade que apenas um sentimento de entrega a algo que está acima e para além do ser humano pode criar as condições de tolerância e de compreensão entre os homens? Antes de mais: terão as religiões assegurado “as condições de tolerância e de compreensão entre os homens”?

Não foi o caso das religiões assíria [cujos deuses eram antropomórficos] e asteca [também politeísta, e xamanista]. (…) Algumas das leis mais atrozes foram enunciadas por sábios confucionistas; mas o confucionismo não passa de uma religião dos mortos. A mitologia grega não é edificante (…). Parece-me que há duas religiões que terão desempenhado o papel que a generalidade das pessoas considera verdadeiramente importante, as que unem o amor e a compaixão: o cristianismo e o budismo. Embora o tenham apenas podido desempenhar como deve ser durante uma parte da sua história.

O Cristo bizantino animou durante mil anos uma civilização de amor sem piedade. Dois em três imperadores bizantinos foram assassinados ou torturados. (…) No século XIII, o cristianismo ocidental cumpre um dos mais elevados destinos da História: constrange o Homem à virtude (…). Cria um herói submetido aos ensinamentos da sua fé (…) Através de Cristo, pelo seu exemplo. Mas não foi o suficiente.

Uma religião une os homens na medida em que faz de cada um próximo. Apesar de esse próximo se limitar, na maior parte dos casos, a ser um correlegionário, e, por mais superficial que tenha sido o humanitarismo do século XIX, somos forçados a constatar que coincidiu com um dos séculos menos cruéis da História… O principal adversário da tolerância não é o agnosticismo, mas o maniqueísmo: nazis e comunistas, mesmo se ateus, são maniqueístas. [Read more…]

Ronaldo já tem nome nas estrelas

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Entre as designadas galáxias distantes, formadas no Universo primordial cerca de 800 milhões de anos após o Big Bang, a galáxia CR7 (COSMOS Redshift 7) é a mais brilhante entre todas. Foi observada por uma equipa liderada pelo David Sobral, do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço, Universidade de Lisboa, e do Observatório de Leiden, Holanda, que realizou as observações com o Very Large Telescope do ESO. Explicou o David Sobral que o nome também é inspirado no Cristiano Ronaldo porque também ele emana um brilho “fora de série”.

O humorista do Tejo anda com piadas novas

O piadista João Miguel Tavares, aquele a quem no Governo Sombra cumpre o papel de soltar uma larachas para animar a conversa quando vai mais séria, anda numa estafada campanha contra os que nas universidades não cumprem as suas premissas ideológicas. É uma doença velha da nossa direita, agora impedida de resolver o assunto à Salazar, quando por exemplo Sílvio Lima foi corrido da docência universitária porque lhe deu para arrasar a mediocridade científica do amigo Cerejeira. Encanitam-se porque se faz em Portugal investigação nas ciências sociais e humanas sem a objectividade positivista de um Ramos ou de uma Bonifácio, malta que à força de estudar o séc. XIX acha que as humanidades estagnaram ali, que nestas coisas os ingleses é que sabem.

Ora conta-nos hoje o Tavares ter trocado o doutoramento académico pelo jornalismo, pela família a sustentar, pela casa e pelo carro, que isso de ser bolseiro implica sacrifícios, já sabíamos. O jornalismo esperava pelo João Miguel, e nele singrou. Não é para todos. Quando em 2008 era director-adjunto da Time Out, uma publicação portuguesa embora não pareça, e precisava de mão-de-obra sem casa, sem carro e sem família, saiu este anúncio:

Procura-se Jornalista Estagiário

Se és jovem, sabes a diferença entre “à” e “há”, és lavadinho e conheces Lisboa como a palma da tua mão, junta-te a nós! A Time Out Lisboa procura estagiários que não se importem de trabalhar de borla durante 3 meses, mas num ambiente muito agradável (e onde nem sequer se pede que nos vão buscar café).

Como bolseiros de doutoramento talvez trabalhassem na mesma os três meses usando as poupanças, mas sempre contribuíam para aquela coisa que nem lhe passa pela cabeça ser fundamental num país: a investigação científica. Terminaram por viver o mesmo sacrifício trabalhando numa publicação pateta, mas tenho a certeza que se fartaram de rir com as piadas da tágide do humor luso.

O heliocentrismo negado pela aviação e pela estupidez

Fico sempre na dúvida se estes radicais islâmicos são apenas patetas ou se usam argumentos desta categoria para manter os seus correlegionários na infinita estupidez subjacente a qualquer radicalismo religioso. E, como de costume, os piores exemplos acabam sempre por chegar desse nosso estimado aliado que é a Arábia Saudita, a referência maior no financiamento do fundamentalismo islâmico.

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A História não voltará a ser a mesma

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A partir de um texto de Manuel Loff (no Público), e que por acaso tem uma afirmação muito discutível sobre o fado, fica para outro dia, Vítor Cunha decide desbravar os caminhos da História. Intrépido, arrasa toda a historiografia que consensualmente define a criação dos estados modernos vulgo nações nos últimos 200 anos, como banalissimamente Loff refere.

Nada disso, com o entusiasmo de quem pega num algoritmo complexo sem saber a tabuada, e a sabedoria de quem na semana passada demoliu o cálculo de probabilidades tal como era conhecido na véspera, Vítor Cunha quer a Padeira de Aljubarrota metida ao barulho, e manda um doutorado tomar chá de malvas com a ” sua tese dos 200 anos que não explica nada excepto vergar a construção de uma nação ao tempo necessário para incluir Marx“. A teoria da conspiração no seu melhor. [Read more…]

A minha vida sexual com José Hermano Saraiva (com vídeo)

Na primeira vez que fui aos Dias Medievais de Castro MarimJosé Hermano Saraiva constava do programa. Ainda lhe escutei parte de uma oração na capelinha do castelo, irritei-me e saí. Como qualquer ex-aluno da FLUC, com formação em História ou Literatura, via pela primeira vez ao vivo aquela fantástica capacidade de transmitir, e aquela total ignorância no saber.

Ignorância que hoje se designa revisionismo histórico, coisa que ingenuamente e ignorando a existência de um tal Rui Ramos me parecia na altura definitivamente arrumada a um canto.

Ora na manhã seguinte, descíamos a encosta para a manhã no século presente, com chuveiro, pequeno-almoço e tudo, ia respondendo a alguém que não considerava um jurista de seu nome José Hermano Saraiva com habilitações para historiador, quando choco com o destinatário a meio metro (quem conhece o cotovelo que defende o castelo percebe). Acontece. Olhámos um para o outro, e cada um seguiu o seu caminho, tendo ficado claro que o convidado a orador não estava habituado a ouvir de voz viva uma evidência repetida em qualquer corredor de universidade a sério. O problema da historiografia portuguesa é esse. [Read more…]

Vírus mortíferos criados em laboratório

Cientistas holandeses induziram mutações no vírus H5N1 da gripe da aves e transformaram-no num vírus capaz de de ser tão transmissível entre humanos como, por exemplo, o da gripe sazonal. Este vírus, no entanto, é altamente letal e estima-se que possa matar seis de cada dez pessoas  infectadas. Ainda que tenha alguns defensores, as condições de segurança teriam que ser tão apertadas que, fatalmente, um dia algo correria mal. Como diz a lei de Murphy, se pode dar errado, um dia dará seguramente.

Não é só ter meios, tecnologia e “brilhantismo” intelectual capaz de elaborar teorias científicas inovadoras. Bom senso precisa-se, e muito.

Legislativas 2011: meditações

meditações

Lei ou Direito? Lei ou Código? Direito ou Ciências do Direito? Lei ou sem Lei?

Cada uma destas questões tem uma resposta. É evidente que a Lei, criada pelo Império Romano antes da nossa era, é o braço armado do Direito, resumida numa frase pelos advogados do Império: dura lex, sed lex. A lei é dura, mas manda e deve ser obedecida, em português. A lei é um conjunto de prescrições, reunidas normalmente no corpo jure, denominado Código, como fez Justiniano I em Roma a partir de 535, e que perdurará até a divisão do Império em 1473. Foi a fonte de inspiração para o Código liberal de Napoleão, de 1813, até aos nossos dias. Os Códigos estão divididos por [Read more…]

etnopsicólogo em trabalho de campo

200px-William-Adolphe_Bouguereau_%281825-1905%29_-_A_Calling_%281896%29.jpgParece-me importante começar por definições, para que o leitor não se engane, mas definições leves, para não aborrecer. Um etnopsicólogo, é quem faz psicanálise às crianças no sítio em que moram. Normalmente, por serem crianças, a análise é em grupos de brincadeiras, a imitar a vida dos seus adultos, a melhor forma que um investigador sabe ou aprende, o que acontece em casa, sem ter entrar nas vidas privadas de grupos domésticos. Grupo Doméstico, como define Jack Goody em 1974, no seu módulo Addison-Weslley da Universidade de Nova-Iorque: os que partilham o mesmo teto, a mesma comida e colaboram nos mesmos trabalhos produtivos.

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Ernesto Veiga de Oliveira: a etnografia

1910-1990

Citações para saber de Portugal, são suficientes os nomes de Ernesto Veiga de Oliveira e Benjamim Eanes Pereira, surgindo-nos uma panóplia de saberes e conhecimentos, como nunca se produziu em qualquer outro país. É certo que Erick Hobswawm elaborou, com a sua colecção a Era do Capital, A Era da Revolução, a Era dos Extremos, uma admirável síntese do que tem acontecido na Europa no milénio mil, anterior a este de dois mil. Como José Mattoso e a sua ilustração sobre a idade média de Portugal. Escritores sem par, que nos ensinam o passado e as suas transformações. De José Mattoso, já tenho falado muito. Do Ernesto, que não pode ser lembrado sem o seu amigo íntimo Benjamim, escrevi A Etnografia, memória de História (páginas 305-311), publicada em Dezembro de 1989, na obra: Estudos em Homenagem a Ernesto Veiga de Oliveira, coordenada por Fernando Oliveira Batista e outros, edição do Instituto de Investigação Científica.

Em A Etnografia, memória de História saliento a relação que existe entre a realidade material, palpável, positiva. Forma de organizar as lembranças de um passado que, como eu os denominava, os Ernestos tinham terror que desaparecesse e não ficasse lastro nenhum do Portugal Eterno. [Read more…]

os técnicos informáticos

…para Bruno Sousa, que me assiste todo senhor… como ele é e Ricardo Santos Pinto também

um ténico informática que me assiste

Há apenas duas palavras que definem um técnico informático: são de utilidade pública!

Há muitos saberes, há muito ciência que podem existir na nossa cabeça, incluindo o famoso multiplicador de investimentos, criado pelo meu colega de Cambridge, Sir John Maynard Keynes. Fórmula difícil de entender, apenas ele sabia a chave para o investimento, incluído ao meu amigo, o seu discípulo Lord Kaldor. Quem ao entender: Y C cY I G A = + + + [Read more…]

Sir Eward Burnett Tylor, pai fundador da Antropologia-1

pai de ciência antropológica, define em 1871 o conceito cultura

De entre os fundadores da Antropologia, é preciso salientar ao cientista que dá título a este texto e a obra que os fez famoso, ao definir o conceito mais usado pelos praticantes da nossa ciência, o de cultura. Conceito que não refere pessoas que saibam mais de ópera, leitura, ciência, não, é apenas uma definição de hábitos costumeiros para realizar as suas actividades, rituais, magia e definir a moral dos acontecimentos sobre a base das ideias referidas e analisadas neste texto. [Read more…]

Materialismo e Espiritualismo

(adão cruz)

(Este trabalho, embora ligeiramente alterado e com outra disposição, é uma repetição no Aventar. Todavia, por ser matéria que me parece extremamente importante nos dias de hoje, atrevo-me a enviá-lo de novo. A quem achar mera redundância, as minhas desculpas).

 

Materialismo e Espiritualismo

                                                           I

O indivíduo materialista, no sentido filosófico e científico do termo, é aquela pessoa que acredita no ser humano como um todo, um todo indivisível, indissociável, uma única substância como dizia Espinosa. Aquela pessoa para quem não há qualquer fronteira entre a pele e a carne, entre a carne e o sangue, entre o sangue e o cérebro, entre o cérebro e a mente, entre a mente e o pensamento, do qual decorre toda a vida dita psíquica do indivíduo.

Assim como o aparelho circulatório se encarrega de toda a distribuição de fluidos no organismo, assim como ao aparelho respiratório cabe toda a oxigenação dos tecidos, assim como ao sistema endócrino pertence todo o complexo mundo hormonal do organismo, assim ao sistema cerebral corresponde toda a vida “psíquica” do ser humano. O cérebro é o receptor e emissor de todos os estímulos, exógenos e endógenos do organismo. É ele que, através de tais estímulos cria imagens, das quais decorrem emoções que, por sua vez, geram sentimentos que levam à consciência, à reflexão, à vontade e à decisão. E o pensador materialista baseia os seus conceitos numa intuição natural, numa investigação científica permanente, progressiva, dia a dia mais convincente, e, a não muito longo prazo, pensa ele, acabando por atingir verdades irrefutáveis.

A realidade de uma vida psíquica em nada se encontra em contradição com o materialismo. A vida psíquica, entendida como a vida decorrente da actividade cerebral, e, logicamente, de toda a actividade pensante, não contradiz, de modo algum, o pensamento materialista. O termo “psíquico” está de tal modo enraizado na nossa linguagem e na nossa sociedade que não é possível eliminá-lo, nem interessa. Quando um materialista diz, por exemplo, em conversa ou num texto literário, “a alma do poeta ou do pintor”, quer dizer o íntimo, o mais nobre do poeta e do pintor, e não, como é óbvio, se refere à alma do poeta ou do pintor em sentido espiritualista. Quando um materialista diz “ele é um espírito vivo”, logicamente que quer dizer que ele tem uma actividade psíquica intensa, perspicaz e arguta, e, de modo algum, se refere ao imaterial espírito contido no conceito espiritualista.

Para o espiritualista existe um dualismo corpo-espírito. Há duas realidades distintas no todo do ser humano, o corpo e o espírito, ou alma, interligadas em vida mas separadas depois da morte. Logo que a alma se separa do corpo, este vê-se reduzido à sua condição de matéria, logo putrefáctil, sem vida, enquanto a alma segue por outros insondáveis caminhos. Enquanto o materialista baseia os seus conceitos nas poderosas investigações científicas, sobretudo na área da Evolução e das Ciências Neurobiológicas, o espiritualista, sem qualquer base racional científica e convincente, baseia os seus conceitos numa crença, apenas numa crença, legítima, mas uma crença. Mas é assim e quem sou eu para tentar convencer alguém da “minha” verdade?

Não queria terminar esta primeira parte sem deixar aqui bem explícita, a finalidade deste artigo. E esta resume-se no seguinte: Perpassa por aí a ideia de que o materialismo, em termos de sentimentos, está a léguas do mundo sentimental do espiritualista. Disparate total! Disparate absoluto! Faz lembrar aquela pergunta de uma amável e intrigada senhora: como é que o senhor, sendo materialista, pinta, escreve, faz poesia e tem sentimentos tão bonitos?

A vida psíquica, isto é, a actividade cerebral e mental de qualquer ser humano , não pessoalizada, evidentemente, é idêntica, seja materialista ou seja espiritualista. Um e outro pensam, raciocinam, amam, choram, riem, fazem poesia, são capazes das mais profundas emoções e dos mais nobres sentimentos. Quantas vezes um materialista tem sentimentos e vivências “espirituais” muito mais profundas e mais nobres do que um espiritualista e vice-versa! A única diferença reside no conceito de “esfera psíquica”que cada um tem. No primeiro caso, materialista, esta faz parte integrante, material, do ser humano no seu todo biológico, conceito bem firmado na dificilmente negável investigação evolucionista e neurobiológica, e, no segundo caso, pertence a um ser humano feito de duas partes, uma terrena e outra sobrenatural, mera questão de crença, legítima, repito, mas sem qualquer base racional e científica.

Acabemos de vez com o sentido pejorativo atribuído, de ânimo leve, tantas vezes acintosamente e irracionalmente, ao materialismo científico. Tal atitude, sobretudo nos dias de hoje, não eleva nem dignifica ninguém. [Read more…]

trabalho de campo

a escrita é o resultado da investigação em trabalho de campo

Acabo de escrever um livro. Para mim, um livro muito especial. Parece uma frase redundante. Ao acabar um livro, são todos especiais. Especialmente se gostamos da escrita, esse pôr as nossas experiências de investigação no papel, esse passar das nossas ideias à letra gravada em diários de campo, ou na nossa memória, rascunhos em pequenos livros que enchemos, enquanto ouvimos o que nos é contado, sem retirar o nosso olhar da cara da pessoa que nos narra a sua história de vida, ou a cronologia do sítio em que vive. E, se confia em nós, fala da família, dos amigos e dos vizinhos, tal como do trabalho e dos prazeres que tem na vida. Por vezes, quando a relação entre observador e observado se estreita, isto é a relação de confiança fortalece-se, então, este último, aborda as suas tristezas.

Nós ouvimos, anotamos e calamos, excepto se a pessoa (informante) é tímida e fala pouco. Nestas circunstâncias torna-se, pois, necessário intervir um pouco, narrando as nossas vidas e experiências, para acordar a sua curiosidade e inverter os papéis que jogamos, passando de curioso a narrador. Narrativa que estimula a pessoa

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Materialismo e Espiritualismo

(adão Cruz)

O mal do homem não está em pensar e ter ideias, o mal do homem está em não pensar e não ter ideias.

Por isso, na sequência de um artigo anterior aqui publicado, sinto necessidade de correr um pouco mais atrás de ideias e de fazer mais algumas reflexões em relação a este tão aliciante tema. Os que acham que sou tolo e desprovido de senso têm uma solução fácil, não leiam. Mantenham as suas valiosas ideias fechadas no cofre do deixa andar e não te rales. [Read more…]

Os pés pelas mãos

(texto de Marcos Cruz)

OS PÉS PELAS MÃOS

A minha filha está na cozinha, em bicos de pés, a tentar chegar com as mãozitas a um pacote de bolachas que eu afastei o suficiente, julgo, da borda do balcão. Afinal, julgo mal: ela fez cair o pacote. Ponho-me a imaginar o que pensará ela sobre a conquista – se achará que foram as mãos as responsáveis, se atribuirá o mérito à inclinação dos pés, se premiará o conjunto ou se nem perderá tempo a reflectir sobre isso, que é o mais provável. O meu pai está na cozinha, sentado, a dizer-me que a ciência, mesmo sendo um cemitério de hipóteses, é o único caminho para a verdade, ao passo que a filosofia é, na generalidade, um amontoado de disparates. Segundo ele, a filosofia é apenas um degrau, um degrau que está abaixo da ciência. Eu pergunto-me, e pergunto-lhe por outras palavras, sem que ele mostre vontade de me ouvir, se esse degrau não estará para a ciência como os pés da minha filha estarão para as suas mãos na abordagem ao pacote de bolachas.

escrevemos. qual o debate?

qual a utilidade da ciência para a arte de saber governar?

Eis a questão. E, como o poeta de Hamlet, não quero ficar na dúvida. Tenho por hábito enviar os textos que escrevemos, para comentários, às pessoas com as quais trabalho. Como as visões são heterogéneas, estes comentários também o são: uns propõem textos alternativos; outros dizem que ficam com novas ideias; há ainda os que nem respondem. Numa equipa de trabalho, é normal ser assim.

A polémica é pretexto para outros textos. Mas onde está o colega e o leitor? Será que eu escrevo apenas pelo prazer de escrever, com metáforas mais ou menos adequadas, com factos que permitem ideias novas, com ideias novas ou já muito manipuladas? Será que avanço? Em Portugal, não recebi mais do que recensões muito agradáveis ao meu ego. Mas, polémica nenhuma. Já em 1992, no meu livro “A religião como teoria da reprodução social”, fiz o primeiro desafio no Prefácio. Até hoje, silêncio. Silêncio ainda na 2ª edição da Fim do Século…

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Que deus?

(Dedico este post à nossa simpática Maria Monteiro)

Apoiado nas leituras de Pepe Rodriguez, doutorado em psicologia pela universidade de Barcelona, e um dos mais categorizados conhecedores e especialistas em matéria de seitas e religiões, permitam-me que construa algumas das minhas opiniões àcerca da ideia de deus.

Deus é um conceito recente dentro da evolução do nosso processo cultural. Mas a força deste conceito tornou-se tão poderosa que permitiu às instituições religiosas, que governam a presunção da sua realidade, a mudança radical dos comportamentos individuais e colectivos das relações humanas.

Há mais de dois milhões de anos a espécie humana sobrevivia e morria sem deus, num planeta inóspito, no meio de uma total indiferença em relação ao Universo. Há noventa mil anos atrás, uma parte da humanidade parece ter começado a pensar na ideia de uma possível existência para além da morte. Há trinta mil anos deus ainda não existia. Por essa altura começou a esboçar-se a ideia de um deus, mas a sua imagem e características eram as de uma mulher todo-poderosa. Daí o dizer-se que deus nasceu mulher. Só depois do terceiro milénio a.C. começou a surgir a ideia de um deus criador/controlador, mais ou menos como é imaginado pela humanidade actual. [Read more…]

Vida = Ciência e poesia

(Não tenho escrito nada para o Aventar nestes últimos dias. Apetecia-me desancar na mentira e hipocrisia da igreja, na continuação da escamoteação dos seus crimes e na descarada visita papal, assim como me apetecia pertencer a um grupo que eu designaria, por exemplo, de “Terrorismo Selectivo Benigno” (TSB), que fosse capaz, não de matar os ladrões de colarinho branco, mas de os fazer vomitar até ao último tostão, a massa que roubaram e continuam a roubar a todos nós e ao país. Apetecia-me, mas não ando com vontade de mexer na trampa. Assim sendo, viro-me para coisinhas inofensivas, como a que se segue). [Read more…]

Ciência e poesia

(Com especial abraço ao amigo Raul Iturra)

Encontrava-me num café de Paris, na Place de Contrescarpe, onde Edith Piaf (un petit oiseau) iniciara a sua carreira como cantora de rua.

Eu sonhava…nessa altura não era proibido sonhar, pelo contrário, era obrigatório sonhar.

À medida que a luz da manhã crescia, insubstancial e fria, eu descia a Rue Mouffetard. À minha direita descia Tchaikovsky e à minha esquerda subia Van Gogh. Madrugavam ambos as suas inquietas e inflamadas personalidades nessa horizontal e fresca manhã do século dezanove. [Read more…]

Apenas um pequeno remate, amigo Raul Iturra

 

Permita-me que o trate assim. A mim trate-me por Adão Cruz. Aliás, não sou professor, sou assistente graduado em chefe de serviço hospitalar. Mas isso pouco interessa.

Em primeiro lugar as suas melhoras e os meus agradecimentos pelas suas elogiosas considerações.

O estímulo, a imagem, a emoção, o sentimento, a consciência, a reflexão e a decisão são elos da mesma cadeia fenomenológica, mas são diferentes e não podem ser misturados aleatoriamente dentro de um texto ou de uma conversa. [Read more…]

A propósito do comentário do amigo Prof. Raul Iturra

 

Amigo Raul Iturra, em primeiro lugar, as melhoras da sua gripe.
Em segundo lugar queria dizer-lhe que nos encontramos em campos opostos, no que respeita ao entendimento das emoções e dos sentimentos. Desta forma, é sensato não querermos ter a pretensão de nos convencermos um ao outro. Mas é saudável, sob todos os pontos de vista, dialogarmos sobre tão cativante tema. Assim sendo, gostaria de lhe dizer que a biologia do espírito é um conceito muito actual, praticamente irreversível, e cada vez mais aceite por, praticamente, todos os neurobiologistas contemporâneos. O facto de se usar a palavra espírito, não significa que a ciência tenha necessidade dela, mas utiliza-a, exclusivamente, como contraponto ao raciocínio.

A ciência não procura controvérsias, mas apenas tentar com toda a seriedade e honestidade explicar os fenómenos da vida, como é seu dever natural e seu objectivo incontestável. Todos sabemos que hoje, na vida, tudo se processa á base dos conhecimentos científicos, desde o lavar dos dentes às viagens interplanetárias. E ninguém contesta. Este conceito de biologia do espírito, ao contrário do que o meu amigo diz, em nada afecta a natureza das emoções e dos sentimentos, totalmente diferentes, umas e outros, em cada pessoa. [Read more…]

émile durkheim

Émile Durkheim durante a sua época criativa da Ciência da Sociologia

O texto que passo a comentar, refere a obra de Émile Durkheim de 1912: Les structures élémentaires da vie religieuse, Félix Alkan, Paris. Texto editado pela Press Universitaires de France. O livro é um debate entre, Durkheim e Max Müller sobre o animismo e as formas de religiosidade, para se centrar nas formas da vida religiosa da etnia Arunta – também denominada Aranda – de Austrália. No entanto, Durkheim ultrapassa o  tema Central e como as crianças são ensinadas a saber domesticar a natureza, a dominar e a reproduzir. Apesar de ser um cientista muito conhecido, penso que a sua biografia e ideias chaves dêem ser brevemente relembradas: Émile Durkheim (Épinal, 15 de abril de 1858Paris, 15 de novembro de 1917) é considerado um dos pais da sociologia moderna. [Read more…]

Fé e doutrina – ciência e razão

Fé e doutrina – ciência e razão

O coração bate em média 60 vezes por minuto, 3.600 vezes por hora, 86.400 vezes por dia, 31.536.000 por ano e cerca de dois biliões e meio de vezes numa vida de 80 anos. O coração tem movimento automático, ele gera o seu próprio movimento, ele é a sede do seu próprio automatismo. Não precisa de ninguém a dar-lhe corda, não precisa de ninguém a empurrá-lo, não precisa de bateria. Mesmo fora do peito, isolado, ele continua a bater, se o alimentarem. É um interessantíssimo fenómeno que a ciência, após décadas e décadas de profundo estudo, explica de forma muito clara e transparente.

Se perguntarem a qualquer papa, cardeal, bispo ou padre, seja qual for a religião que professe, não sabem explicar, nem há espírito santo que os ensine. Mas também não são obrigados a saber. O que me admira é que não sabendo as coisas reais ainda que complexas, se arvoram nos únicos sábios de coisas transcendentais e sobrenaturais,  e deitando mão da sua “sabedoria” são capazes de arranjar mil e uma explicações para tudo, como arranjam para explicar muitos outros fenómenos da vida. O exemplo mais marcante, neste momento, é a Evolução. A evolução das espécies é hoje um facto científico situado ao mais alto nível dos factos científicos. E a igreja sabe-o. Então que será da criação e de todos os criacionismos que para aí proliferam? A ICAR está á rasca para descalçar a bota, mas lá vai tentando descalçá-la. Que há que deus a evolução não contradiz a criação. Bravo! Não se vê como não contradiz, mas eles lá sabem. Já devem ter muitas cabeças a pensar no assunto, não para procurarem ou ajudarem a procurar a verdade, mas para arranjarem formas de continuar a mentira, a falsificação e o ludíbrio.

Hominídeos somos, Homens nem tanto

Desde há vários anos que eu tenho vindo a expor a ideia de que há na natureza humana, no ser humano, uma espécie de interface, entre a força, digamos, antropocêntrica, a força que o prende e o arrasta para a sua condição meramente biológica, ainda que com direito a uma cúpula ou abóbada espiritual envolvente, uma espécie de pequeno céu, e a força que tende a projectá-lo para a sua dimensão universal, ou seja para um céu de infinito.

 

Sem qualquer tipo de presunção, reconheço todos os dias, na vivência do meu dia-a-dia, que os homens e mulheres, na sua grande maioria, nem sequer vislumbram a hipótese de que haja, para além da sua estreita, primária e escassa visão do mundo e das coisas, uma fronteira para além da qual há outro ser humano, o que pensa, o que sonha, o que procura e o que se aventura na arrojada projecção da mente pelos céus do infinito.

 

Vem isto a propósito, pelo facto de me encontrar no café, a ler “O Espectáculo da Vida” de Richard Dawkins, no meio de uma algazarra copofónica e futebolística, que não me desconcentrando, me dava o gozo espectacular, ainda que amargo, de medir a abissal distância que há entre os seres humanos. Alguém me disse um dia que a distância entre um primata superior e um ser humano primário era menor do que a distância entre um ser humano primário e um ser humano da estatura intelectual de muitos homens. Como tinha entre mãos este maravilhoso livro de Richard Dawkins, lembrei-me disso. Recomendo-o vivamente, a quem quer que sinta a necessidade de saber onde se encontra, o que o traz por cá, até onde chega a capacidade de procura da verdade, e a quem sinta essa necessidade como vital exercício de sobrevivência mental.

 

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