O Mediterrâneo somos nós todos

A surpresa da Europa e seus governos perante os acontecimentos no Norte de África radica no preconceito, no desconhecimento e na ignorância.

Agora tenta-se surfar a onda, como se vê no caso Líbio, numa clara tentativa de sacudir o petróleo do capote.

Tropeçamos na ignorância e no preconceito a cada passo, nos postes dos blogues, nos comentários dos jornais, nas declarações dos programas interativos de rádio e televisão. O mouro, o muçulmano, o norte africano, é para parte da população europeia ainda inimigo histórico, ou novo inimigo, emigrante não integrado, terrorista potencial, manhoso, preguiçoso, atrasado, sub-desenvolvido, sub-espécie, raça inferior, etc.

O mesmo -ou algo semelhante- se passa com políticos e governantes. Exceptuando raríssimos casos (como será o do eurodeputado Miguel Portas) desses países pouco mais conhecem do que hotéis, salões governamentais, excursões de propaganda, escritórios de petrolíferas, investimentos aí feitos pelos seus próprios países, a dança do ventre para turistas e a temperatura da água do mar. [Read more…]

Egipto, o que se pode passar a seguir?

Dando por quase certa a queda do regime de Mubarak, impõe-se a pergunta: e depois o quê?

Há quem recorde o caso iraniano e tema a implantação de um regime teocrático à imagem de Khomeini. É uma possibilidade e tem que ser considerada. Tal situação, do meu ponto de vista, equivaleria a um retrocesso civilizacional num país (região) que já ensinou História e Civilização ao resto mundo.

Existe ainda como possível – mas com menor probabilidade – a implantação de uma ditadura militar como consequência dos actuais motins. Seria uma releitura do mudar algo para ficar tudo na mesma, prolongando o regime e os interesses instalados até ao seu estertor final, agora de forma mais musculada. Não creio que esta via possa, neste momento, vingar.

Outra hipótese, aquela de que sou partidário, é a mudança de regime e a instauração de uma democracia que respeite os direitos de expressão, culto, associação e voto. Não vou aqui recorrer a ironias sobre a qualidade das democracias actuais, especialmente enquanto morrem pessoas nas ruas do Cairo e de outras cidades. [Read more…]

Irmandades escondidas


Como reagiriam as potências ocidentais, a uma súbita irrupção de violência nas ruas de Lisboa ou de Atenas? Apelariam à contenção das forças de segurança? Declarariam haver “necessidade de reformas”?

Já crepita o fogo por todo o norte de África e no flanco sul da península arábica, o Iémen também entrou na corrente de sublevações que se generalizam. Nem mesmo o regime de Kaddafy parece seguro e apenas são respeitados os Chefes de Estado da Jordânia e do Marrocos, duas monarquias com forte apoio popular, dois países que têm merecido uma grande compreensão da sempre ansiosa diplomacia ocidental. Cremos que o verdadeiro alvo é outro, mais precisamente a Arábia Saudita. A queda do regime de Riade é um velho projecto dos extremistas muçulmanos, sabedores da total dependência europeia e americana, da boa vontade deste regime tacitamente seu aliado. A Irmandade Muçulmana (1) – que possui um programa claro – não deverá ser alheia a estas ocorrências. Há trinta anos caia baleado o general Anwar el-Sadat, vítima da aproximação aos EUA, da paz com Israel e da protecção concedida a outro alvo primordial, o Xá Mohamed Reza Pahlavi. O resultado está à vista e a “Europa” teima em contemporizar, temendo pelos seus negócios e refém dos seus medos. Querendo sempre acreditar em liberdade, os europeus acabam sempre por verificar resignados, a emergência de regimes muito mais repressivos que os derrubados. O júbilo bem depressa dá lugar ao silencioso comprometimento.

[Read more…]

Egipto, Tunísia e Países Árabes: a Revolução Dominó

Depois de fazer tudo o que os tiranos sempre fizeram nestes casos, -a velhinha repressão musculada, detenções arbitárias, etc. – o regime de Hosni Mubarak avançou com as medidas que os tiranos de hoje em dia tomam e cortou o acesso à internet e telemóveis. Mohamed ElBaradei, que regressou ao Cairo e se colocou ao lado dos protestantes, parece estar em prisão domiciliária (segundo a Antena1 há momentos), ao contrário do que afirmam notícias como estas.

As confrontações estendem-se já a várias cidades do país e vão continuar a alastrar. Depois da Tunísia e do Egipto, as manifestações por uma mudança de poder começam a fazer ouvir-se no Iémen e noutros países árabes.

Sem pretender fazer futurologia e sem arriscar prever o que se seguirá ou que tipos de regime surgirão, é certo que a geografia política do Norte de África e Médio Oriente está a mudar nestes dias. Está a fazer-se história nas ruas e assistimos em directo a uma revolução-dominó. [Read more…]