O Mediterrâneo somos nós todos

A surpresa da Europa e seus governos perante os acontecimentos no Norte de África radica no preconceito, no desconhecimento e na ignorância.

Agora tenta-se surfar a onda, como se vê no caso Líbio, numa clara tentativa de sacudir o petróleo do capote.

Tropeçamos na ignorância e no preconceito a cada passo, nos postes dos blogues, nos comentários dos jornais, nas declarações dos programas interativos de rádio e televisão. O mouro, o muçulmano, o norte africano, é para parte da população europeia ainda inimigo histórico, ou novo inimigo, emigrante não integrado, terrorista potencial, manhoso, preguiçoso, atrasado, sub-desenvolvido, sub-espécie, raça inferior, etc.

O mesmo -ou algo semelhante- se passa com políticos e governantes. Exceptuando raríssimos casos (como será o do eurodeputado Miguel Portas) desses países pouco mais conhecem do que hotéis, salões governamentais, excursões de propaganda, escritórios de petrolíferas, investimentos aí feitos pelos seus próprios países, a dança do ventre para turistas e a temperatura da água do mar.

Após séculos de vizinhança e trocas comerciais continuam a utilizar a palavra exótico e a experimentar um fascínio, ou uma repulsa, apenas superficiais. Por isso usam, também impropriamente, a expressão Real Politk em vez de apenas Geschäft Politik ou Business Politic, já que a realidade profunda e popular, a realidade emanada pelo real, lhes é desconhecida e passa ao lado das preocupações. Abraçam teorias e políticas de globalização como se de um modelo exportável se tratasse, no sentido de que o mundo se identifique e transforme apenas de cá para lá no que às ideias e valores diga respeito, e a sua ignorância fosse natural e tolerável.

No entanto a Europa e a margem sul do Mediterrâneo estão destinados a complementar-se, até porque essa história comum, com aproximações e afastamentos, existe há séculos.

Num mundo cada vez mais próximo, nós, mediterrânicos, merecíamos mais e melhor. A culpa? É nossa, de todos, os do sul e os do norte.

Podemos, até, tentar fugir desse destino comum, mas ele encontrar-nos-á.

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