Avô


Adélia Pires

O meu avô João era o ídolo dos meus quatro anos.
Fazia magia com um relógio de bolso e com ramos de oliveira. Com essa magia encontrava água e nasciam poços.
Como era cantoneiro, plantava árvores ao longo das estradas e muitos anos depois da sua partida elas ainda lá estão.
Monumentos à sua memória.
Pedaços do tempo da sua vida.
Pedaços de mim porque as amo em memória dele.
Quando tinha tempo, amanhava um Chão, onde uma macieira esperava pacientemente até Setembro para dar à luz umas maçãs rosadas, que o meu avô guardava numa cesta e ficavam libertar perfume na frescura silenciosa da loja.
No quintal da casa fez um jardim de canteiros, onde antes da Primavera se anunciar, combatia os trevos de jardim, plantava bolbos de narcisos e túlipas, ajeitava os arbustos dos jasmins, aparava as “rapaziadas”, arranjava sombra para as hortenses, semeava amores-perfeitos e plantava açucenas. 
Junto à cozinha erguia-se imponente uma laranjeira que paria laranjas em Agosto. Todas verdes por fora e esbranquiçadas por dentro, mas que eram doces, sumarentas e refrescavam a canícula dos Verões.
Quando terminava a apanha da azeitona levava-me com ele ao lagar e torrava fatias de pão sovado na caldeira quente, antes de lhes deitar por cima um fio de azeite novo para a prova. Chamava-lhes tibornas, e eu sentia-me orgulhosa por partilhar com ele aquele momento reservado aos homens adultos que usavam chapéu e trocavam impressões sobre a qualidade das azeitonas do ano.
Uns dias antes do Natal, levava-me com ele a apanhar musgo e folhas secas para o presépio e deixava-me sempre colocar o menino Jesus na cama amarela de barro.
Nas noites frias, sentava-me à lareira sentada no trapeço de cortiça que fizera para mim e ouvia-o contar muitas histórias sobre mouras encantadas, serpentes com asas e cabelo, tesouros enterrados e um rei visigodo chamado Wamba que vivera há muitos anos e mandara nas gentes, terras e animais da região.
Quanto o meu avô desapareceu, fê-lo de repente, sem aviso.
Encontraram-no caído aos pés da macieira, ainda vivo e levaram-no para o hospital onde acabou por morrer.
Disseram depois com ar consternado que tinha o coração grande demais, como se isso fosse um defeito e não uma enorme qualidade.
No ano a seguir à sua morte a macieira secou e a laranjeira começou a azedar as laranjas. As toupeiras roeram os bolbos das túlipas e dos narcisos, os amores-perfeitos adormeceram na cama de trevos de jardim que tomou conta dos canteiros, onde apenas as rapaziadas e os jasmins continuaram a florir.
Desde então a imagem do seu rosto foi-se desvanecendo, mas as histórias que me contava colaram-se-me à pele e o cheiro do sabão azul e branco com que fazia a barba recorda-me os seus abraços. As árvores que plantou resistem ao tempo e saúdam-me quando regresso à sua casa, que agora também é minha. Quando as noites são quentes deito-me no chão do terraço que exala um calor seco e entra por mim dentro, imune a mais de quarenta anos de advertências maternas.
É então que olho para cima e vejo uma galáxia de estrelas de intermitências brilhantes. Então, escolho uma e murmuro o seu nome com a certeza de que as árvores na berma da estrada fazem o mesmo.

Comments

  1. MAAARRRAAAVVIIIILHOOOOSSSO……

  2. Jorge Pinheiro says:

    Abençoadas memórias. Que sorte ter vivido uma infância assim.

  3. Muito bem escrito, e comovente. Sou avó e meu marido avô ele também, se parece com este avô rural cheio de coisas do jardim e da natureza, babado com as suas duas netinhas…

  4. Rui Antunes says:

    Amor em estado puro!
    Esta a delir se pelo seu avo,so uma grande alma pode sentir isso.
    Bem haja.

  5. barreira012 says:

    …a lei da natureza…..no seu esplendor…………..!!!!!!

  6. Konigvs says:

    Fez-me lembrar um pouco do meu avô pois tenho várias árvores associadas a ele. Uma delas, precisamente uma laranjeira, que foi do alporque mais fraquinho que ele fez da sua própria laranjeira, já muito antiga que tinha na sua casa, e hoje, dos três alporques que fez, o meu, por diferentes motivos, foi o único que sobreviveu e se transformou numa enorme árvore adulta, e que eu acredito que é a árvore que dá, em maio, as melhores laranjas do mundo.
    E ainda me lembro de quando ele me trouxe um magnoreiro (nunca percebi porque magnório está no dicionário e magnoreiro não!) com uns 20cm e que eu plantei há vinte anos, e hoje já é uma grande árvore, de onde não aproveito frutos pois está com o pedrado, mas que os gaios, que não são tão esquisitos como nós, os comem. Eu aproveito-lhe a valiosa sombra.
    Do meu avô herdei unicamente a sua carteira, linda, com imensos anos, de quando ele era novo, toda trabalhada em pele (e que estou a pensar eu mesmo começar a usá-la) e um livro de educação para adultos, de quando ele mesmo começou a aprender a ler, com propaganda salazarista. Guardo-os com muito carinho, mas sem dúvida que a melhor herança foi o gosto que tenho pelas coisas da natureza. E o meu maior orgulho é dizerem-me que sou muito parecido com ele. Mesmo quando a minha mãe me diz: “pareces o teu avô, secas uma figueira”!

  7. muitos parabens pelo artigo…excelentes recordações que me fazem lembrar alguns (poucos) episodios felizes da minha infancia.

  8. Anónimo says:

    A malta urbana delira com a malta rural.
    Mas tratam-nos como escravos.
    Tratam-nos como figurantes, num cenário rural. Muito romântico.
    Conhecem aquela anedota do alentejano? Pois é, os rurais são uma cambada de alentejanos.

    Mas como se lê, os urbanos são muito civilizados e sensíveis. Ou seja, pensam que são. Mas só no papel.

    Quando os urbanos chegam ao campo, exigem estradas alcatroadas, energia, telefone, Internet, água potável, e enchem tudo com insecticida e veneno, para matar tudo, reino vegetal e animal, para o campo ficar como a casa deles lá na cidade, Ou seja, morto e estéril.
    Portanto, a primeira coisa que os urbanos fazem é darem cabo do campo, e que se lixem os rurais, esses “alentejanos” que desde sempre lhes limpam a porcaria, lhes cavam os quintais, e os alimentam.

    Diz-me espelho meu, quem é mais civilizado e sensível do que eu?

    • Adélia Maria Antunes Pires says:

      Alguma “malta urbana” na qual me encontro incluída, tem muito orgulho das suas raízes, dos seus avós, dos pais e dos sacrifícios que estes fizeram para que hoje a descendência tenha acesso a luxos com que eles nunca sonharam.
      Este texto é uma homenagem ao meu avô João e ao amor que sempre senti por ele. Lamento se isso o/a incomoda (desculpe mas fiquei sem perceber o seu género, e sendo eu uma pessoa civilizada e sensível não quero ofender ninguém).
      Quando chego ao campo não tenho carrego exigências comigo. Levo apenas a esperança de que as pessoas que me são queridas tenham a oportunidade de viver melhor do que no tempo dos meus avós. E uma alegria imensa em revê-las, abraçá-las, conversar e aprender com elas.
      Tenho pena se a sua experiência com os “rurais”, sejam eles alentejanos, ou não. não seja assim. Digo isto porque me parece que seja tão rural como eu.
      Desejo-lhe uma vida feliz e quando for ao campo respire fundo, faça uma caminhada, abrace as pessoas, converse com elas e quando a noite cair verá que se sentirá mais feliz.

    • Anónimo says:

      A “experiência” com os rurais não podia ser melhor.
      A “experiência” com os urbanos, os tais que vivem num mundo romântico, virtual, e estéril, e que na realidade, quando vão ao campo o destroem; seja quando vão à caça; seja quando fazem a casa de férias; seja quando atiram o cigarro janela fora; seja quando fazem os ralies; seja quando deixam os velhos abandonados, ou os abandonam entregues à Misericórdia; seja quando lhes fecham todos os serviços públicos, a que têm direito; seja quando olham para o mundo rural como um bom investimento, mera fonte de rendimentos; seja quando, na economia reinante, desertificam o mundo rural à custa de tratar os rurais como animais dispensáveis, porque só dão prejuízo.
      De facto, muito romântico.

      • anónimo says:

        Adélia Pires
        Peço que desculpe a minha rabugice e demagogia. Veio ao de cima com a leitura do seu texto, mas não tem nada a ver com o seu texto.
        Uma das recordações mais antigas e mais queridas, foi o tempo em que, dos 6 aos 12 anos, seguia o meu avô pela quinta, a podar as árvores, a abrir e fechar as comportas das “regadeiras”, a levar água às caldeiras, a comer a fruta acabada de apanhar, a apanhar caracóis nas alcachofras para a minha avó deliciar os patos e os gansos; era a festa, o colorido, e a fartura, no altura das colheitas de cada espécie.
        O que me revolta é esta cultura de selvagens; É esta governação corrupta, e suicida; É este poder urbano, desumano, ignorante e prepotente; É este povo submisso, roubado de todas as formas, feito carne para canhão.

        • Adélia Maria Antunes Pires says:

          Creio que isso é algo que revolta todas as pessoas de bem. Faz bem em dizer o que lhe vai na alma, mas confesso que me senti visada nos seus comentários, ainda que sem saber o porquê. Obrigada pela explicação.
          Quanto às suas recordações infantis revejo-me nelas. Também comi muita fruta acabada de apanhar da árvore e aprendi muita coisa com os meus avós. Tenho pena de não ter aprendido mais e recordo-os com muito carinho, a eles e aos momentos que passámos juntos.
          A infância deixa-nos as memórias mais perenes. Ainda bem que as suas taambém são boas.

          • anónimo says:

            Lamento não ter podido oferecer aos meus filhos algumas das experiências que tive oportunidade de viver. Pelo menos passo-lhes o testemunho, a memória, e alguns juízos de valor.
            Bem haja Adélia.

  9. Anasir says:

    Gostei muito da sua homenagem ao avô João. Infelizmente, não tive a sorte de conhecer os meus, mas desejo a todos recordações da infância como as suas.

  10. O meu avô materno morreu no ano em que eu nasci e o meu avô paterno era filho de pai incógnito ,de pouco consigo falar deles, mas respeito e admiro todos os avós ,sejam eles citadinos ou rurais, porque são os antepassados desta “bela” juventude que hoje nos governa !!! Muito obrigado pela bela recordação que partilhou !!! Espero que os meus netos se recordem do amor e cuidado que tenho tido com todos eles !!!

  11. Manuel Rocha says:

    Gostei muito do seu texto

    Como a invejo. Não tive a sorte de ter avós, nem por parte do pai nem da mãe. Mas tenho a certeza que fizeram muita falta à minha formação, enquanto criança.
    Mas isso foi há sessenta e tal anos. Como não tenho netos, não sei agora como esta geração que tem agora 4 ou 5 anos, lida com os avós e se daqui a 40 anos ainda vão escrever textos carinhosos como o que escreveu

    • Adélia Maria Antunes Pires says:

      Obrigada pelas suas palavras Manuel.
      Penso que a forma como a geração que refere recordará os avós no futuro dependerá, e muito, da forma como os avós de hoje criarem essas lembranças.
      E se essas lembranças forem afectos e não bens materiais guardam-se com mais facilidade nos bolsos do coração.

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