Os ramais ferroviários e desenvolvimento do interior.

(Jorge Cruz, Autor convidado)

Cuidado. Vem aí mais um contributo dos xuxalistas para o desenvolvimento do País. Anunciado com a pompa do costume, chamam-lhe (é só mais um) plano ferroviário nacional e pretende voltar atrás mais de 50 anos no tempo, anunciando a ligação de todas as capitais de distrito. Algo que os próprios haviam eliminado na década do 80 do seculo passado. Convém de passagem lembrar que os distritos foram uma invenção do estado novo, uma tentativa, com quase 100 anos, de querer regionalizar o país, mas que nunca chegou a ser implementada. No entanto, os distritos continuam a pairar por aí, pelo menos nas cabeças dos ministros do estado xuxalista. Conseguiram (em boa hora) acabar com a inutilidade dos governos civis, mas os distritos é que não se percebe porque ainda existem, para além de eternizarem aqueles mapas amarelentos que existiam nas escolas primárias pendurados num prego ferrugento mesmo ao lado das fotografias a preto e branco do Salazar e do Thomaz. 

Perante mais esta ameaça de plano ferroviário, recordemo-nos que foi um governo xuxalista que começou a desmantelar parte da rede ferroviária do tempo da ditadura, anulando milhares de kms de ramais que ligavam, justamente, o interior do País, e mantinham a ligação às tais capitais de distrito. Era precisamente o interior do território quem mais precisava dessas ligações. Depois, ainda há quem se admire por a província estar despovoada, abandonada e sem qualquer sinal de desenvolvimento. 

A partir de 1986, enquanto por todo o mundo de construía e modernizava cada vez mais as linhas de comboios, Portugal, aproveitando os apoios europeus, foi encerrando linhas e estações por todo o lado, para promover a construção de estradas e autoestradas, a maior parte delas hoje desertas e inúteis porque foram mal desenhadas. Mas serviram para enriquecer muitas empresas de construção, que continuam por aí a distribuir dinheiro e a dar uma ajudinha nas campanhas eleitorais. 

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Hoje, morreu a minha vizinha Ana Luíza.

Jorge Cruz

(Texto publicado na edição de Fevereiro de 2021 do Jornal “Palavra”, Mensal da paróquia de Reguengos De Monsaraz).                                                            

Vincent van Gogh, Woman with a Mourning Shawl [https://bit.ly/3t4tDlZ]

Hoje, 7 de Fevereiro de 2021, morreu a minha vizinha Ana Luiza. Era a última das vizinhas da rua das Áreas de Baixo de quando para lá fui morar. A vizinha Ana Luiza era viúva do vizinho Miguel Tareja. O vizinho Miguel Tareja era escriturário no Zé Rosa, que era um senhor que tinha muitos negócios em Reguengos, entre os quais a loja dos rapazes que ficava no prédio onde depois foi o banco Espírito Santo, hoje Banco Novo. O vizinho Miguel Tareja era do Sporting e gostava muito de futebol. Foi ele quem me ensinou o que era um “offside”. E gostava muito de canários. Tinha uma casa cheia com canários, a que chamava a casa dos canários. No quintal tinha um porco e uma cisterna com uma bomba manual de tirar água. A vizinha Ana Luísa tinha muito medo das correntes de ar e do frio. Quando, às vezes, iam à noite à nossa casa ver televisão, de inverno, a vizinha Ana Luísa quando saia embrulhava-se toda com um xaile pela cabeça por causa do frio. A gente dizia que parecia um avejão. A vizinha Ana Luiza e o Vizinho Miguel Tareja só foram viver para a rua um pouco depois de eu já lá viver. Antes, naquela casa que fazia esquina com a rua de Mourão, viviam duas irmãs, já velhas, a que chamavam as “cabecinhas de rola”. Tinham muitos gatos.

Mais acima vivia o vizinho Miguel, que era casado com a vizinha Maria Antónia, que morreu muito nova. O vizinho Miguel era choffeur de camionetas. 

A vizinha Catarina, que era costureira, e o vizinho Lino que era canteiro de granito, viviam na casa seguinte. Era o nº 10. Mais tarde, o vizinho Lino emigrou para França, e quando voltou, já reformado, ia à pesca, numa mobillete azul que trouxera de França. Ainda fui com o vizinho Lino à pesca algumas vezes. Era um bom pescador. 

Sempre a subir a rua, viviam a vizinha Ilda e o Vizinho Joaquim Barbeiro, que era barbeiro. Nessa altura, em que eu era pequenino, tinham uma vaca no quintal para dar leite. Ainda não havia leite de pacotes, e o leite era vendido à porta. Os leiteiros traziam um cântaro de zinco e um receptáculo com as medidas, dos quartilhos e meios quartilhos até ao litro.

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