Os ramais ferroviários e desenvolvimento do interior.

(Jorge Cruz, Autor convidado)

Cuidado. Vem aí mais um contributo dos xuxalistas para o desenvolvimento do País. Anunciado com a pompa do costume, chamam-lhe (é só mais um) plano ferroviário nacional e pretende voltar atrás mais de 50 anos no tempo, anunciando a ligação de todas as capitais de distrito. Algo que os próprios haviam eliminado na década do 80 do seculo passado. Convém de passagem lembrar que os distritos foram uma invenção do estado novo, uma tentativa, com quase 100 anos, de querer regionalizar o país, mas que nunca chegou a ser implementada. No entanto, os distritos continuam a pairar por aí, pelo menos nas cabeças dos ministros do estado xuxalista. Conseguiram (em boa hora) acabar com a inutilidade dos governos civis, mas os distritos é que não se percebe porque ainda existem, para além de eternizarem aqueles mapas amarelentos que existiam nas escolas primárias pendurados num prego ferrugento mesmo ao lado das fotografias a preto e branco do Salazar e do Thomaz. 

Perante mais esta ameaça de plano ferroviário, recordemo-nos que foi um governo xuxalista que começou a desmantelar parte da rede ferroviária do tempo da ditadura, anulando milhares de kms de ramais que ligavam, justamente, o interior do País, e mantinham a ligação às tais capitais de distrito. Era precisamente o interior do território quem mais precisava dessas ligações. Depois, ainda há quem se admire por a província estar despovoada, abandonada e sem qualquer sinal de desenvolvimento. 

A partir de 1986, enquanto por todo o mundo de construía e modernizava cada vez mais as linhas de comboios, Portugal, aproveitando os apoios europeus, foi encerrando linhas e estações por todo o lado, para promover a construção de estradas e autoestradas, a maior parte delas hoje desertas e inúteis porque foram mal desenhadas. Mas serviram para enriquecer muitas empresas de construção, que continuam por aí a distribuir dinheiro e a dar uma ajudinha nas campanhas eleitorais. 

Os milhões de milhões que têm escorrido pelo interior do país (salvo raríssimas excepções), foram na sua maioria esturrados em obras desnecessárias como rotundas, circulares, fontes luminosas, campos de futebol sem clubes nem formação, cinemas sem filmes, bibliotecas sem livros e centros culturais sem cultura; ou em obras completamente fora do contexto e desintegradas de qualquer politica pensada a sério. Foram apenas obras pensadas para ganhar eleições. E os Portugas pelam-se por ser enganados, e adoram inaugurações. 

A terra onde vivo, Reguengos de Monsaraz, foi uma das vilas que perdeu nessa altura o seu ramal de comboio que ligava à tal sede de distrito, Évora, em troca de nada. Foi um dos contributos dos autarcas xuxalistas eleitos no pós 25 de Abril, que foram recentemente condecorados pelo partido da mãozinha, na sua festa de aniversário. Neste país é costume condecorar e homenagear quem mais mal fez ao país e à causa pública. Mas como ganharam eleições, o partido entende que foi bom para eles próprios e vá de medalhar. Em troca dos carris e do encerro do ramal, vieram para este fim do mundo encurralado contra a fronteira, uns cheques para pagar umas dividas, e nem uma estrada decente fizeram para ir para qualquer lado que fosse, quanto mais para a sede do distrito. Em quarenta e muitos anos fomos, a cada ano, ficando mais longe do mundo. Só agora, há pouco tempo, melhoraram um bocadinho da estrada para Évora com uma ponte nova sobre o Degebe onde antes só cabia uma viatura de cada vez. Exactamente como há 100 anos, quando ainda quase não havia automóveis. Mas, mesmo assim, foi preciso ser o município de Évora a fazer a obra, porque a travessia se situa no seu concelho. A única intervenção do município de Reguengos foi ficar na fotografia e em bicos de pés, como de costume.

Tenhamos, portanto, medo do novo plano do ministro que já tem alguma experiência em destruição de transporte publico, porque quem já se escaldou, até os gaspachos assopra. 

Comments

  1. Luís Lavoura says:

    foi encerrando linhas e estações por todo o lado, para promover a construção de estradas e autoestradas, a maior parte delas hoje desertas e inúteis porque foram mal desenhadas.

    Eu diria que as linhas e estações de caminho de ferro é que foram mal desenhadas e por isso estavam desertas e inúteis. Boa parte das estações situam-se longe do centro das localidades que são supostas servir, exigindo transporte automóvel para serem alcançadas. Aliás, boa parte das cidades e vilas portuguesas situa-se em montes que dificilmente ou de forma nenhuma podem ser trepados por comboios.

    É muito bonito falar de comboios num país do norte da Europa, que é totalmente plano. Portugal tem uma orografia que não se compadece com o caminho de ferro.

    • Pimba! says:

      Estava a falar bem, mas espatifou-se pelo caminho.
      Pois é, orografia plana tem a Suíc,a, ou a Áustria, ou mesmo a Itália.

      • Luís Lavoura says:

        A Suíça tem, de facto, uma orografia plana. Eu conheço bem esse país. Tem amplos vales ou planaltos praticamente planos. É claro que a Suíça tem montanhas muito altas, mas também tem extensos vales muito planos.
        As estações da maior parte das cidades suíças importantes situam-se bem no centro delas, pois essas cidades têm regiões planas e não se situam sobre montes.
        Da Áustria e da Itália não falo, por serem países que conheço menos bem.

    • Paulo Marques says:

      E o país compadece-se em ser feito à volta de um carro para cada um, à revelia dos acordos ambientais que assinamos, do caos no trânsito, e da poluição nas cidades?

    • jorge paulo sanches da cruz says:

      Pois, o Alentejo tem esse problema das montanhas…

  2. Xuxa says:

    Mais um ‘faxista’… tanta besteira escrita. Indique os Xuxas da ditadura e os de 1986… artigo sem sentido.

  3. J. M. Freitas says:

    Esta tendência para tratar por apelidos depreciativos (xuxialistas, faxistas, comunas, esquerdalhos, ditreitolas, etc) os que têm opinião distinta da nossa sempre se me afigurou detestável. Foi uma mania que nos ficou e que foi (penso eu) inaugurada, ou pelo menos muito reforçada, pela PIDE. Não gosto, prefiro tratar com o devido respeito quem pensa de modo diferente do meu. Mas isto está muito generalizado entre nós.

    • Filipe Bastos says:

      O seu respeito por outras opiniões é… respeitável, mas nem sempre se trata de depreciar o adversário: ao dizer ‘xuxalista’ estamos a identificar um tipo preciso de pseudo-socialista não tanto por pensar de forma diferente, mas por ser um chulo, um canalha. É como chamar mânfio a um mafioso.

      Ou como chamar Laranja Podre ao PSD e Partido Sucateiro ao PS: limitamo-nos a descrever a realidade; no 1º caso de forma simbólica, no 2º de forma literal.

    • Paulo Marques says:

      Seguirá o caminho dos outros supostos insultos, algo para usar com orgulho de quem não segue o apoio à destruição criativa.

  4. JgMenos says:

    É só fumaça …e nota para derreter!
    Uma visita à linha Porto-Braga dá para ver aldeias com cais de 300 mts para comboios que não ultrapassam os 150 mts e que talvez embarquem trinta pessoas em dia de romaria na região, num país em que a população diminui.

    • POIS! says:

      Pois é!

      Nisso Salazar dava o exemplo! Para evitar despesas ao povo, que era pobrezinho, ia a pé pela linha!

      Ah! Sim!!! Desde Lisboa a Santa Comba! O Rosa Casaco, que ia com ele para lhe ensinar o caminho e manobrar as agulhas, até lhe tirou uma foto que o prova!

    • Paulo Marques says:

      Se calhar por isso é que é preciso um plano, e de nada serviram os incentivos pifios para o interior sem capacidade de deslocar pessoas e mercadorias.

  5. Pimba! says:

    Este artigo enferma de tanta imprecisão que dá dó!

    Para comec,ar, isto näo é “mais um plano ferroviário nacional”, porque até agora NÄO HOUVE nenhum plano ferroviário nacional, apenas uns bitaites aqui e ali.

    Depois, os distritos foram invenção do Liberalismo em 1835, cem anos depois já eram supérfluos, o Botas queria era províncias, mas nunca as implementou para além dos “mapas amarelentos que existiam nas escolas primárias”.

    O Soares até pode ter fechado um ou outro ramal, mas quem fechou ferrovias a torto e a direito (40% da rede) foi o Cavaco, e näo consta que fosse “xuxalista”.

    Em Viseu, o povo pediu o fim da impecilho do comboio;
    Em Estremoz, o povo pediu o fim do impecilho do comboio (em vez de retirar curvas à linha e modernizá-la, e continuá-la para Espanha);
    Em Braganc,a, o povo premiou quem lhes roubou o comboio pela calada da noite.

    Este convidado até pode ter alguma razäo, mas é muito desmemoriado e confundido…

  6. jorge paulo sanches da cruz says:

    Falando de imprecisões, em 1836 foram criadas as províncias, e eram só nove, os 18 distritos é outra coisa…

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