José Hermano Saraiva

Morreu o historiador. Uma oportunidade de o conhecer melhor, não obstante os «baldes de àgua fria» que às vezes apanhamos por sermos novos e não sabermos «da missa metade».

Aqui fica um exemplo de como sabemos muito pouco da nossa História (admito, mas quero aprender, com humildade).

Foi também advogado, professor do ensino liceal e ministro da Educação. É sobre este cargo que fui à procura de informação na História do Ensino em Portugal de Rómulo de Carvalho (António Gedeão), editada pela F.C.G., obra de referência: J. H. Saraiva esteve no poder enquanto ministro da Educação durante ano e meio, sucedendo a Galvão Teles.  Segundo Carvalho, Saraiva viu-se envolvido numa luta incómoda com a Academia de Coimbra:”É uma história quase anedótica mas que merece ser citada, pois teve papel preponderante no processo de renovação do ensino que então se pretendia executar.”

Um episódio triste, uma vez que foram feitas detenções a estudantes (Alberto Martins – ex-Ministro da Justiça entre 2009 e 2011-, o estudante que contestou publicamente o Governo de que José Hermano Saraiva fazia parte), violências foram praticadas, proibições aos estudantes de continuarem a estudar na Universidade, etc.

Por aquilo que me deu conhecer, J.H.S. terá, em Abril de 1969, reorganizado o Instituto de Meios Audiovisuais, de que fazia parte a Telescola. Não me consta nada mais de significativo, a partir da leitura daquela obra.

Apesar do episódio que Rómulo de Carvalho refere, não deixo de admirar o comunicador e o amante da nossa História, que foi José Hermano Saraiva. Isso ainda não vi em mais ninguém…Teremos outro?

Um homem não é só o seu passado!

As interpretações dadas, na época, às causas do terremoto de 1 de Novembro de 1755 #3

Comunicação apresentada à Classe de Ciências da Academia das Ciências de Lisboa, na sessão de 29 de Outubro de 1987 pelo Académico efectivo Rómulo de Carvalho (também conhecido como António Gedeão).
Continuação daqui

Analisando as opiniões dos diversos autores setecentistas sobre a génese dos terramotos, recolhe-se a impressão de que todos eles dizem a mesma coisa embora, na aparência, se mostrem em discordância entre si, desfavorecendo certos pormenores e enaltecendo outros. Na verdade reconhece-se que é o fogo que em todas as teorias expostas se apresenta como o elemento indispensável à eclosão do abalo de terra, ou actuando directamente ou inflamando as terras combustíveis ou vaporizando a água ou dilatando o ar. Acreditava-se na existência de um fogo, contido nas tais cavernas denominadas pirofilácios, que poderia comunicar, através de uma rede de canais subterrâneos, com as cavernas onde se continham os outros elementos, e nelas provocar os seus efeitos. Mas, que poderia ser esse fogo? Não seria ele o próprio Inferno de que fala a Sagrada Escritura? Veríssimo de Mendonça, irmão do autor da História Universal dos Terremotos, não tem hesitações a esse respeito: «He sem duvida,» – escreve – «que no centro da terra há o fogo do Inferno, que tantas vezes nos lembra a Escriptura Sagrada. E ainda que este fogo seja destinado para o tormento das almas dos condemnados, e eterna satisfação das Divinas offensas, sempre he verdadeiro fogo, e da mesma natureza, que o elementar; bem que pela matéria sulphurea, e betuminoza seja mais denso, e abrazador». [Read more…]

As interpretações dadas, na época , às causas do terremoto de 1 de Novembro de 1755 #2

Comunicação apresentada à Classe de Ciências da Academia das Ciências de Lisboa, na sessão de 29 de Outubro de 1987 pelo Académico efectivo Rómulo de Carvalho (também conhecido como António Gedeão).

Continuação daqui

O terramoto de 1755 deu origem a grande número de escritos que imediatamente vieram a público e em que os seus autores procuraram interpretar as causas do acontecimento. É interessante notar-se que tendo a cidade de Lisboa ficado praticamente destruída, logo as tipografias surgiram do caos para se entregarem à composição e à impressão dos textos que lhes eram apresentados para o efeito. Não é uma só mas diversas oficinas tipográficas lisboetas que recomeçam de imediato o seu labor tão tragicamente interrompido, o que se explica pelo hábil aproveitamento de uma oportunidade excepcional de comerciar colocando nas mãos do público, fortemente sensibilizado, notícias do terramoto. Poderíamos citar cerca de quatro dezenas de trabalhos escritos sobre o sismo, publicados em 1756. O interesse público por tais trabalhos prolongou-se até ao fim da década dos anos sessenta. [Read more…]

As interpretações dadas, na época , às causas do terremoto de 1 de Novembro de 1755 #1

Comunicação apresentada à Classe de Ciências da Academia das Ciências de Lisboa, na sessão de 29 de Outubro de 1987 pelo Académico efectivo Rómulo de Carvalho (também conhecido como António Gedeão).

Em 1 de Novembro de 1755, pelas nove horas e três quartos da manhã, começaram a sentir os habitantes de Lisboa, com espanto e angústia, que o chão lhes tremia por debaixo dos pés. O tremor fora antecedido de um ruído tumultuoso que vinha do interior da terra e que, por si só, não seria assustador, de acordo com a descrição de um contemporâneo que o comparou ao «de muitos coches correndo». E acrescenta: «de modo que os que estávamos na Igreja da Senhora das Necessidades, onde os Soberanos costumão ir aos sabbados, julgámos que chegava Sua Majestade».

Em breves instantes o tremor, que se iniciara por uma sacudidela lenta, cresceu com grande intensidade. As paredes dos edifícios começaram a dar de si, a estalar, a abrir fendas e em breve se desmoronaram abatendo-se sobre as pessoas que alucinadamente fugiam de suas casas, correndo pelas ruas. Era um sábado, e dia santificado, dia de Todos-os-Santos. Por ser dia de especial devoção, e por ser de manhã, estavam as igrejas a transbordar de fiéis que assistiam às missas, o que foi causa de grande mortandade. As pedras das abóbadas dos templos, as colunas dos altares, as paredes em redor, abateram-se abruptamente sobre as pessoas desvairadas e indefesas, erguendo nuvens de poeira que sufocavam os poucos que ainda conseguiam fugir a tempo. [Read more…]