As interpretações dadas, na época, às causas do terremoto de 1 de Novembro de 1755 #3

Comunicação apresentada à Classe de Ciências da Academia das Ciências de Lisboa, na sessão de 29 de Outubro de 1987 pelo Académico efectivo Rómulo de Carvalho (também conhecido como António Gedeão).
Continuação daqui

Analisando as opiniões dos diversos autores setecentistas sobre a génese dos terramotos, recolhe-se a impressão de que todos eles dizem a mesma coisa embora, na aparência, se mostrem em discordância entre si, desfavorecendo certos pormenores e enaltecendo outros. Na verdade reconhece-se que é o fogo que em todas as teorias expostas se apresenta como o elemento indispensável à eclosão do abalo de terra, ou actuando directamente ou inflamando as terras combustíveis ou vaporizando a água ou dilatando o ar. Acreditava-se na existência de um fogo, contido nas tais cavernas denominadas pirofilácios, que poderia comunicar, através de uma rede de canais subterrâneos, com as cavernas onde se continham os outros elementos, e nelas provocar os seus efeitos. Mas, que poderia ser esse fogo? Não seria ele o próprio Inferno de que fala a Sagrada Escritura? Veríssimo de Mendonça, irmão do autor da História Universal dos Terremotos, não tem hesitações a esse respeito: «He sem duvida,» – escreve – «que no centro da terra há o fogo do Inferno, que tantas vezes nos lembra a Escriptura Sagrada. E ainda que este fogo seja destinado para o tormento das almas dos condemnados, e eterna satisfação das Divinas offensas, sempre he verdadeiro fogo, e da mesma natureza, que o elementar; bem que pela matéria sulphurea, e betuminoza seja mais denso, e abrazador».

Noutra perspectiva, o já citado Duarte Rebelo de Saldanha, médico de profissão, sentiu bem a dificuldade de estabelecer um conceito satisfatório de fogo: «Conceptuar o intrínseco, e essencial constitutivo do fogo» —escreve aquele autor—, «sendo taõ claro á vista, he bem escuro para o entendimento». Prefere, de tudo quanto tem lido ou ouvido a esse respeito, o sistema defendido por Pierre Gassendi (1592-1652) que considera o fogo constituído pela «união de muitos átomos redondos, subtilíssimos, e movidos por seu próprio ímpeto com exacta celeridade». «Estes átomos libertados, e juntos em grande numero constituem as partes, e o todo, que he igneo, e deve constar das sulfúreas em mais quantidade, e de partes nitrozas em menos;» […]. «Estas partículas sulfureo-nitrozas unidas, e postas em acto saõ o que vulgarmente chamaõ Elemento do fogo» […]. «Este fogo que se nutre nas entranhas da terra he um fogo effectivo, e não imaginário;» […] . É este elemento —escreve outro comentador— «que communicandose por occultos conductos e algumas cavernas cheyas de enxofre, salitre, carvaõ, salarmoniaco, &c. as inflamma de tal sorte, que accendendo-se promptamente hum fogo impetuoso, converte este quasi instantaneamente em vento aquellas matérias salnitrosas;» […]. «Impélle, e commóve com fúria os fundamentos dos montes; e abrindo brecha pela parte, que menos lhe resiste, rompe com tudo o que se lhe oppôem, até alcançar sua liberdade natural, de que se origina o tremor, e estremecimento da terra, que em semelhantes casos com tanto horror se percebe» .

Os diversos autores até aqui mencionados, que tornaram pública as suas opiniões sobre a origem dos terramotos, eram observadores estudiosos, mais ou menos credenciados, mas não falavam de cátedra. Nas escolas, porém, as teorias que se expunham sobre o assunto em causa, viam a questão de modo análogo. Os mestres eram, desde há muito, os padres da Companhia de Jesus, e os textos dos manuais que serviam de estudo respeitavam a tradição escolástica segundo a qual se atribuía a causa dos terramotos ao «hálito ou espirito igneo, que nas entranhas da terra clausurado, com toda a força, conato, e impulso, pretende desprender-se do claustro em que se acha recluzo, intentando espaço mais amplo, e dilatado; e encontrando a resistência do obstáculo, que lhe fazem os lados, ou superfície do corpo terrestre, no repetido acesso, e retrocesso que faz, dimove a terra com tanto ímpeto, quanto se tem experimentado na honrosa impressão deste protentoso metheoro». «Soares Lusitano, e o eruditíssimo P. [Padre] Cordeiro» — ambos mestres jesuítas — «tem por indubitável, que no centro da terra ha multiplicidade de receptaculos, que se chamaõ Pyrofilacios, porque nelles se conserva o fogo communicado, e diffundido por todas as partes do Globo terrá queo;» […]. A favor da sua teoria apresentavam os jesuítas «vários experimentos artificiosamente complicados por engenho, e industria dos Romanos; principalmente daquellas alampadas, que se conservarão perpetuamente accezas dentro dos mármores dos sepulchros, em que se depositavaõ os seus antepassados». Assim, concluem aqueles mestres, se «por industria, e arte humana se pôde conservar debaixo da terra perpetuamente aceeza a luz do fogo: logo também o mesmo fogo, se conservará com mais razão perpetuado no centro da terra por beneficio, e industria da natureza» […]. «O alimento perpetuo deste elemento he o grande cumulo de partículas de betume, enxofre, e de nitro, que nas occultas recameras, de que se compõem o Globo terrestre lhe está continuamente subministrando a mesma natureza por pabulo:» […].

Quando as exalações dessas combustões subterrâneas atingem a superfície da Terra e dela se escapam através de fendas que encontrem, sobem na atmosfera, ascendem até grande altura e vão-se incorporar nas nuvens carregando-as de partículas betuminosas, sulfúreas e nitrosas. As nuvens passam a comportar-se como as cavernas do interior da Terra dando então origem aos relâmpagos, aos trovões e aos raios. Ribeiro Sanches amplia largamente esta visão e não tem dúvidas a tal respeito quando afirma nas suas Consideraçoins sobre os Terremotos: «As mesmas causas dos terremotos e dos Volcanos saõ as mesmas das auroras boreais, das estrelas cadentes, dos globos de fogo, dos relâm pagos, dos trovoins, e dos rayos. Todos estes meteoros provem do enxofre, e das matérias oleosas que se exhalaô das plantas aromáticas, dos animais viventes, ou mortos, dos bitumes, das fontes sulfúreas, que chamamos caldas, dos volcanos, nevoeyros, da defla gração de tantos metais, e minerais; todas estas exhalaçoins vem aparar na atmosfera; e como nella existaô infinidade de vapores, de que se formão as nuvens, nestas ficaô encerradas as exhalaçoins sulfúreas, como nas cavernas no interior da terra:» […].

No terramoto de 1 de Novembro de 1755 as águas do Tejo invadiram com grande ímpeto toda a zona costeira da cidade. O movimento das águas e os tremores não foram simultâneos: primeiro tremeu a terra; depois subiram as águas. O fenómeno repetiu-se analogamente em cada um dos três grandes abalos que se sentiram naquele terrível dia.

Teodoro de Almeida, no diálogo que mantém com os seus interlocutores na Recreação Filosófica, explica aquele movimento das águas com seus habituais cuidados, apresentando a explicação como «pura conjectura». Uma vez desencadeada a «grande inflammação nas cavernas subterrâneas, ou grande fermentação dos mineraes,» […] «todo o terreno superior se levanta para cima». A terra fica «como inchada, intumescida, e foufa; mas serenando a inflammação, vai outra vez assentando no seu antigo lugar» […]. «Se o terreno no tempo do tremor se levantar 20 palmos, o mar fugirá tanto, quanto he preciso para descer vinte palmos;» […] «porém descendo o terreno para o seu assento, tornarão as aguas a buscar o seu antigo lugar;» […]. Mas, «como as aguas em concebendo hum movimento, vaõ muito alem do que devem ir por conta do equilíbrio», ficarão a balancear com amplitudes cada vez menores até se aquietarem de todo.

Para se fazer compreender melhor Teodoro de Almeida assemelha o caso considerado ao de um algudar com água que se fizesse inclinar levantando-o um pouco com as mãos apenas por uma pequena zona do seu bordo. Assim «a agua ganhará balanço, e fugirá da borda que se levantou; mas em se assentando o alguidar, no segundo balanço a agua naõ só chegará ao lugar antigo, mas passará muito avante, e trasbordará por fora. Assim considero eu o Mar, como hum tanque immenso de agua; que muito he logo que, levantando-se o terreno sobre as cavernas que ardem, e tornando ao seu assento, as aguas ganhem balanço, ora fugindo, ora inundando, até se accomodarem?».

O facto de a cidade de Lisboa se encontrar situada na margem de um grande rio e nas vizinhanças do mar só por si justificaria que o terramoto se desenrolasse com tão grande violência, pois existe nessa zona «grande copia de hydrophilacios, e aqueductos de agoa salina, que com perpetua circulação lhe vay distribuindo, e repartindo pelas grandes cavidades, de que abunda os mayores cúmulos de matéria salitrosa, que he a mais proporcionada, e mais bem disposta para a mayor intensaõ do terramoto» […]. O que bastantemente se comprova das muitas fontes cálidas, multiplicadas fontes mineraes das Alcassarias, das caldas da Rainha, e de outras mais agoas salitrosas, que contêm a circumvisinhança do destricto de Lisboa; as quaes nos offerecem huma prova cabal, e manifesta da multiplicidade de mineraes de salitre, de enxofre, de outros mais inflamáveis, e combustiveis do fogo, que encerraõ dentro de si as concavidades deste terreno. Inflãmando-se pois os aglomerados cúmulos dos mesmos combustiveis» […] «e auxiliados do impulso do veto saõ os q occasionaraõ a mayor intensaõ do terramoto,» […] .

Discutiu-se também, entre os autores que apreciaram o acontecimento daquele dia primeiro de Novembro, se teria havido ou não quaisquer sinais prévios da Natureza que permitissem prognosticar o terramoto. A opinião quase geral é afirmativa, que sim, que até foram vários e bem definidos os sintomas do que estava para acontecer. Francisco Corte Real fala-nos da «futuriçaõ» dos terramotos em geral: repentina turvação das águas das fontes e dos poços, efervescência das águas das fontes, intumescência das águas dos mares, grandes ruídos subterrâneos, pavor insólito dos animais que saem aterrorizados das grutas em que habitam, secagem repentina de algumas fontes e aparecimento de outras, mudança de suas águas de cálidas em frias e de frias em cálidas, intempestiva serenidade do ar, extraordinário frio no tempo de estio, aparecimento de uma nuvem em forma de coluna de fogo e de outra em linha comprida depois do ocaso do Sol ou ainda com dia estendida no céu, círculo em redor do Sol ou da Lua, vapor denso de tom amarelo na atmosfera e, finalmente, ventos impetuosos e continuados. Para todos estes casos dá, o autor, justificações e exemplificações, sem se ocupar, em particular, do caso do terramoto de 1755. Quem dele se ocupa com igual intenção, é Joaquim Moreira de Mendonça, na História Universal dos Terremotos, fazendo notar que o inverno de 1751 foi de copiosas chuvas, em Portugal, principalmente na região de Loures; que os anos de 1753 e 1754 foram extremamente secos e com excessivos frios que gelaram as águas, não só as estagnadas como as correntes; que houve, nesses mesmos anos, grande tormenta de ventos; que no princípio do outono de 55 novamente caíram grandes chuvas; que nos últimos dias do mês de Outubro desse ano, já nas vésperas do terramoto, «se observou huma extraordinária intumescência das agoas do mar». Lamenta o autor que não se tivesse dado a devida importância a tais prognósticos, e escreveu: «Os princípios desta grande obra da natureza» [o terramoto] «não forão occultos aos homens, posto que a falta de reflexão deixou inúteis os signais delia». Considera que se processava já, no mês de Outubro, no interior da Terra mais próximo da superfície, «huma grande evaporação de partículas ígneas, aquosas, e de outras espécies, as quaes formavão na Athmosphera nuvens, cuja densidade, figura, e cor extraordinária erão objecto do pasmo de muitos Povos». Na véspera do terramoto viu-se no espaço um globo de luz, conforme «referirão algumas pessoas do campo, que vinhão para a Cidade. Notou-se também em algumas partes huma grande inquietação, e espanto nos animaes domésticos, e do monte» […]. «No fim do dito mêz» [de Outubro] «começarão a apparecer em varias partes as agoas turbas com mudança de sabor. Assim o observei muitos dias com displicência do máo gosto, que achava na agoa do poço do Senhor de Murça, de que usava por boa». Note-se que não se trata agora de informações adquiridas através da leitura de livros a respeito dos sinais que teriam antecedido o terramoto de 55, mas de factos que o autor apresenta como concretos e dos quais diz ter sido testemunho pessoal de alguns. E prossegue: «Em diversas terras foi visto hum vapor, como fumo, que sahia da terra, e causava hum grande defeito á luz do Sol, e da Lua. Na véspera do dia do Terremoto pelas cinco horas da tarde vi eu com grande admiração do adro da Igreja de N. Senhora da Graça esta Cidade cuberta de huma espécie de fumo amarelo escuro, que me causou algum espanto pela densidade, e cor. Na mesma noite se ouviu o mar summamente embravecido, posto que o tempo estava muito sereno. Experimentou-se o ar quente com hum calor, que a estação não permittia. Multiplicárãose em breves horas os signais da grande fermentação, que se estava fazendo no interior da terra».

Não se pode negar convicção ao autor destas palavras. Contudo, para outros, os «prognósticos» apontados seriam acontecimentos sem qualquer relevância. Quando Eugênio, um dos interlocutores de Teodoro de Almeida, lhe pergunta, na Recreação Filosófica, «E poderemos ter alguns indícios antes dos Terremotos, ou no ar, ou nas nuvens, pelos quaes nos acautelemos?», responde-lhe o mestre oratoriano: «Nenhum acho, que mereça séria attenção;» […].

O tipo de sinais da Natureza que permitiria prognosticar a proximidade de um terramoto, segundo os autores consultados, é necessária consequência das teorias por eles defendidas. Em todas essas teorias se imagina a produção de exalações provenientes das concavidades da Terra, exalações que alcançariam a superfície do solo dissipando-se no exterior através de fendas abertas no terreno ou já existentes, ou através da boca dos vulcões. A presença dessas exalações na atmosfera provocaria nuvens estranhas na forma e na cor, globos de luz, vapores que ensombravam o firmamento, halos luminosos no Sol e na Lua, aquecimento do ar, etc..

Também se discutiu, entre os autores, se haveria lugares mais sujeitos a terramotos do que outros, se haveria estações do ano mais propícias à sua eclosão, e horas do dia ou da noite preferenciais. Tinha-se em vista compreender por que teria sucedido aquilo em Lisboa, em Novembro, e de manhã.

Para tudo isto tiveram os observadores respostas fáceis, aliás fundamentadas em afirmações dos filósofos «antigos». Em Lisboa, porquê? Bento Morganti responde com clareza, embora sem se referir concretamente a Lisboa: […] «as partes mais próximas ao mar saõ sempre as mais sojeitas a sentirem os effeitos deste fogo subterrâneo, porque o mar lhe offerece huma matéria mais abundante para a sua subsistência, que as outras partes da terra, e por isso ordinariamente no mar he que rebenta o fogo, que causa os terremotos nas partes circumvesinhas, e adjacentes,» […].

E em Novembro, porquê? Já Aristóteles dizia que o Estio e o Inverno são pouco propícios a terramotos. […] «naõ succedem tanto no Estio, porque com o calor demasiado, e excessivo de tal sorte se abrem os poros da terra, que por elles se exhalaõ com facilidade, e sem a minima resistência aquelles espíritos, ou exhalaçoens de fogo, que saõ a origem do terremoto:» […]. O Inverno também não lhes é propício «porque pelo excesso, ou demasia do frio estão obturados os poros, e os meatos, que em si contêm a superfície do globo terráqueo» [o que pareceria ser favorável aos terramotos]; «e pela mesma causa e motivo naõ se accendem taõ facilmente, antes estão como sopitos com o frio aquelles hálitos, ou espíritos ígneos, que podiaõ concorrer para este me theoro». Na Primavera e no Outono, «principalmente quando o Verão antecedente foy muito seco» é que os terramotos se dão com maior frequência. O autor que estamos agora seguindo justifica a afirmação: «porque tanto no Outono, como no tempo da Primavera mais se profundaõ as agoas da chuva; e como levaõ comsigo a mistura de varias partículas sulfúreas, e nitrosas, que por occultos canaes vaõ distribuindo, e communicando pelas entranhas da terra, nestas se inflãmão, e rarefazem de tal forma, que na pertençaõ de lugar mais dilatado chegaõ a formar todas aquellas impressões, que se experimentarão em hum, e outro terremoto» .

Quanto às horas do dia ou da noite em que um terramoto tenha mais probabilidades de ocorrer, opina o autor que estamos seguindo, sempre com o apoio de Aristóteles, que é mais provável dar-se durante a noite, de madrugada, ou de manhã «pela crescença do dia», com o Sol não descoberto, porque «a ausência do Sol, e a frialdade nocturna naõ deixam sahir para fora as exhalaçoens, que estão reclusas nas concavidades da terra:» […].

É interessante acrescentar que alguns autores portugueses da época puseram também a hipótese de existir periodicidade para os grandes terramotos numa determinada área do globo. Anotando as datas sucessivas dos terramotos de maiores dimensões que têm sido sentidos em Lisboa nos séculos anteriores, concluíram que entre eles decorria um intervalo de tempo aproximadamente de dois séculos. Houve, de facto, em Lisboa, um terramoto muito violento no século XIV, e outro igualmente violento no século XVI. Considerando agora aquele que tinham sofrido no século XVIII, puderam admitir que o próximo, de maiores dimensões, se daria no século XX. Miguel Tibério Pedegache, um dos autores que escreveram sobre o assunto, diz, concretamente: «Persuado–me que entre os annos 1977 até 1985 haverá algum terremoto grande em Portugal».

Embora os autores portugueses setecentistas que escreveram sobre o terramoto de 1755 tivessem procurado interpretá-lo como um fenómeno natural, nenhum deles deixou de o encarar também como um castigo de Deus. Souberam esses autores distinguir as duas posições, a científica e a religiosa, de modo que uma não invalidasse a outra. As exalações sulfúreas e nitrosas, o fogo subterrâneo, as cavernas de matérias combustíveis, etc., tudo isso eram causas naturais, mas simplesmente «causas segundas», conforme lhes chamavam. Para além delas havia uma «causa primeira», que era Deus, de cuja vontade dependeria desencadear as causas segundas. Teodoro de Almeida definiu as suas duas posições pessoais com toda a nitidez escrevendo uma obra que dividiu em duas partes, a primeira em verso e a segunda em prosa. A primeira é um poema em seis cantos, em estâncias de oito versos de fraca qualidade, intitulada Lisboa destruída, em que o autor descreve o trágico acontecimento como um castigo de Deus:

Eis que Deos descarrega de repente

Sobre nós hum tal golpe, taõ pezado,

Que bem vimos ser braço omnipotente,

E por justos motivos irritado.

Toda a terra então treme, e justamente

Na presença de Deos, qu estava irado:

Estremecem do monte os fundamentos,

E perturbaõ-se os mesmos Elementos.

Na segunda parte, em prosa, intitulada Dissertação sobre a causa natural do famoso terremoto de Lisboa no [ano] de 1755, expõe o autor a teoria física que defende como interpretação do acontecimento. Nesta segunda parte, ao iniciar o texto, justifica-se perante o leitor esclarecendo-o de que «no Poema antecedente foi a nossa empreza mostrar as terríveis operações da Justiça e Omni potência Divina no funesto Terremoto»; agora, na segunda parte, «mostraremos os fenómenos, ou operações da natureza, instrumento, que continuamente serve á execução da santíssima, e adorável vontade do Ser Supremo nas obras da sua justíssima Providencia». Deste modo «ficará instruído, e contente o Filosofo, e o Christaõ».

Teodoro de Almeida inclui-se no grupo dos autores, que são a maioria, que entendem que o processo do terramoto se inicia com a determinação divina de o desencadear. As causas naturais são, para ele, causas segundas, que só actuam quando a causa primeira, que é Deus, resolve fazê-lo. Outros autores, porém, esses em menor número, concordam que Deus intervenha na eclosão dos terramotos, mas não necessariamente em todos. Aceitam a teoria das exalações sulfúreas, nitrosas, betuminosas, etc., admitindo que todos esses materiais, potencialmente preparados para a deflagração do processo, a possam promover apenas como consequência da sua situação física, sem pôr de parte a possibilidade de, num ou noutro caso, o terramoto ser provocado por expressa vontade de Deus. O médico Duarte Rebelo de Saldanha, já citado, intitula um dos capítulos da sua obra Illustraçaõ Medica, deste modo «Muitos terremotos saõ cauzados por pozitiva determinação Divina». Sublinhamos o «muitos» para pôr em evidência a posição do autor, na qual insiste, esclarecendo-a, no texto encimado pelo referido título: «Supposto que estas tremendas calamidades» [os terramotos] «tenhaõ cauzas taõ naturalissimas» [repare-se no superlativo], «e sejaõ em si uns productos naturaes; delles com tudo se serve Deus muitas vezes» [sublinhado nosso] «para o fim de moderar o maré magnum das perversas inclinações dos homens».

A referência às «perversas inclinações dos homens» revelam o motivo por que Deus teria decidido arrasar a cidade de Lisboa, sem complacência. Aí, na cidade, mais violentamente, mas também nas «diversas partes do Reino, porque todas brotavaõ com excesso as infames raízes dos vícios, de que o demónio fazia huma horrorosa colheita;» […]. Aos quatro elementos, a terra, o ar, a água e o fogo, que destruíram a cidade, equivaliam outros tantos vícios que dominavam os seus habitantes: a vaidade, a soberba, a ira e a luxúria. «Nosso Senhor» [quis assim] «mostrar a sua indignação a este povo, que sem embargo de ser seu muito amado, e escolhido por elle para a fundação do novo Império», foi sujeito ao tremendo castigo «pelos occultos arcanos da sua providência, ou porque os seus mais escolhidos saõ por imperceptíveis Juízos do mesmo Senhor, os mais mortificados» .

Nem para todos os autores, porém, as razões da ira de Deus teriam sido as mesmas. Uma vez entre todas destoava e essa vinha de longe, da Inglaterra, de uma das personalidades mais desta cadas da cultura portuguesa do século XVIII: Francisco Xavier de Oliveira, o Cavaleiro de Oliveira como é comummente citado. As razões por que Deus castigara os portugueses com o terramoto eram, para Oliveira, bem diversas; nada tinham a ver com os quatro elementos do vício, a vaidade, a soberba, a ira ou a luxúria. Eram razões de ordem exclusivamente religiosa, relativas ao com portamento dos portugueses perante Deus, perante os Evangelhos e perante os outros homens de credos diferentes. Francisco Xavier de Oliveira apresenta-se como sabedor das preferências íntimas de Deus, e acusa os crentes portugueses de se lhe dirigirem, a Deus, precisamente do modo que Deus mais detesta . Os Portugueses, supersticiosos e idólatras, violam permanentemente a Santa Lei. À força de devoções absurdas, de sacrifícios horríveis e de orações inúteis e indignas de serem escutadas, mergulharam na superstição mais vergonhosa e na idolatria mais grosseira. O culto que em Portugal se presta às imagens dos santos, em nada se distingue do culto que os pagãos consagram aos seus ídolos.

Foram duas, segundo Oliveira, as principais razões que decidiram Deus a descarregar a sua ira sobre os Portugueses. Uma dessas razões foi não se permitir, ao povo, em Portugal, a leitura da Bíblia, proibindo a sua publicação na sua própria língua, e procurando assim esconder os desvios dos verdadeiros caminhos sagrados que a Igreja, em seu entender, não respeita. A segunda razão era a perseguição cruel exercida sobre grande parte dos Portugueses, pela Inquisição, particularmente sobre os judeus.

A Francisco Xavier de Oliveira não interessaram as causas físicas do terramoto, nem sequer se lhes refere. O seu objectivo era apenas o de combater a religião católica em defesa do protestantismo que abraçara, e o terramoto serviu-lhe de motivo para isso.

Ribeiro Sanches, nas suas Consideraçoins sobre os Terremotos, também fala em Deus, mas sente-se, por detrás das suas palavras, certo constrangimento que não o deixa pôr a questão em termos abertamente claros. «Ninguém será taô ousado sem impiedade» – diz Sanches – «que affirme, que os Terremotos naô foram já instrumentos de que se serviu a Omnipotência para castigar os homens; mas taôbem ninguém seria taõ temerário que affirmasse, que todos elles succederaõ a este fim». O período escrito tem duas partes, mas a segunda não está na exacta continuação da primeira. Sanches não quis opor-se impiamente à letra das Sagradas Escrituras onde não escasseiam os terramotos como castigo de Deus, mas admite, sem se preocupar com a impiedade que lhe está implícita, que nem todos se justifiquem por aquele motivo. Parece que a vontade de Sanches estaria em afirmar que nenhum terramoto é devido à cólera de Deus, e as palavras que se seguem inspiram este sentimento. «Hoje» — diz Sanches, na continuação imediata do período transcrito — «hum eclipse da Lua ou do Sol naõ nos atemoriza, por que sabemos a cauza;» […]. «Se soubéssemos taôbem a cauza dos Terremotos, como a sabemos dos ventos, das trovoadas, e dos trovoins, naô teríamos, pode ser, estes notáveis movimentos da Natureza por castigo do ceo, nem tirariamos delles prognósticos para a nossa total ruina». A posição de Sanches torna-se assim clara e lúcida. Os terramotos são, todos eles, provocados por causas naturais, e é somente por ignorância de quais possam ser essas verdadeiras causas, que os interpretamos como sinais da cólera divina.

Na mesma altura em que Sanches redigia estas Consideraçoins, um alto representante da cultura portuguesa setecentista, Francisco de Pina e Melo, fazia ecoar a sua voz na capela do Hospital de Montemor-o-Velho, pronunciando um sermão que o celebrizou e em que dizia: […] «grande delírio he este dos que chamaõ sábios em dar ás cauzas naturaes os abalos da Terra, se só quem a fez com hum aceno, a pôde mover com huma palavra».

(Comunicação apresentada à Classe de Ciências, na sessão de 29 de Outubro de 1987)

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