As interpretações dadas, na época , às causas do terremoto de 1 de Novembro de 1755 #2

Comunicação apresentada à Classe de Ciências da Academia das Ciências de Lisboa, na sessão de 29 de Outubro de 1987 pelo Académico efectivo Rómulo de Carvalho (também conhecido como António Gedeão).

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O terramoto de 1755 deu origem a grande número de escritos que imediatamente vieram a público e em que os seus autores procuraram interpretar as causas do acontecimento. É interessante notar-se que tendo a cidade de Lisboa ficado praticamente destruída, logo as tipografias surgiram do caos para se entregarem à composição e à impressão dos textos que lhes eram apresentados para o efeito. Não é uma só mas diversas oficinas tipográficas lisboetas que recomeçam de imediato o seu labor tão tragicamente interrompido, o que se explica pelo hábil aproveitamento de uma oportunidade excepcional de comerciar colocando nas mãos do público, fortemente sensibilizado, notícias do terramoto. Poderíamos citar cerca de quatro dezenas de trabalhos escritos sobre o sismo, publicados em 1756. O interesse público por tais trabalhos prolongou-se até ao fim da década dos anos sessenta.

Alguns dos autores dos referidos escritos eram homens de mentalidade científica que, embora limitados nas suas apreciações por conceitos falsos de que não conseguiam libertar-se, eram contudo capazes de raciocinarem lucidamente com os dados de que dispunham. Poremos em evidência o caso do médico José Alvares da Silva que, ao apresentar a sua opinião sobre as causas do terramoto de 1 de Novembro, invoca o nome de Francisco Bacon, e diz: «E seguindo o methodo do novo orgaõ das sciencias naturaes que inventou o mesmo Bacon, não me valerei de alguma hypothese precária, sustentando o discurso nos constantes experimentos que me occorrem». É uma atitude «moderna» que merece aplauso. Ribeiro Sanches, que também logo em 1756 se apresenta com um escrito sobre o mesmo assunto, toma análoga posição metodológica: «Naõ se pretende demonstrar evidentemente a causa dos terremotos; tudo o que dissermos dele será por analogia». Teodoro de Almeida, com a sua habitual cautela, escreve, com o mesmo propósito: «Naõ ha coisa mais própria dos Filósofos do que pelos effeitos indagar as causas, que segundo as Leis da natureza os podem produzir».

Estamos perante um conjunto de personalidades, as citadas e outras, que se dispõem a encarar o problema com a máxima seriedade, na posição de homens de ciência, escrupulosos, que não misturam aquilo que lhes parece possível com o que lhes pareceria fantástico, embora se pudessem enumerar, a par destes, muitos outros autores de escritos sobre o mesmo tema para quem estas palavras não se justificariam.

«Entre os Phenomenos, que a Natureza offerece á contemplação da Physica, o mais dificil de se explicar he o Terremoto». Mas, que se deve entender por «terremoto»? «O Terremoto he huma pulsação, tremor, inclinação, ou subversão da terra em alguma parte do Globo Terraqueo». E qual será a causa desse fenómeno?

Nestes meados do século XVIII a visão que qualquer homem culto possuía da composição do Universo na sua globalidade baseava-se na velha concepção dos quatro elementos de Empédocles, a terra, a água, o ar e o fogo, com que se esgotam as aparências físicas que se nos deparam, o sólido, o líquido e o gasoso, e, aparte, o fogo que é distinto de tudo o mais, nem sólido, nem líquido, nem gasoso, matéria ardente geradora de luz e calor. Tudo quanto existe é constituído por esses quatro elementos, ou só por si, ou reunidos em proporções diversas, formando mistos. Bento Morganti assim se exprime em Carta de hum amigo para outro […]: «O globo que habitamos sendo vizívelmente formado de terra, e de agoa não deixa com tudo de nutrir em suas entranhas hum fogo effectivo, material, e ardente, que o ether excita por sua virtude activa, e movel, e como o ar se introduz em tudo, e naõ podendo ao mesmo tempo o fogo subsistir sem este elemento, disto resulta, que estes quatro elementos, ou princípios se achaõ misturados huns com os outros, de sorte que todos juntos formão este globo, e tudo quanto nelle se produz participa destas quatro substancias». Repare-se em que Morganti, além de se referir aos «quatro elementos» também alude a um «éter» que é o excitante desses elementos. Encontramos num outro autor, a definição deste «éter», sem o qual os elementos seriam inertes: «O Ether, fluido o mais sutil, e movel que tem a natureza, he aquelle corpo, em que o Supremo Author do Universo infundiu hum perpetuo moto. Com este agita o fogo, tem um movimento a agoa, não deixa aquietar o ar, e corre por todos os mixtos da terra». É o indispensável conceito de energia para completar o quadro da Natureza.

A origem dos terramotos tem de ser adaptada a esta visão. Como intervêm os elementos para que o fenómeno se processe, e quais, se não forem todos?

A interpretação exposta pelos pensadores do século XVIII, em pouco difere, substancialmente, da que fora dada, há muitos séculos atrás, pelos filósofos da Antiguidade Clássica. Eles próprios, os observadores setecentistas, citavam nos seus escritos os nome dos antigos filósofos com quem estavam de acordo ou em desacordo, com Parménides que atribuía a causa dos terramotos à terra, com Anaxágoras que a atribuía ao fogo, com Arqueláu que a atribuía ao ar, etc., e aplaudiam-nos ou criticavam-nos conforme a sua visão pessoal. A consideração pelas opiniões dos Antigos pesava fortemente nas suas mentalidades e as suas interpretações das causas dos terramotos quase se resumiam a decidirem qual dos Antigos é que tinha razão. De semelhante atitude nem sequer se libertavam os espíritos mais «modernos» de então, como Ribeiro Sanches. Para este ilustre médico setecentista quem dissera a verdade sobre os terramotos fora Plínio. Sanches o diz: «Pareceome supérfluo copear aqui a bella e judiciosa descripçaõ que Plínio fas dos terremotos». E envia o leitor para o Livro II, cap. 79 e 80 da Historia Natural daquela grande figura da Antiguidade Clássica.

A teoria generalizada da causa dos terramotos assentava no princípio de que existem enormes e profundas cavernas no interior do planeta onde se acumulam materiais diversos. Umas contêm «mistos» como sejam o enxofre, o salitre, os betumes, os metais, onde o «elemento» terra se encontra reunido a outros elementos, em proporções diferenciadas cuja diferença justifica as qualidades que distinguem esses mistos entre si. O enxofre, por exemplo, é um misto de terra, de ar e de fogo em certas proporções. Outras cavernas (ou receptáculos) contêm ar. São os «aerofilácios». Outras contêm água e outras fogo. São os «hidrofilácios» e os «pirofilácios». Dos hidrofilácios conhecem-se dois géneros: «huns, que na profundidade dos montes perpetuaõ as fontes, e os rios, como nos Alpes o hydrofilacio donde nasce o rio Pó, […] outros, que no mais profundo da terra se conservaõ perpetuamente cheyos de agoa, por cuja causa se chamam abysmos na Sagrada Escritura, quando diz, que se abrirão as fontes do abysmo, para que juntando-se com as chuvas do Ceo inundassem o mundo todo, […]».

É desta teoria das cavernas, dos grandes «filácios» no interior do planeta, que vai surgir a interpretação dos fenómenos sísmicos. Para o padre Teodoro de Almeida não resta a mínima dúvida de que tudo provém das cavernas onde se acumula o elemento terra nas suas diversas variedades. «Deixadas as opiniões de muitos antigos, que não merecem ser nem seguidas, nem impugnadas, tenho por certo que os Terremotos procedem de fermentação dos mineraes, particularmente enxofre». O mestre oratoriano tinha a seu favor, e nela se apoiava, uma célebre experiência efectuada pelo químico francês Nicolas Lemery (1645-1715), correntemente citada por todos os autores que escreveram sobre o assunto, experiência que surpreendeu o mundo científico da época em que foi realizada e ficou conhecida na História por «experiência do vulcão de Lemery». Lemery preparou um aglomerado de limalha de ferro muito dividida, e de enxofre, amassou o conjunto com um pouco de água e introduziu-o no solo, em terra, a um palmo de profundidade. Passadas algumas horas a terra que cobria a mistura começou a estremecer, a notarem-se nela pequenas fendas de onde emanavam fumos acabando por ser atirada ao ar energicamente, abrindo-se uma boca de onde saíam chamas. Não seria possível ter melhor imagem do desenvolvimento de um tremor de terra e da formação de um vulcão.

Os efeitos da pólvora inflamada, mistura de salitre, enxofre e carvão, conhecida desde há muitos séculos, era também prova convincente de que a «fermentação» dos mistos nas cavernas subterrâneas era causa de terramotos. «Huma mina de pólvora na sua explosão forma hum tremor de terra», diz Joaquim Moreira de Mendonça na sua História Universal dos Terremotos, recordando dois acontecimentos assinaláveis. Um deles foi o que se passou na praça forte de Azof, então em poder dos Turcos, cercada pelo exército russo, onde esteve presente, na sua qualidade de médico, Ribeiro Sanches que relata o que então se passou. Uma bomba caída no armazém da pólvora do forte sitiado, onde se guardavam quinhentos barris daquele explosivo, pegou-lhes fogo provocando um estrondo pavoroso e um violentíssimo abalo que desmoronou quase todas as casas das proximidades até grande distância. O outro acontecimento citado por Mendonça foi o que sucedeu em Lisboa no dia 13 de Fevereiro de 1745, em que também se incendiaram alguns barris de pólvora arrumados numa casa de madeira, na Ribeira. O estrondo e o tremor causados sentiram-se quase em toda a cidade e ficaram arruinados muitos edifícios próximos do local da explosão.

Com semelhantes exemplos tinha Teodoro de Almeida razão para estar convencido de que os tremores de terra provinham das cavernas subterrâneas onde fermentavam os mistos acumulados. «No célebre terremoto de 55» – escreve o mestre oratoriano – «rebentou em varias partes a Terra, lançando grande copia de huma matéria negra e betuminosa, que mostrava ter grande porção de enxofre, tanto na chamma que lançava de si, accendendo-a, como no cheiro: eu tive hum pedaço nas minhas mãos, e me certifiquei disso».

A origem dos terramotos não deixa dúvidas para Teodoro de Almeida que pode assim resumir o processo de formação de um abalo de terra: «Toda a vez que alguma causa accidental fez ajuntar os mineraes inimigos, hão de fermentar; assim como v. g. [verei gratia = por exemplo] fermentão a cal com a agua fria: e fermentando-se a matéria capaz disso nas cavernas da Terra, varias cousas necessariamente devem acontecer. Primeira: se a capacidade das cavernas não puder conter a matéria, que se dilatou, deve tremer, em quanto não desaffoga por alguma parte, ou se apaga a matéria. Segunda: huma vez acceza a matéria n’uma caverna, pegará fogo pelas cavernas vizinhas, onde quer que achar matéria capaz de se inflammar, ou dilatar; e para isso basta qual quer fenda ou racha e temos já que se deve communicar o terremoto a muitas léguas, em hum mesmo tempo sensivel; como succede na inflamação da pólvora, que por bem ténues rastilhos arde ao mesmo tempo sensivel em lugares mui distantes. Terceira: segue-se que não só ha de tremer o lugar superior ás cavernas que ardem, mas todos os circumvizinhos em redondo».

Enquanto para alguns investigadores é ao elemento terra que se deve atribuir a causa dos terramotos, para outros dever-se-á atribuir ao ar contido nos aerofilácios a responsabilidade dessas terríveis convulsões. Duarte Rebelo de Saldanha apresenta as suas razões a favor da intervenção do ar na eclosão dos sismos, na sua obra Illustraçaõ Medica: «sendo o ar um corpo fluido, que consta de partículas muito ténues, ramozas na figura, ou a modo de flexíveis spiras, elásticas, e com pequeno nexo entre si, se vê a intima similhansa, ou analogia (por não dizer identidade) que tem com o nitro: [nitrato de potássio] e já houve quem disse que não era o nitro outra coisa mais do que um ar condensado, assim como o ar um nitro rarefeito. Sendo o ar dotado deste caracter, precizamente ha de soffrer uma insigne compressão: ninguém hoje lha duvida; e o incomparável Boyle a mostra com innumeraveis experimentos» […]. Assim, «se elle [o ar] comprimido nas cavidades da terra chegar a dilatar-se por algum principio, nestes termos concutindo os penhascos, e corpos obsistentes, os commoverá de sorte, que succedaõ todos os impulsos competentes a formar um tremor na terra. Succede este fenómeno com muito maior forsa,» […] «quando se dilata por cauza do calor, porque lhe aumenta a sua elasticidade para os impulsos, explozões, e commoções;» […].

Entre os diferentes autores que puseram em destaque a intervenção do ar na eclosão dos terramotos, dando-lhe importância de relevo ou até mesmo atribuindo-lhe papel exclusivo no acontecimento, não queremos deixar de apontar Ribeiro Sanches que tão grande renome obteve internacionalmente como médico no seu século. Expressamente escreve Sanches: «He certo que no interior da terra existe Ar nas cavernas de que he composta, e que ficará taõ comprimido como for a profundidade do lugar em que estiver». Sanches apoia-se em experiências efectuadas pelo físico francês Amontons (1663-1705) que concluiu ser a densidade do ar no interior da Terra, à profundidade de dezoito léguas, do mesmo valor da densidade do mercúrio: «Do referido se vê» —continua Sanches — «que basta para causar terremotos que o Ar no interior da terra se rarefique».

Tanto Sanches como Rebelo de Saldanha atrás citado, e outros diversos autores que poderíamos acrescentar, consideram o ar como bastando por si só, para dar origem a terramotos, mas acreditam que o processo se desencadeia com mais eficiência se ao elemento ar se juntar o elemento fogo. Este último será, realmente, dos quatro elementos que compõem o Universo, aquele a quem caberá o papel de agente de maior relevo em todo o processo. A terra e o ar, embora só por si fossem suficientes para provocarem os abalos (aquela, devido às «fermentações» a que está sujeita; este, devido à sua elasticidade) só actuam vigorosamente se o fogo os activar. O outro elemento que resta, a água, pode concorrer eficazmente para o abalo terreno mas não dispensa o estímulo do fogo. A água, o elemento mais esquecido na exposição destas teorias, foi lembrado, por exemplo, por Francisco Corte-Real, na Nova Instrucçam Filosófica, nos seguintes termos: «Por virtude do fogo subterrâneo muitas vezes adquire a agoa huma tal effervecencia que naõ cab~edo nas estreitas clausuras da terra com toda a força solicita depois de rarefeita occupar extençaõ mais dilatada: mas he assim, que naõ pôde muitas vezes conseguir aquella dilatação que intenta sem demover convulsões, e tremores de terra, até que esta lhe facilite a sahida».

Continua… Amanhã publicaremos a terceira parte.

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