As interpretações dadas, na época , às causas do terremoto de 1 de Novembro de 1755 #1

Comunicação apresentada à Classe de Ciências da Academia das Ciências de Lisboa, na sessão de 29 de Outubro de 1987 pelo Académico efectivo Rómulo de Carvalho (também conhecido como António Gedeão).

Em 1 de Novembro de 1755, pelas nove horas e três quartos da manhã, começaram a sentir os habitantes de Lisboa, com espanto e angústia, que o chão lhes tremia por debaixo dos pés. O tremor fora antecedido de um ruído tumultuoso que vinha do interior da terra e que, por si só, não seria assustador, de acordo com a descrição de um contemporâneo que o comparou ao «de muitos coches correndo». E acrescenta: «de modo que os que estávamos na Igreja da Senhora das Necessidades, onde os Soberanos costumão ir aos sabbados, julgámos que chegava Sua Majestade».

Em breves instantes o tremor, que se iniciara por uma sacudidela lenta, cresceu com grande intensidade. As paredes dos edifícios começaram a dar de si, a estalar, a abrir fendas e em breve se desmoronaram abatendo-se sobre as pessoas que alucinadamente fugiam de suas casas, correndo pelas ruas. Era um sábado, e dia santificado, dia de Todos-os-Santos. Por ser dia de especial devoção, e por ser de manhã, estavam as igrejas a transbordar de fiéis que assistiam às missas, o que foi causa de grande mortandade. As pedras das abóbadas dos templos, as colunas dos altares, as paredes em redor, abateram-se abruptamente sobre as pessoas desvairadas e indefesas, erguendo nuvens de poeira que sufocavam os poucos que ainda conseguiam fugir a tempo.

O abalo durou cerca de sete minutos e transformou, em tão curto tempo para tão desoladora mudança, uma cidade cheia de animação e de movimento, num montão de ruínas. Quantas pessoas teriam perecido? Muitos milhares mas não se sabe ao certo quantos.

Ao primeiro abalo, o das nove e três quartos, sucederam-se mais dois no mesmo dia, igualmente violentos, um às onze horas da manhã e outro às três da tarde, provocando novos desmoronamentos, e novas angústias, após o que abrandou a convulsão da terra embora os pequenos tremores fossem prosseguindo nos dias e nos meses que lhes sucederam.

A multidão desvairada entendeu que estaria mais segura correndo para locais descobertos, sem casas nem arruamentos, para o campo se possível, e também para a margem do rio, para a largueza do terreiro do paço real ou para a Ribeira. Tudo inútil. Aí não eram as pedras das casas que esmagavam os fugitivos mas as ondas embravecidas do Tejo que avançavam sobre a cidade e depois recuavam levando tudo atrás de si. «[…] meia hora ou pouco mais de cada num dos tremores succedeo a intumescência do mar». «Em partes fugio muito o Tejo, e o mar descobrio praias, que nunca virão o Sol. Em outras partes entrarão as agoas muito dentro da terra». «O movimento das agoas, foi hum dos effeitos estupendos do Terremoto». «Mais de oito dias depois do primeiro de Novembro não tiverão as marés o seu curso regular».

A tamanha desgraça colectiva ainda se acrescentou a dos incêndios. As velas acesas nos altares das igrejas e nos oratórios particulares, as brasas dos fogareiros das cozinhas na habitação de cada um, facilmente pegaram fogo a panos, a roupas, a papéis sobre os quais tombavam. Logo ao primeiro abalo se seguiu imediatamente «taõ voraz incêndio que acabou por arruinar a melhor parte da Cidade, o qual principiou na mesma hora» – diz uma das testemunhas do acontecimento. A cidade ardeu «durante quatro dias» – informa outro comentador.

A movimentação do solo no decurso da memorável tragédia daquele primeiro dia de Novembro, deu-se segundo diferentes direcções, o que teria sido motivo para que o terramoto fosse mais devastador. Além de se agitar verticalmente também a terra «dava huns balanços com que a modo de embarcação», de nascente para poente e de norte para sul. São concordantes os diversos testemunhos, embora alguns dêem mais privilégio à direcção norte-sul. «A direcção dos seus movimentos» – diz um desses testemunhos – «suppõem todos de Norte a Sul. Não há dúvida, que os mayores, e de mais larga duração forão nesta direcção; e os que eu pude observar foraõ da mesma sorte; mas pessoas veridicas, e de caracter destincto, me affirmáraõ, que houve mudança nestes movimentos, que a terra também tremera do Oriente para o Poente» . Teodoro de Almeida, observador atento, é dessa opinião: «O movimento foi com balanço differente em diversos sitios de Lisboa, e de seus contornos. Em muitas partes foi o balanço de Norte a Sul, e n’outros de Poente a Nascente». O mestre oratoriano apresenta exemplos concretos, que apreciou cuidadosamente, de pormenores de edifícios que ruíram ou não, ou que sofreram deslocamentos, e até o caso de rotação sobre si mesmas de certas estátuas que ornamentavam o jardim da casa de campo do marquês de Ponte de Lima, em Mafra.

Não foi apenas na cidade de Lisboa e seus arredores que o terramoto de 1755 se fez sentir. Ele foi, segundo opinião abalizada, «o mais extenso que a sciencia assignala». O chamado, indevidamente, «terramoto de Lisboa», sentiu-se, pode dizer-se, em todo o Portugal Continental, na Espanha, no Norte de África, nas costas do Mediterrâneo, na Europa Central, na Inglaterra, na Irlanda, na Suécia, na Noruega, e até do outro lado do Atlântico. Os efeitos mais desastrosos deram-se porém no continente português, em Espanha e em Marrocos.

Interessaram-se os estudiosos da época por determinar o local de onde presumivelmente teria partido o abalo de terra, no que só poderiam fazer conjecturas mais ou menos perspicazes. Moreira de Mendonça, a quem a grandeza do desastre animou a estudar as suas causas e os seus efeitos e a escrever uma História Universal dos Terremotos que tem havido no Mundo, de que há notícia desde a sua criação até ao século presente, editado em Lisboa, em 1758, diz, nessa obra, com consciência das dificuldades do tema, que «Assignar o lugar certo do principio deste Terremoto he cousa impossível». As conjecturas que o assunto lhe suscitou, devidamente fundamentadas, levaram-no a uma primeira conclusão, a de ser «bastantemente provável» que o sismo «teve seus princípios nas Costas de África» […]. A afirmação não lhe pareceu contudo muito segura porque, mais adiante, acrescenta, «outros principies me fazem conjecturar, que a primeira explosão foi no terreno do Occeano immediato a Lisboa». Teodoro de Almeida suspeita apenas que o centro do abalo tivesse sido «quasi debaixo de Lisboa».

Embora faltassem a ambos os citados observadores elementos de informação que lhes assegurassem devidamente o que supunham, a hipótese de que o epicentro do abalo não estaria situado exactamente em Lisboa, como parecia, veio a coincidir com a hipótese apresentada século e meio mais tarde pelo geólogo alemão Wöhrle, em 1900, que entendeu ter sido a zona epicentral no Oceano Atlântico, a sudoeste de Lisboa, hipótese corroborada pelo geólogo suíço, Choffat, que viveu a maior parte da sua vida em Portugal.

Poucos dias após o terramoto de 1 de Novembro de 1755 decidiu o ministro de D. José, Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro marquês de Pombal, enviar a todos os párocos do reino um questionário de treze perguntas relativas ao sismo pedindo, com brevidade, as respectivas respostas por escrito. Pretendia-se saber o que se tinha passado em cada paróquia do país naquele dia fatídico, condição necessária para se avaliar a extensão e os efeitos do cataclismo. Perguntava-se a que horas se tinha dado o abalo, que tempo durara, em que direcção se manifestara, quantas casas se tinham arruinado, quantas pessoas tinham morrido, que se notara no mar, nas fontes e nos rios, se a terra se tinha fendido, que providências tinham sido dadas, que repetições de abalos se teriam verificado, etc., etc., um inquérito completo que poderia vir a tornar-se, nas mãos dos estudiosos, um elemento do mais alto valor. Do imenso acervo documental que teria sido o conjunto das respostas recolhidas, vindas de todas as paróquias do país, pouco chegou até nós, e esse pouco só foi estudado, pela primeira vez, já no nosso século, pelo geólogo Francisco Luís Pereira de Sousa que apresentou as conclusões a que chegara, num trabalho publicado em 1914, intitulado Ideia geral dos effeitos do megasismo de 1755 em Portugal .

Pereira de Sousa obteve uma ideia global dos efeitos do megasismo de 1755 não só recolhendo e analisando os dados disponíveis referentes a Portugal Continental como também a Espanha e a Marrocos, lugares onde o terramoto apresentou maior violência, chegando à fixação mais provável da zona epicentral que considerou ter sido «pouco mais ou menos no meio da distância entre o cabo de S. Vicente [no Algarve], e Rabat [no norte de África]». Para Pereira de Sousa «o terremoto de 1755 foi ainda o despertar d’esses movimentos verticaes que originaram o afundimento lusitano-hispano–marroquino e, talvez, os últimos arrancos d’uma parte da Atlantida, já então sepultada nas entranhas do mar». O autor considera este afundimento «como estendendo-se ao S. até o archipelago das Canárias e a O. até o archipelago da Madeira». As hipóteses de o epicentro do megasismo de 1755 se ter situado a sudoeste ou a oeste de Lisboa, e próximo dela, como se supusera, ficaram assim postas de parte.

Nota: Por não querermos truncar esta comunicação do Prof. Rómulo de Carvalho, e devido à sua extensão, optámos por publicá-la em partes. Amanhã publicaremos a segunda parte, depois a terceira, etc.

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