Singapura

Rui Bebiano/Facebook

O título deste post parece o de um thriller, mas refiro-me, é claro, ao lugar da cimeira EUA-Coreia do Norte sobre desnuclearização. O dispositivo cénico é medonho e pesado, mais concebido para amedrontar que para pacificar. Os resultados serão coincidentes: uma floresta de enganos que servirá a ambos os líderes para limpar um pouco da má imagem internacional que oferecem, enquanto realinham peões na sua pequena guerra fria. A generalidade dos média colabora no logro ao espalhar uma equívoca mensagem de esperança e de mudança a propósito do acontecimento. A ocorrer, ela será mais aparente que real e traduzirá mais um equilíbrio da força bruta militar que a construção de um ambiente de colaboração e entendimento no interesse dos povos da região. Não é preciso ser-se adivinho para escrever isto.

Foto: Saul Loeb/AFP

 

Problemas de memória com o Muro de má-memória: 4 notas de Rui Bebiano

Esta manhã publiquei um parágrafo retirado de um texto que Rui Bebiano escreveu e publicou no seu A Terceira Noite. Reedito agora este post e, com a autorização do autor, publico o texto na íntegra, para que o contexto em que esse parágrafo se insere não se perca. Em favor, também, de um debate urgentíssimo para as esquerdas, que o texto de Rui Bebiano, que não é um homem de direita, suscita. [S.A., 14:00]

Quatro notas sobre a queda do Muro

Rui Bebiano

1. Vinte e cinco anos após a derrocada do Muro de Berlim, boa parte do seu cenário permanece na nossa memória partilhada. Mais que uma incomum fronteira física, ele constituía uma metáfora, e as metáforas não se apagam a meros golpes de vontade e picareta. Do lado ocidental, uma pesada vedação de 155 quilómetros contornava todo o perímetro da parte da cidade que não fora ocupada pelo Exército Vermelho. Era possível tocar o betão que lhe dava solidez, sobre ele podiam pintar-se palavras de ordem, escalando até uma posição confortável conseguia observar-se de longe o hermético «Leste». Do lado oriental, o Muro era cinzento e deprimente, eriçado de arame farpado, ladeado por uma terra de ninguém minada e perigosa para qualquer leste-alemão que tentasse uma mera aproximação ao carcinoma do capitalismo. Em cada metade de Berlim, viva-se uma existência esquizofrénica que concebia a realidade a partir de duas escalas que simultaneamente se olhavam e ignoravam. Como se uma não pudesse viver sem a outra, aceitando-se na certeza de que a proximidade se materializava numa distância que condenava cada modelo à inflexível clausura. O Muro representava a metáfora suprema da simetria que a Guerra Fria impunha. [Read more…]

«De repente, uma sombra de medo

começou a pairar sobre as cabeças de muitos dos nossos políticos de tribuna e comentadores de cátedra. (…)» Rui Bebiano, atento. n´A terceira noite