Problemas de memória com o Muro de má-memória: 4 notas de Rui Bebiano


Esta manhã publiquei um parágrafo retirado de um texto que Rui Bebiano escreveu e publicou no seu A Terceira Noite. Reedito agora este post e, com a autorização do autor, publico o texto na íntegra, para que o contexto em que esse parágrafo se insere não se perca. Em favor, também, de um debate urgentíssimo para as esquerdas, que o texto de Rui Bebiano, que não é um homem de direita, suscita. [S.A., 14:00]

Quatro notas sobre a queda do Muro

Rui Bebiano

1. Vinte e cinco anos após a derrocada do Muro de Berlim, boa parte do seu cenário permanece na nossa memória partilhada. Mais que uma incomum fronteira física, ele constituía uma metáfora, e as metáforas não se apagam a meros golpes de vontade e picareta. Do lado ocidental, uma pesada vedação de 155 quilómetros contornava todo o perímetro da parte da cidade que não fora ocupada pelo Exército Vermelho. Era possível tocar o betão que lhe dava solidez, sobre ele podiam pintar-se palavras de ordem, escalando até uma posição confortável conseguia observar-se de longe o hermético «Leste». Do lado oriental, o Muro era cinzento e deprimente, eriçado de arame farpado, ladeado por uma terra de ninguém minada e perigosa para qualquer leste-alemão que tentasse uma mera aproximação ao carcinoma do capitalismo. Em cada metade de Berlim, viva-se uma existência esquizofrénica que concebia a realidade a partir de duas escalas que simultaneamente se olhavam e ignoravam. Como se uma não pudesse viver sem a outra, aceitando-se na certeza de que a proximidade se materializava numa distância que condenava cada modelo à inflexível clausura. O Muro representava a metáfora suprema da simetria que a Guerra Fria impunha.

2. A surpreendente festa libertada na madrugada de 9 de Novembro de 1989 – nem as manifestações, cada vez maiores, iniciadas em Leipzig dois meses antes, preludiavam tal desfecho – teve tanto de espontâneo e de natural como de objeto de incredulidade e embriaguez por parte de quem nela participou ou de quem, por todo o mundo, a acompanhou em direto através da televisão. À exceção dos entrincheirados defensores do modelo inflexível do «socialismo realmente existente», para a maioria dos alemães e dos europeus era visível o estado caótico do sistema económico da RDA, a decrepitude e o isolamento dos seus dirigentes, a interferência crescente da repressão e da censura, a ausência de respostas para as ambições de uma geração que as organizações do partido único já não enquadravam, a dissensão instalada entre os criadores e os intelectuais, o descontentamento manifesto de cada vez mais trabalhadores. Essa perceção havia tornado inevitável a transformação de qualquer sinal de mudança, por mínimo que fosse, numa via aberta de esperança. Independentemente desta ter ou não uma dimensão programática e sustentada. A vaga de transformações no leste europeu que se sucedeu ao fim do Muro, estabelecendo um ponto de viragem na história recente do qual o historiador marxista Eric Hobsbawm se serviu para balizar o termo do «curto século XX», tornou-se por isso imparável e irreversível.

3. Todavia, a realidade não foi simpática para as expectativas. Um quarto de século depois dos acontecimentos festivos, grande parte dos anseios e ilusões libertados está por cumprir. Tornou-se rapidamente visível que o capitalismo, lançado ele próprio numa situação de crise da qual conhecemos hoje a faceta mais sombria, não estava em condições de oferecer o hipotético paraíso que muitos dos alemães de leste e dos habitantes dos autoproclamados países socialistas acreditavam existir. As contradições agudizaram-se em pouco tempo, oligarquias exploraram no terreno a dissolução dos regimes fortes, que havia deixado a maioria dos cidadãos desprotegidos diante da barbárie neoliberal ou até de organizações criminosas. O próprio ideal comunista, tal qual era entendido pelos partidos no poder, implodiu e não soube recompor-se, procurando os seus herdeiros reunir os cacos de um sistema e de um modo de vida, sem grandes preocupações em repensar a realidade de um mundo em rápida mudança. Adaptando o ideal de solidariedade social e de governo para as maiorias a uma lógica capaz de integrar os valores da liberdade política, de expulsão da tirania do Estado e de aproveitamento das forças dinâmicas da sociedade para o crescimento da felicidade e do bem-estar dos cidadãos. Mas até nessa missão falharam.

4. Grande parte da esquerda não filiada nos partidos comunistas tradicionais – estes em boa parte irmanados na defesa do modelo que a queda do Muro remetera para os livros de História ou para os manuais de Ciência Política, e tantos têm sido escritos sobre o que aconteceu neste quarto de século –, não deixou de avaliar positivamente as transformações operadas após 1989. Embora, como lhe competia, rapidamente se lançasse também num processo de leitura crítica da degradação dos sistemas emergentes no leste europeu a partir dessa data. Mas essa não foi a atitude geral: entre nós, não deixa de ser sintomática a forma como alguns setores da esquerda jamais se libertaram dos fantasmas da Guerra Fria e têm encarado a data que agora se evoca. Em texto publicado no jornal Avante!, a direção do Partido Comunista Português reescreve a história, lançando um anátema sobre a «chamada queda do Muro», comemorada «pela direita e pela social-democracia», e retomando o argumento de que o seu levantamento fora determinado pelo ocidente para «conter o comunismo» e não pelas autoridades soviéticas e leste-alemãs para impedir a fuga maciça de cidadãos para a área controlada pelas potências ocidentais. Já o Bloco de Esquerda, apostado agora numa estratégia de dissolução gradual das diferenças em relação ao PCP, bem como na desvalorização da sua dimensão libertária e de combate às experiências burocráticas e autoritárias, que durante anos lhe garantiu boa parte do crescimento eleitoral, evita o tema, remetendo-se ao silêncio e afastando, como lhe competia diante das expectativas dos seus eleitores, uma leitura crítica, informada e justa dos acontecimentos que há vinte e cinco anos mudaram o mundo. Tanto tempo depois, também entre nós a queda do Muro conserva as suas ondas de choque. E continua a oferecer as suas lições.

Comments

  1. A.Silva says:

    Mais um texto de uma pretensa esquerda que não tem idéias acerca do futuro a não ser lamber as botas a uma social democracia decadente.

    Uns tristes sem futuro!

    • José Peralta says:

      E a “social democracia”, lá pela Rússia, também parece não estar muito florescente…com um “social democrata” ex-líder do KGB…

      Mais ou menos como aqui, um silva pais ! (Também já faltou mais…)

  2. Ferpin says:

    Gostava que dessem o link para o artigo do Avante. Ficaria espantado se verificasse que o PCP conseguia ter a lata de dizer que o muro foi erguido pelo ocidente para impedir a exportação do comunismo.
    Ninguém seria tão estúpido que viesse dizer algo que está desmentido por milhares de horas de filme, desde a construção, as fugas conseguidas e falhadas, a total liberdade dos berlinenses de Oeste irem à RDA vs a proibição do lado contrário.
    Não acredito que o PCP defenda tais tretas. Seria demais, daí que gostaria de comprovar com os meus próprios olhos.

    A queda do muro foi um dos momentos mais bonitos de liberdade e esperança para o mundo das ultimas décadas. E não é sua culpa que o resultado final do fim da ditadura soviética tenha sido trazer à superfície e ao poder o pior que tem o regime capitalista.

  3. Joam Roiz says:

    Bebiano, espero que leias o Aventar. Em grande medida é verdade o que dizes (há quarenta anos já sabíamos o que era o socialismo real na ex-União Soviética, embora estivessemos enganados quanto à China maoísta ); mas lamento que tu, Bebiano – tu que com tanta coragem militaste nos Núcleos Sindicais de Base (onde fui, com honra, teu camarada) – não digas uma única palavra sobre a miséria do capitalismo, sobre a exploração do homem pelo homem. É com desgosto que vejo as mentes mais brilhantes do meu tempo quase todas convertidas a uma social democracia serôdia e desgastada. Tu, Bebiano, enquanto homem das ciências sociais e de esquerda, tinhas a obrigação de pensar o combate contra o sistema capitalista, lendo a história prospectivamente e enunciando novos caminhos e saídas teóricas inovadoras, capazes de contribuir para uma transformação social no quadro de um socialismo renovado de raiz marxista (ou, se quiseres, fora dele, se entenderes que o marxismo já não serve a essa transformação). É esse o papel que nós, homens comuns, que mantemos ainda a Utopia e a esperança numa sociedade nova, mais justa e mais igual (que sabemos que o capitalismo, pela sua natureza, nunca nos trará) esperamos dos intelectuais; de esquerda, claro. Infelizmente, não é isso que tenho visto na tua produção teórica. Mas tenho pena, Bebiano, mesmo muita pena.
    Lê isto com a sageza toda. Responde. Obrigado.

  4. José almeida says:

    Li o artigo no Avante, por sinal muito bem escrito, e não consegui ler nem intuir que o muro foi construído pelo ‘Ocidente’. Rui Bebiano, (que não conheço pessoalmente), também não afirma isso, mas parece que tem que limpar os esqueletos do armário. Quem tem múmias, preserva-as, quem tem esqueletos faz bem em limpa-los, embora o pó libertado seja sempre desagradável. Basta ler estas 4 notas de Rui Bebiano. Porém, o muro e os esqueletos são irrelevantes quando nos apercebemos que ‘homens comuns perdem a Utopia e a esperança numa sociedade nova mais justa e mais igual’. Fico grato por saber que Joam Ruiz ( que também não conheço), não deixa que a chama se apague.

  5. José Peralta says:

    ” A criação da RDA socialista, herdeira das heróicas tradições revolucionárias do movimento operário e comunista alemão (de que, na sequência de Marx e Engels, são símbolos Rosa Luxemburgo, Karl Liebknecht e Ernest Thalmann) é inseparável da vitória sobre o nazi-fascismo na 2.ª Guerra Mundial e produto das aspirações do martirizado povo alemão à liberdade, à paz e ao progresso social.” (in Avante).

    A parte da vitória sobre o nazi-fascismo que coube à União Soviética, e o seu envolvimento na II Guerra Mundial, deveram-se ao fracassado “Pacto de não agressão germano-soviético”, que Hitler assinou com Estaline e traíu, invadindo a URSS.

    Pena que o PCP e o Avante “esqueçam” este facto histórico…

    E se esse Pacto de não agressão tivesse sido respeitado, e Hitler não tivesse sido vencido, a União Soviética ter-se-ia mantido neutral, perante o nazi-fascismo a avassalar a Europa ?

    Cumpliciar-se-a com a “amiga” Alemanha ?

    Perguntas óbviamente sem resposta !

    Mas…o que pensar de outros factos históricos indesmentíveis, como a invasão da Hungria em 1956, e o sequente ataque às aspirações à Liberdade, à Paz e ao progresso social do seu também martirizado Povo, com as convulsões, dissidências e abandonos que então provocou no PCP e em outros Partidos Comunistas ?

    Combate ao nazi-fascismo, sim ! A ex-União Soviética também foi grande vítima e teve a sua legítima parte na vitória.

    Pena ter-se ficado por aí !

Deixar um comentário

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s